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Calendário 2014 pode plantar semente da ruptura com a CBF

Uma sexta-feira qualquer, um anúncio antecipado e a CBF pode ter criado um monstro que irá virar contra ela mesma. O calendário do futebol brasileiro de 2014 confirmou os temores de um acúmulo enorme de jogos e uma situação ainda pior que em 2013. Jogadores manifestaram serem contrários e fizeram um manifesto, clubes já se movimentam para esvaziar os estaduais e pode ter tempo para dar férias e se prepararem para a longa temporada. E a CBF, sem querer, pode ter criado a semente para uma ruptura definitiva dos clubes com a entidade.

Jogar o campeonato estadual em 2014 será um suicídio para os clubes. É fácil chegar a essa constatação olhando para o calendário do futebol brasileiro para o próximo ano, divulgado na sexta-feira pela CBF. O Brasileirão em 2013 termina no dia 8 de dezembro. Os estaduais em 2014 começam no dia 12 de janeiro. Serão 34 dias de intervalo entre um e outro. Um crime não só contra os atletas, que serão submetidos e um grande risco por um preparo físico inadequado, mas contra os clubes, que terão seu desempenho obviamente comprometido e contra os torcedores, que terão um futebol muito pior por causa disso.

“O calendário para o ano que vem é absurdo para todos. Os jogadores estão conversando, para ver se a gente consegue ser ouvido. Quem está perdendo é o futebol brasileiro. O calendário não é pensado nos jogadores”, disse o meia Alex, do Coritiba, jogador de 36 anos que viveu oito anos na Europa, defendendo o Fenerbahçe, em entrevista coletiva na tarde de segunda-feira, na capital paranaense. É mais uma fala de uma série de jogadores reclamando do calendário brasileiro, com muitos jogos em pouco tempo, tudo achatado para caber em um ano cheio que teve Copa das Confederações no Brasil. Se a Copa das Confederações, que dura cerca de duas semanas, já está causando um enorme estrago no calendário de 2013, o ano de 2014 tende a ser muito pior.

Calendário do futebol brasileiro para 2014, divulgado pela CBF (clique para ver a imagem ampliada)
Calendário do futebol brasileiro para 2014, divulgado pela CBF (clique para ver a imagem ampliada)

Os estaduais são, de longe, o que mais incha o calendário brasileiro. É uma competição de baixo nível técnico, que sobrevive graças ao poder político das federações estaduais e, em alguns casos, ao dinheiro da TV – nesse caso, especificamente São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul. Sobrevivem com uma força e um número de datas desproporcional ao que representam atualmente. Em 2013, foram 23 datas para os estaduais, o que representa 60% das datas do Campeonato Brasileiro. São campeonatos regionais que duram longos quatro meses e uma disputa que só faz sentido nas fases finais.

Para 2014, esperava-se uma diminuição substancial no número de datas dos estaduais, porque é onde claramente há gordura de sobra para isso. Só que a diminuição esperada não veio. De 23 datas, os estaduais ficaram com 21. A solução da CBF foi colocar o início dos estaduais em 12 de janeiro, pouco depois de virar o ano. Uma solução genial, só que ao contrário.

Por isso, os clubes catarinenses pensam em deixar o estadual de lado no seu início. O Atlético Paranaense fez isso em 2013, embora não por esses motivos. O Furacão abriu mão do estadual por uma briga política comprada pelo presidente Mario Petraglia contra os veículos de imprensa e também por não concordarem com o valor dos direitos de transmissão pagos pela TV. Assim, o time não jogou o Campeonato Paranaense com o seu time principal. Só os jogadores sub-23 disputaram a competição e acabaram derrotados pelo Coritiba na final. A temporada do Atlético começou na Copa do Brasil, no dia 3 de abril, quando jogou contra o Brasil de Pelotas. Cinco meses depois, com muito menos jogos que a maioria dos times brasileiros, o Atlético Paranaense faz uma campanha surpreendente e é quarto colocado. Leonardo Mendes Júnior, da Gazeta do Povo, de Curitiba, discutiu a possibilidade do Atlético Paranaense estar bem por ter jogado menos no ano.

“A final da Copa Sul-Americana, se chegarmos, é dia 12 de dezembro. 12 da janeiro começa o Paranaense. Como vamos fazer isso? O calendário deveria respeitar as férias e preparação dos times. A pré-temporada não é para o estadual, é para o ano todo”, disse ainda Alex.

