Brasil

Atlético Mineiro confirma retorno de Cuca para retomada do trabalho interrompido ao fim de 2021

Após a demissão de Turco Mohamed, Galo foi na opção mais segura para tentar se recuperar na temporada

O nome mais óbvio para assumir o Atlético Mineiro foi anunciado pelo clube, oficialmente, neste sábado (23): Cuca está de volta ao banco de reservas do Galo, pouco mais de sete meses depois de sua saída, ao fim de uma gloriosa temporada em 2021. O movimento rápido em anunciar o técnico que levou a equipe a uma dobradinha no Brasileiro e na Copa do Brasil no ano passado surpreendeu muito mais pela velocidade com que as coisas aconteceram do que necessariamente pelo retorno de Cuca.

A história estava desenhada dessa maneira, e dentro do histórico do próprio Cuca, essa possibilidade de dizer sim novamente jamais esteve descartada. Quando anunciou repentinamente sua saída, após o título da Copa do Brasil diante do Athletico Paranaense, o comandante repetiu um roteiro já conhecido em temporadas vencedoras. Foi assim no Palmeiras, em 2016, quando desligou-se do cargo dias após a confirmação da conquista do Brasileiro, e havia sido assim no bom trabalho que entregou à frente do Santos, em 2020, incluindo uma final de Libertadores.

A justificativa era quase sempre a mesma: questões familiares que afastavam o treinador de iniciar um segundo ano de trabalho, no qual poderia consolidar sua filosofia e criar laços permanentes com o elenco. Quando falamos em roteiro repetido, não nos referimos só às saídas inesperadas, mas também aos retornos após pouquíssimo tempo. O problema nesses casos é que o futebol muda muito rápido e o que deu certo em dezembro, pode não dar certo no mês de agosto seguinte. O Palmeiras de 2017 implodiu com Cuca no centro de uma polêmica com Felipe Melo. Conta a favor do elenco atleticano que não há figuras com perfil combativo similar para que haja alguma intempérie com o treinador. Ao menos até onde sabemos.

Para o Galo, a iniciativa de sacar Turco Mohamed após uma turbulência que culminou em eliminação da Copa do Brasil parece um motivo muito pequeno. Mas se olharmos para a sombra que o sucesso de Cuca fazia na rotina do argentino, talvez a exigência sempre estivesse acima do que foi entregue em campo. Valeria a pena esperar mais uma queda para demitir Mohamed? O futebol moderno indica que não.

Assim como todos os outros clubes que brigam na parte de cima da tabela, o Galo oscila. Oscila pois seus atletas sentem o peso de uma temporada intensa em várias frentes. Quantos times, hoje, conseguem disputar três competições de alto nível como a Libertadores, o Brasileiro e a Copa do Brasil? Nenhum. Escolhas precisam ser feitas, pernas precisam ser poupadas e prioridades são definidas. A do Atlético, aparentemente, era a de ganhar todos os troféus possíveis, e se isso for considerado como megalomaníaco, basta olhar para as peças que Cuca terá para alcançar isso nos próximos meses.

Trabalho por trabalho, a passagem de Mohamed não foi exatamente ruim, mas esteve quase sempre aquém das expectativas projetadas para um ano de consolidação do time no cenário nacional e internacional. Turco já não era bem cotado há algumas semanas, esteve ameaçado de queda, mas conseguiu se recuperar em jogos importantes. No entanto, a circunstância da eliminação para o Flamengo levou a diretoria a questionar se ele era mesmo o melhor profissional para conduzir o elenco no restante da campanha. A possibilidade de preparar melhor os jogadores com a lacuna deixada pela saída na Copa do Brasil foi uma justificativa plausível, mas que não explica o todo. É a crônica de uma demissão anunciada.

Cuca pega um time que conhece com a palma da mão e fez render maravilhosamente bem em 2021. E aí paira o dilema: será Cuca o mesmo técnico que tirou o clube da fila de mais de 50 anos no Brasileiro? Daqui até o fim da temporada, são quatro meses. Existe tempo para que se repense tudo com calma, ou a pressão contaminará o vestiário? Difícil dizer qual cenário é mais provável. Com Cuca, volta a mística e o sonho do bi da Libertadores, que só poderá ganhar mais força se o Galo passar pelo Palmeiras, seu algoz na última edição. É nesses dois jogos que está concentrada toda a expectativa da torcida para o resto de 2022. E caso ela não venha, o Atlético terá todas as suas atenções voltadas para defender o título nacional, que nesse contexto, teria seu favoritismo por conta do desgaste implícito que o Palmeiras sofrerá até novembro, bem como Corinthians, Flamengo e Fluminense, concorrentes que estão vivos em mais de um torneio.

O jeito Cuca de treinar é muito peculiar e qualquer previsão que seja feita pode ser desmanchada rapidamente. O que o Atlético e seus medalhões ganham de imediato é a retomada da convivência com alguém que tinha um grande plano, fazendo a torcida lembrar do maravilhoso ano de 2013, em que o Galo conquistou a América. A sensação de reencontro pode ser muito positiva nos primeiros jogos, mas não servirá sozinha para impulsionar um sucesso ainda maior para os atleticanos.

Material humano, rendimento, grandes jogadores, o retorno de um modelo que deu certo e uma agenda menos tumultuada do que a maioria dos rivais: esse é o caminho do Galo para entregar o que todo torcedor sonha em vivenciar novamente. A questão inevitável a ser feita é: qual será o efeito causado pelo rompimento no ano passado? É tão fácil assim ir embora e voltar como se nada tivesse acontecido? Aguardemos as cenas do próximo capítulo dessa história que tem todos os contornos e facetas de uma grande novela.

Foto de Felipe Portes

Felipe Portes

Felipe Portes é zagueiro ocasional, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes
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