Brasil

Autoridades são inertes para combater manipulação de resultados no Brasil

Por Thiago H. Barbosa*

A manipulação de resultados é um daqueles fenômenos que aterroriza e entristece a todos os que são apaixonados por futebol. Casos graves ocorridos em países de grande tradição futebolística, tais como Itália, Alemanha, França e Inglaterra, e também outros acontecidos em centros de menor expressão, já trouxeram imensos danos à integridade e à credibilidade do esporte mais popular do planeta e ainda seguem acontecendo.

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A despeito de se tratar, portanto, de um tema sensível, ele faz parte da realidade do esporte e não pode ser deixado de lado. Ainda mais levando-se em conta que também o nosso futebol já sofreu bastante com as fraudes de resultados. O futebol brasileiro já foi palco de diversos escândalos de corrupção de resultados que mereceram, em diferentes momentos, grande destaque da mídia esportiva e policial, além de terem deixado marcas profundas em vários de nossos campeonatos.

Em 1982, por exemplo, a revista Placar denunciou um terrível esquema de fraudes que ficou conhecido como a “Máfia da Loteria Esportiva”. Os protagonistas do escândalo foram cerca de 100 indivíduos, entre atletas, treinadores, árbitros e dirigentes esportivos, os quais, conforme notícia publicada à época, teriam se associado a funcionários da Caixa Econômica Federal no intuito de obter altos lucros em jogos cotados na loteria esportiva.

Quinze anos depois, já em 1997, um novo grave caso veio à tona. Na ocasião, o então presidente o então Presidente da Comissão Nacional de Arbitragem da CBF (CONAF), Ivens Mendes, foi flagrado em conversas telefônicas nas quais insinuava a existência de um esquema de corrupção centrado na arbitragem e por meio do qual se buscava gerar vantagens dentro de campo a alguns grandes clubes do futebol brasileiro. A falcatrua foi denunciada pelo Jornal Nacional, da TV Globo, além do caso sido também objeto de matéria produzida pela revista Placar. Vários árbitros confirmaram a existência do sistema de fraudes de resultado e disseram ter sido vítimas de pressão e ameaças de Ivens Mendes para que atuassem conforme suas diretrizes.

Em 2015, um terceiro grave escândalo de manipulação, também noticiado por toda a imprensa nacional, assombrou o futebol brasileiro e dessa vez as consequências foram as mais traumáticas. Dois árbitros paulistas, Edílson Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon, envolvidos com empresários do mercado das apostas esportivas, foram responsáveis pela manipulação de várias partidas de torneios como Copa Libertadores da América, Campeonato Paulista e Campeonato Brasileiro das séries A e B.

Como resultado das fraudes praticadas, 11 partidas do Campeonato Brasileiro Série A daquele ano, apitadas pelo árbitro Edílson, então reconhecido como um dos melhores do país e que carregava a insígnia da Fifa, acabaram anuladas e tendo que ser novamente disputadas, conforme determinação do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

Sem entrar no mérito da qualidade e assertividade da decisão proferida por aquela Corte, fato é que a competição acabou marcada para sempre em razão do ocorrido já que a anulação e repetição das partidas fez com que o Corinthians terminasse o campeonato à frente do Internacional e campeão Brasileiro, o que não teria ocorrido caso os resultados originais das partidas tivessem sido mantidos.

Entre um caso de manipulação e outro, chamamos a atenção para algo que nos gera profundo incômodo e que não se refere propriamente às fraudes. Trata-se sim da inércia tanto das autoridades desportivas como do poder público no sentido de desenvolver medidas capazes de prevenir e combater a ocorrência de novos casos de manipulação no presente e no futuro. Há pelo menos 34 anos sabemos que existem casos de fraudes de resultados no futebol brasileiro, mas, a despeito das consequências nefastas trazidas por todos os casos de corrupção de resultados que mencionamos, até hoje fomos incapazes de desenvolver, em âmbito nacional, programas sérios e eficazes de proteção ao esporte.

Fato é que o futebol em todo o mundo não está livre desse grave problema e como o Brasil é parte do mundo por aqui também não estamos. É preciso agir. É importante que sejam adotadas providências efetivas contra o problema. Ainda mais porque casos de manipulação têm ocorrido com uma constância alarmante por todas as partes do planeta. A globalização, a expansão dos mercados online de apostas esportivas e a participação acentuada do crime organizado nas fraudes são fatores que contribuem para o agravamento do problema e sobre os quais necessitamos estar bastante atentos.

Nos últimos meses, sérias denúncias indicando a ação de manipuladores de resultados no Brasil têm surgido e de modo algum podemos ignorá-las. O caso mais grave dentre todos os identificados até aqui ocorreu no interior do estado de São Paulo envolvendo atletas e dirigentes do Grêmio Barueri, um clube que há poucos anos figurava na elite do futebol brasileiro. Esse caso, porém, não se trata do único. E não se iludam, o estado de São Paulo não é o único alvo dos criminosos. Há indicativos da ação dos manipuladores em jogos de campeonatos de diversas outras localidades do Brasil também.

Pelo bem do futebol, é essencial, portanto, que medidas de combate ao problema sejam tomadas pelas autoridades desportivas e governamentais. Maior atenção à questão salarial dos atletas, desenvolvimento de programas de educação e prevenção, contratação de serviços de monitoramento de sites de apostas, atuação conjunta entre as entidades administrativas do desporto e órgãos do poder público. Essas são algumas das ações a serem desenvolvidas contra o fenômeno da manipulação de resultados.

E devem ser desenvolvidas o quanto antes. Não ocorrendo isso, em breve estaremos vivenciando e amargando novos e tristes episódios de corrupção no futebol brasileiro.

* Procurador do STJD do Futebol e Pós-graduado em Direito e Gestão Desportiva pela FIFA/CIES. Mestrando em Direito Desportivo pelo Instituto Superior de Direito e Economia de Madri. Professor da Escola Nacional de Justiça Desportiva (ENAJD) e membro do Comitê de Integridade da Federação Paulista de Futebol.

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