As palavras de Alex não são um ato isolado. O jogador é um dos que tem falado sistematicamente sobre o problema do calendário. E o anúncio do calendário de 2014 suscitou um movimento de jogadores e comissões técnicas de clubes da Série A e B do Campeonato Brasileiro. Jogadores importantes, como o próprio Alex, do Coritiba, Elias, do Flamengo, Rogério Ceni, do São Paulo, Alexandre Pato, do Corinthians, Juninho Pernambucano, do Vasco, Jefferson, do Botafogo, Andrés D’Alessandro, do Internacional, Zé Roberto, do Grêmio, Paulo Baier, do Atlético Paranaense, Victor, do Atlético Mineiro e muitos outros.  São 75 no total, com representantes de times da Série A e B. Você pode ver detalhes do manifesto dos jogadores na matéria da Folha, de Bernardo Itri e Marcel Rizzo.

Os times estão tendo que jogar praticamente em todos os meios de semana porque o calendário brasileiro teve que ser parado para a Copa das Confederações. O Coritiba de Alex, por exemplo, completará nove partidas neste mês de setembro, somando Campeonato Brasileiro e Copa Sul-Americana. Não é a primeira vez: em agosto, o time já tinha disputado oito jogos. Em outubro, o time fará mais oito jogos. Em novembro, pode chegar a nove jogos se alcançar as quartas de final e semifinal da Sul-Americana. Se isso se confirmar, o Coritiba chegará a incríveis 34 jogos disputados entre agosto e novembro.

“Cada rodada os times estão sofrendo com isso. Muito se fala de preparação, departamento médico, mas não falamos de calendário. E isso não é bom para ninguém. Quem está perdendo qualidade é o futebol brasileiro. Todos os jogos, no segundo tempo o nível cai muito. Os jogadores têm falado a respeito, comentando. Nossa esperança é que o calendário para 2015 seja diferente. Que seja pensado nesse lado, para que os atletas sejam ouvidos”, analisou Alex.

A comparação com a Europa

Há quem diga: “Mas na Europa também se joga quarta e domingo”. Ao final do jogo entre Fluminense e Coritiba, no sábado, dia 21, o atacante Rafael Sóbis desabou no chão assim que o apito final soou. Passou mal, vomitou em campo. Cansado, ficou estirado no campo, antes de se levantar para deixar o gramado. Foi abordado pelo repórter do Sportv, que transmitia o jogo. “Quem perde é o espetáculo. O jogo fica lento, os jogadores não têm mais pernas. É brincadeira esse calendário. Todo mundo fala que na Europa é a mesma coisa, tem que dar um prêmio para quem fala isso. O Brasil é muito grande, temos viagens longas, lá eles não têm os estaduais”, disse o jogador.

Não é por acaso que se fala muito em estaduais como problema do calendário. Levantamos os jogos do Coritiba, adversário do Fluminense no sábado e time do meia Alex, e comparamos com a temporada do Chelsea em 2012/13, quando o time inglês fez um número excessivo de jogos. Sim, na Inglaterra, há fortes críticas ao calendário local justamente pelo excesso de jogos. Colocamos também o possível número de jogos do Corinthians até o fim de 2013, considerando que o time chegue à final da Copa do Brasil, e do Barcelona, caso o time catalão chegue à decisão em todas as competições que disputa. Veja a comparação:

 

Número de jogos Brasil x Europa

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Conforme se vê no gráfico, o número total de jogos dos times é:

Coritiba (projetado): 75
Chelsea (2012/13): 67
Barcelona (projetado): 63
Corinthians (projetado): 79

Deu para ver que não é igual, né?

Em levantamento feito pelo Futdados, é possível ver que antes mesmo de chegar o mês de outubro, mais de 20 clubes já bateram a marca de 50 jogos no ano. É jogo demais. Ainda há chão até o fim da temporada, mas os clubes já chegam perto do número de jogos máximo que o Barcelona, por exemplo, pode fazer nesta temporada. Confira:

Não, a solução não é acabar com os estaduais, mas adequá-los

Não é preciso acabar com os estaduais para resolver o problema do calendário. Em grande parte, os torcedores já entenderam que os estaduais valem pouco comparados ao resto do ano. Mesmo em clubes de menor expressão entram no estadual preocupados em conseguir vaga na Série D. Sabem que jogar uma divisão nacional e tentar o acesso será uma glória marcante para o clube e importante para os anos seguintes. Então, é preciso que o estadual seja adequado ao seu tamanho atual: um torneio de tiro curto, que sirva como um aperitivo da temporada do Campeonato Brasileiro, que é a grande competição do país.

