Campeão em manutenção
Ser campeão brasileiro é um trabalho complicado. Passar pelas 38 rodadas e os muitos jogos exige muito do time, do elenco, do técnico. O Fluminense conseguiu tudo isso em 2010, acabou em primeiro e levantou a taça. Contou com um bom grupo, que foi regular. Mesmo assim, sofreu com um alto número de lesões.
Sai 2010, entra 2011 e os problemas continuam. Emerson, atacante importante e autor do gol da vitória no jogo do título tricolor, continua no estaleiro. É o titular, na teoria, mas joga tão pouco por causa das lesões que na prática o “sheik” precisa de um substituto que possa atuar por ele. Talvez fosse Araújo, que veio do Qatar, mas o atacante não deu liga com Fred nos poucos jogos que fez.
Nem Rodriguinho, nem Willians, que chegou a ser usado contra o Argentinos Juniors na Libertadores. Rafael Moura, trazido para, supostamente, ser o reserva de Fred, entrou bem no time, passou a fazer gols e tornou-se o titular ao lado do atacante e capitão do Flu.
O time, porém, ainda está longe de estar pronto. É um time ainda sendo moldado e o campeonato estadual deveria ser para isso. Com muitos jogos contra times fracos são uma espécie de laboratório daquilo que o time terá ao longo de temporada. Ou deveria ser.
Isso porque uma série de resultados negativos ou mesmo um resultado como o que o Fluminense teve no sábado, ao ser surpreendentemente eliminado pelo Boavista, faz com que o trabalho seja colocado em cheque. A pressão para a Libertadores, onde o time não começou bem, aumenta. E embora o jogo contra o Nacional não seja exatamente decisivo, ganha ares de um drama que não é tão grave assim.
O time ainda não conseguiu, de fato, repetir o mesmo futebol de 2010. É preciso que haja paciência: o time do Fluminense, à parte a empolgação do torcedor, é um time cheio de jogadores regulares que cumprem bem sua função, sem que sejam brilhantes. É só olhar com atenção.
No gol, Ricardo Berna é um goleiro razoável, que consegue ter bons momentos. Diego Cavalieri é tecnicamente excelente, mas ainda não conseguiu mostrar, depois que saiu do Palmeiras, a mesma qualidade – fica mais no banco do que em campo. Na lateral, Mariano é ótimo no apoio, mas sem ser capaz de abrir defesas. No centro da zaga, Gum e Leandro Euzébio são zagueiros que cumprem seu papel com eficiência, mas não estão entre os melhores do Brasil. Na esquerda, Carlinhos é bom jogador, porém instável.
No meio-campo, Edinho é um limpa-trilhos, sem grande qualidade na saída de jogo, mas com bom poder de marcação. Diguinho é bom na saída de bola, mas também é um jogador de altos e baixos. Marquinho e Souza, que revezam na posição, são bons jogadores, mais pela regularidade do que pela alta qualidade técnica.
Rafael Moura, Willians, Rodriguinho e Araújo são todos jogadores ótimos para compor elenco, mas nenhum deles é um protagonista. Atuam para o time, são úteis, por vezes eficientes. Não podem ser a estrela da companhia.
Quem destoa desse prognóstico e são, de fato, dois jogadores acima da média são Darío Conca e Fred. O meia argentino não é um gênio, é bom que se diga, e tem espaço no Brasil pela falta de jogadores na posição. É um jogador talentoso, habilidoso e consegue dar ritmo ao time. Fred é um atacante do mais alto nível, ótimo finalizador e cabeceador, sabe se posicionar e é técnico. Pode sair da área para jogar sem perder qualidade. Seu calcanhar de Aquiles é a parte física, já que vive contundido.
Tirando Fred e Conca do time, o Fluminense torna-se um time comum. O bom rendimento do ano passado se deveu mais à organização do time do que propriamente pela qualidade dos jogadores. E é exatamente por isso que é normal que o time tenha dificuldades ainda para se acertar. Além dos contratados que precisam de entrosamento, Muricy precisa aprender como poderá tirar o melhor dos jogadores que tem.
