Brasil

Calor insuportável ou temporais: gramados do Brasil estão preparados para eventos climáticos extremos?

Trivela ouviu especialistas em gramas esportivas para entender se estádios brasileiros aguentariam mudanças climáticas

O Brasil ficou chocado e teve seu sentido de solidariedade despertado com a tragédia no Rio Grande do Sul após fortes chuvas deixarem quase todo o estado debaixo d'água. É mais um dos eventos climáticos extremos vistos no país recentemente. Se não são as ondas de calor, vistas em São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados, são os temporais severos.

As mudanças climáticas impactam todos os setores, e o futebol obviamente não fica fora disso. Dentre as imagens chocantes das enchentes no RS, viralizaram a situação do Estádio Beira-Rio e da Arena do Grêmio completamente alagados — no estádio do Inter, a previsão de retorno é mais otimista do que se imaginava —, além dos respectivos centros de treinamento. O estado revive a apreensão no início deste inverno, com um novo aumento nos índices pluviométricos.

De certo modo, a situação foi muito específica, mas levantou a questão se os gramados das casas dos clubes brasileiros estão preparados para eventos extremos.

Como a grama natural do país reage em um período de precipitação muito alto ou muito quente? Talvez o gramado sintético, por não exigir tanta manutenção, seja o futuro no futebol brasileiro? Para isso, a Trivela ouviu especialistas em gramas esportivas, que responderam essas perguntas.

Gramados brasileiros estão preparados para o calor extremo?

Desde a construção dos estádios de futebol, são considerados os aspectos do clima local, dando também uma margem para caso haja um evento climático extremo.

No Brasil, o tipo de grama mais utilizado é a Bermudas, com origem provável da Savana Africana, que por característica é capaz de resistir ao calor extremo, conforme contou Rodrigo Santos, engenheiro agrônomo e coordenador do Centro de Gramados Esportivos da Itograss.

— As gramas mais utilizadas nos gramados esportivos de alta performance, como é o caso da maioria das arenas utilizadas pelos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro de futebol, são conhecidas popularmente como grama Bermudas. Essa grama confere uma grande resistência a altas temperaturas. Além disso, as Bermudas são extremamente resistentes à falta de água — detalhou o especialista.

Mesmo com esse tipo de grama específica, ainda há necessidade de um sistema de irrigação para os dias mais quentes, como explica Lucas Pedrosa, diretor técnico da Greenleaf Gramados.

— Para controlar dias consecutivos de calor, é importante ter um sistema de irrigação projetado e automatizado, que poderá fazer as regas com controle de água e uniformidade em toda a área gramada. Essa lâmina de água ajudará a diminuir a temperatura superficial e regas mais pesadas no início da manhã, que não serão perdidas por evapotranspiração, irão percolar nas camadas do solo e ajudar na absorção de água pelas raízes — disse Lucas Pedrosa, que adiciona:

— Havendo esse sistema de irrigação, não há com o que se preocupar; quanto mais luz a grama receber, mais ela irá crescer e se desenvolver.

E as chuvas?

Especialistas garantem que gramados brasileiros estão preparados para mudanças climáticas (Foto: Icon Sport)

Os especialistas ouvidos pela Trivela garantem que o sistema atual comporta o que temos visto em quantidade de chuva, ou mais do que isso. Eles destacam especialmente os estádios construídos para a Copa do Mundo de 2014 como um exemplo dessa adaptabilidade ao clima.

— Citaremos as arenas da Copa do Mundo construídas no Brasil. Esses empreendimentos foram construídos com todas as etapas construtivas para atender qualquer clima em determinado tempo.

Sobre as chuvas, foram colocados drenos espaçados a cada 5 metros com caimento da água nas laterais ou fundo de campo, e, em alguns casos, instalada a drenagem sub-air ou a vácuo, que são tubos coletores fechados ligados a uma bomba que suga o ar deles e geram um vácuo.

Tudo isso e outras tecnologias garantem o gramado apto a suportar um volume de água grande em curto espaço de tempo, como nas duas horas de uma partida de futebol — contou Pedrosa.

— O projeto de um sistema de drenagem adequado para uma arena esportiva considera, no momento da sua elaboração, os dados históricos de precipitação do local onde ele será instalado e ainda, por segurança, adicionam uma margem que pode ser de até 20%. Portanto, a drenagem desse estádio é capaz de proporcionar condições para jogo, mesmo que as chuvas sejam as maiores que aquela região já viu. — reiterou Rodrigo da Itograss.

No entanto, em um período de chuvas de várias horas, o poder de drenagem dos gramados pode sofrer com a eficiência. Lucas Pedrosa também explica que, para tudo isso funcionar, a manutenção é essencial.

— Claro que se o volume for intenso por várias horas, você vai perdendo o poder de infiltração, já que vai ocorrendo a saturação do solo pela quantidade presente de água no solo ser maior que a quantidade de infiltração.

Importante citar que, se não houver um manejo adequado e um planejamento mensal de operações nos gramados, que incluam descompactações, aerações e os tratamentos na grama com eficiência, pode atrapalhar o funcionamento de todo sistema construído e investimento feito — afirmou o executivo da Greenleaf.

Gramado sintético é a solução?

Gramado sintético do Allianz Parque é sempre alvo de polêmicas (Foto: Icon Sport)

Conhecidos por serem mais baratos para manter, os gramados sintéticos viraram uma grande polêmica no futebol brasileiro. Pensando nos eventos extremos, que exigirão cada vez mais das arenas, a grama artificial poderia ser uma solução, mas, na verdade, não é tão simples assim.

Lucas Pedrosa aponta que o “tapetinho” costuma ter custo maior de implantação, apesar de ser mais barato para manutenção. O especialista explicou que, em comparação ao gramado natural, o sintético tem pior permeabilidade para as chuvas.

A permeabilidade da grama sintética é menor do que a da grama natural, o que pode ser um fator relevante em eventos extremos, como fortes chuvas. A estrutura de suporte da grama natural é geralmente composta por uma base arenosa, que oferece uma capacidade de infiltração natural do solo. Por outro lado, no caso da grama sintética, o contrapiso é composto por cimento ou bica corrida e emulsão asfáltica, materiais que diferem de um solo com capacidade de infiltração.

— Portanto, ao considerar a escolha entre grama natural e sintética para um campo de futebol, é importante levar em conta não apenas os custos iniciais e de manutenção, mas também as características relacionadas à permeabilidade e à capacidade de infiltração do solo — finalizou Rodrigo.

No caso do calor extremo, vimos o estádio do Palmeiras como um exemplo negativo para lidar com essa situação. O termoplástico do sintético do Allianz Parque derreteu com as altas temperaturas na cidade de São Paulo no ano passado e virou uma pasta que grudava na sola da chuteira dos jogadores. Por isso, obrigou uma manutenção, utilizando outro material, e o clube passou um período longe de casa.

Rodrigo vê as gramas atuais do Brasil como adaptáveis aos eventos extremos do clima e aponta que o gramado natural é mais sustentável em comparação ao sintético, também contribuindo para mitigar os efeitos dos gases do efeito estufa — o que causa o aumento da temperatura no planeta.

— Os gramados esportivos são agentes naturais excepcionais quanto à capacidade de se adaptar às mudanças climáticas, como vem ocorrendo com o aumento médio da temperatura e da concentração das chuvas. […] O gramado natural é sustentável e pode ser vitalício, controla a umidade e a temperatura do ambiente ao seu redor, proporcionando maior biodiversidade, e, principalmente, é capaz de sequestrar carbono da atmosfera e mitigar assim os efeitos dos gases do efeito estufa — concluiu o especialista.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.
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