“O Campeonato Brasileiro tem que ser o carro chefe. Acredito que os regionais deveriam ser classificatórios e vistos de outra maneira”, afirmou ainda Alex, do Coxa, em mais uma das suas frases com a imprensa na terde de segunda-feira. Em abril, aqui mesmo na Trivela, propus uma nova fórmula para os Campeonato Estaduais. Só que há um grande problema nisso, que é tirar o poder das federações de cada estado, o que é difícil de acontecer na atual estrutura do futebol brasileiro. E se não for possível mudar os estaduais de forma racional, o que fazer?

A possibilidade radical: ruptura. Uma nova liga?

Uma das soluções possíveis é a ruptura completa dos clubes com as federações estaduais e a CBF para a criação de uma liga independente. Em grande parte do mundo, é assim que funciona. Nos países europeus, em boa parte da Ásia e em países africanos também, como na África do Sul.

Esse passo chegou a ser dado no Brasil em 1987, quando o então recém-criado Clube dos 13 organizou o Campeonato Brasileiro, já que a CBF abriu mão de fazer isso. Você pode ler mais sobre o campeonato de 1987, controverso até hoje, no livro-reportagem “1987 – O ano sem campeão”, da jornalista Esther Morel.

A fundação do Clube dos 13 aconteceu na manhã do dia 11 de julho de 1987, no Morumbi, com a participação de 13 clubes: São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Santos, Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Internacional, Grêmio e Bahia. O Jornal do Brasil informou ainda que Guarani e Portuguesa não entraram no grupo porque foram consultados e não concordaram com a ideia. Um dos principais nomes desse movimento era o presidente do São Paulo na época, Carlos Miguel Aidar. E é justamente ele quem pretende resgatar essa ideia quase 30 anos depois, já que o Clube dos 13 acabou só organizando uma edição do Campeonato Brasileiro e tornou-se, depois disso, basicamente uma organização para negociar e distribuir direitos de televisão.

Segundo o blog do Juca Kfouri, Aidar, que é o candidato do atual presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, para sucedê-lo na eleição de abril de 2014, tem a ideia de conversar com os chamados 12 grandes clubes do Brasil para voltar a falar sobre a criação de uma liga. Considerando a atuação situação do calendário brasileiro, os problemas em não respeitar datas Fifa, o inchaço dos estaduais e a falta de capacidade coletiva de negociar direitos de transmissão, é bem possível que não só os 12 clubes, mas muitos outros possam estar dispostos a criar uma liga.

André Sánchez, ex-presidente do Corinthians, já deu declarações há algum tempo que levavam a entender que a criação de uma liga seria uma forma de não depender da CBF. Se Aidar e Sánchez se unirem, são capazes de juntar as insatisfações dos clubes e romper de vez com a CBF. Mas não é algo simples. E vai, certamente, ter uma resistência enorme tanto das federações estaduais, que ficariam com seu poder esvaziado, quanto da CBF, que dificilmente abriria mão do seu poder. José Maria Marin chegou a dizer, depois de assumir a presidência da CBF, que não havia chance da fundação de uma liga. Tentou dar atenção, melhorou alguns aspectos na Série C e D, mas ficou longe de resolver os problemas.

O calendário de 2014 pode ter sido só a semente de uma mudança muito maior e que o futebol brasileiro precisa há muito tempo. Um começo pode ser os clubes não jogando os estaduais com seus times principais, já que mudar a fórmula será difícil porque isso descumpriria o Estatuto do Torcedor. Resta saber se os envolvidos, jogadores e clubes do futebol brasileiro, aproveitarão essa oportunidade para mudar de vez o nosso futebol. Ou se cederão aos caprichos dos presidentes de federações estaduais e da CBF, que há anos enriquecem seus cofres sem conseguir organizar nem razoavelmente o futebol no Brasil.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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