Esse é um dos grandes problemas dos estaduais. Os clubes e os torcedores cada vez dão menos importância a ele. Mas só se ganhar. E o próprio Muricy Ramalho, ainda nos tempos de São Paulo, repetia isso diversas vezes. Quem ganha não se beneficia – ou pergunte a um palmeirense ou botafoguense se ele se dá por satisfeito com o título estadual, único que ganharam nos últimos anos -, mas quem perde se prejudica.
É o mesmo caso do Santos. Apesar do time ainda estar ainda em começo de trabalho e com Paulo Henrique Ganso, uma das estrelas da companhia, ainda para entrar no time, já surgiram as primeiras críticas a Adílson.
O empate em 0 a 0 com o Deportivo Táchira na Libertadores foi ruim, mas não causou tantos problemas. Perder para o Corinthians no Pacaembu, em uma fase do Campeonato Paulista que vale muito pouco, fez aquele empate vir à tona e surgiram, com mais força, cornetadas contra o treinador e os pedidos de alguns setores da torcida santista pedindo sua saída.
No Sul, o Internacional sofreu do mesmo mal. Colocou o time B para disputar o primeiro turno do Campeonato Gaúcho, chegou às quartas de final, mas acabou derrotado pelo Cruzeiro-RS. As críticas a Celso Roth ressurgiram, resgatando o episódio Mazembe. O empate contra o Emelec fora de casa na Libertadores, sofrido no último minuto, passou a pesar mais. Alguns colorados pediram a cabeça do técnico.
Os clubes precisam aprender a administrar o campeonato estadual. É melhor sofrer com as críticas durante o campeonato regional do que causar distúrbios na preparação física e do próprio time para a sequência do ano, seja na Copa do Brasil ou da Libertadores e no Campeonato Brasileiro.
O Inter teve a coragem de colocar o time B, mas a derrota fez o clube voltar atrás. O São Paulo por vezes ameaçou fazer o mesmo, mas não fez. Chegou a colocar reservas na Libertadores para disputar um clássico pelo Paulista, há dois anos.
Enquanto os times tratarem o campeonato estadual com esse peso enorme que dão, especialmente nas derrotas, o prejuízo continuará sendo grande, a pressão cada vez maior.
Atlético-MG tem início promissor
O Atlético-MG, sob o comando de Dorival Júnior, tem um início de ano muito melhor do que o ano passado. É bom lembrar que apesar de ter sido campeão mineiro em 2010, o time parecia menos consistente. E tomando por base o final do Brasileiro-2010, Dorival parece ter mantido o bom trabalho que faz e vai dando forma ao Atlético. No jogo contra o Cruzeiro, encarou um time que, nos últimos anos, tem sido superior e não tomou conhecimento do rival. Encarou de igual para igual, venceu e convenceu.
Neto Berola, um atacante contestado, tem ido muito bem neste ano, como foi bem em alguns momentos do ano passado. Ricardinho, aos poucos, torna-se o ponto de equilíbrio do meio-campo, com cadência. O time tem problemas, mas alguns pontos montam uma Bse sólida. Réver é referência na zaga, junto com Leonardo Silva, outro bom zagueiro.
No meio-campo, Richarlyson é bom jogador e se conseguir controlar o ímpeto que tem por levar cartões, pode ser importante. Renan Oliveira é um meia incisivo e perigoso, que dá a velocidade que Ricardinho não tem. No ataque, Magno Alves vem fazendo boas partidas e vai dando indício que o bom momento que teve no Ceará no ano passado não foi só uma marolinha.
Nenhum desses jogadores têm o talento do Santos de Dorival do primeiro semestre do ano passado, mas o Dorival consegue armar bem o time e pode fazer o Galo brigar por mais do que em 2010. O que o estadual não nos deixa saber é o quanto mais. Sabemos que bom desempenho em estadual não alimenta barriga de ninguém. Mas o time tem tudo para fazer um 2011 bem melhor do que o de 2010. É esperar para ver.



