Campeonato Brasileiro

28 dias

É de 28 dias a duração de alguns dos programas de reabilitação de alcoolismo mais bem sucedidos do mundo. Os especialistas costumam recomendar programas mais extensos, mas as dificuldades em pagar pelo tratamento e afastar alguém da vida social e profissional por alguns meses fez com que o fast-food das rehabs ganhasse fama, na medida em que os resultados se mostram satisfatórios quando a dependência não é das mais severas. Uma comédia até já usou esse tipo de tratamento como enredo, um filme homônimo a este post, estrelado por Sandra Bullock, na época em que ela era a namoradinha da América e ainda não ganhava prêmios por sua atuação.

Quem se conserva como um dos namoradinhos do Brasil é o Flamengo, o qual não vem sendo premiado pelas suas atuações, até porque não merece. Não que a Sandra merecesse ganhar o Oscar também, convenhamos. É óbvio que o mote do post é uma maldade, fruto de uma mente tão implicante quanto a de alguém incapaz de diferenciar odores tão díspares quanto os de uma cachaça e do enxaguante bucal da preferência de um certo dentuço. O problema do Flamengo não é de dependência química, embora algumas atitudes de pessoas envolvidas no dia a dia do clube fizessem mais sentido vindas de alguém que vive sob permanente efeito de uma vasta gama de narcóticos.

Nem mesmo tendo os tais 28 dias para se recuperar da eliminação precoce na Libertadores e do estadual inexpressivo, as coisas parecem melhorar na Gávea. Como no início do ano os jogadores mal têm tempo de perder a barriguinha conquistada na ceia de natal antes de entrar em campo, o Flamengo teve a raríssima chance de fazer uma pré-temporada no Brasil. Não aproveitou. No retorno das férias forçadas, mostrou-se mais uma vez disperso e Joel Santana não apresentou nenhuma novidade capaz de dar nova cara à equipe. Mesmo temeroso dos riscos de rebaixamento, o torcedor do Sport não deve encarar o empate com o time de maior renome como bom resultado. Jogando em casa, foram sim dois pontos desperdiçados.

Prova disso veio no último domingo, quando o Flamengo recebeu um esfacelado Internacional, que visitou o Engenhão sem nove de seus titulares (não, nenhum deles em litígio judicial com o São Paulo). Conseguiu ceder o empate, mesmo tendo aberto 3 a 1. O único reforço contratado é Ibson, que, quando atua pelo clube onde foi revelado, acaba sendo aguardado como o craque que nunca foi. É apenas um bom jogador. O reforço mais esperado era a saída de Ronaldinho, que não se concretizou. Enquanto a dívida com o jogador não é paga, o Flamengo terá de conviver com os chiliques do irmão/empresário do jogador, como se já não bastasse apagar os incêndios criados pela sua própria rainha louca.

No meio disso tudo, um elenco pressionado e um técnico que tem de ouvir seu principal atacante que tem aparecido pouco no campo para treiná-los. E uma certa animosidade entre os torcedores conscientes, que cansaram de ver tanta bagunça varrida para debaixo de um coração apaixonado, e os coniventes, que acham que apoio incondicional resolve tudo e que a camisa rubronegra jogará sozinha. Como o Flamengo não terá mais tempo para se internar em um programa de 28 dias, o jeito é recorrer a outra forma clássica de lidar com o seu vício (em confusões).

A minha sugestão é que ele siga os famosos 12 passos, os quais tomei a liberdade (e o descaramento) de reescrever, de modo a personalizá-los para a ocasião:

1) Admitimos que perdemos o domínio sobre os nossos rivais e nos tornamos a quarta força do futebol carioca.

2) Acreditamos que o poder do profissionalismo pode devolver-nos à sanidade.

3) Decidimos não entregar a vida de nosso clube aos cuidados de Patrícia Amorim, bem como de nenhum populista barato que venha a se candidatar para substituí-la nas próximas eleições do clube.

4) Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos. OK, não tão minucioso assim, senão perderíamos os próximos 15 jogos por W.O..

5) Admitimos a natureza exata de nossas falhas. Paramos de culpar erros de arbitragem, o calendário apertado ou gramados ruins pelos nossos maus resultados. Passo que serve para 99% dos clubes brasileiros, aliás.

6) Prontificamo-nos a remover todos os nossos defeitos de caráter. E mandá-los para o “mundo árabe”, caso eles atendam por Ronaldinho Gaúcho.

7) Humildemente, rogamos a Deus que nos livre da contratação de Adriano. Que ele nos perdoe, as pessoas ruins.

8) Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados. De forma digital, salvando mais árvores que qualquer veto que a Dilma viesse a impor ao novo Código Florestal.

9) Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas. Pagamos os salários e direitos de imagem atrasados. Ou pelo menos paramos de contrair novas dívidas que não teremos como saldar.

Para os passos finais, pedi a contribuição do amigo Arthur Chrispin (@achrispin), um dos flamenguistas conscientes citados mais acima:

10) Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, tivemos de ter vergonha na cara. Apontar os culpados certos, evitar crises públicas e a diretoria ter discernimento e caráter, colocando a cara pra bater em vez de se esconder em competições de basquete, remo, ginástica, natação, pelota basca e futebol de botão.

11) Procuramos, através da prece, da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, mesmo que Ele venha na forma de 45 pontos para evitar o rebaixamento. Rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e que nos dai forças para realizar essa vontade, correndo em campo pelos 90 minutos sem passear ou ter pane mental.

12) Tendo experimentado um despertar espiritual, conhecido empiricamente como “vergonha na cara”, graças a esses passos, procuramos transmitir essa mensagem ao Palmeiras e demais clubes, para que estes nunca cheguem ao nosso fundo do poço e possam praticar esses princípios em todas as atividades.

Com alguma disciplina e muita força de vontade, o Flamengo pode passar a se conhecer melhor e vencer os seus demônios, se reintegrando à sociedade de forma produtiva e saudável. Talvez volte até a vencer seus adversários. O lema é batido, mas continua sagaz: um dia de cada vez. Só não pode ser mal interpretado como um ponto a cada rodada. Do contrário, a reabilitação será longa e a clínica será a Série B do Campeonato Brasileiro.

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Equipe Trivela

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