Brasil

Atlético-MG: Cem anos de solidão

No momento em que o goleiro Edson falhou pela enésima vez e o Náutico, no último sábado, abriu o placar no Mineirão contra o Atlético, a situação alvinegra, complicadíssima pela turbulência política, agitação de bastidores, revolta na torcida e instabilidade na classificação, estava em intensa ebulição. Ainda que Renan Oliveira – em um golaço – e Vinícius tenham remontado o placar, esta semana promete ser tumultuada na Cidade do Galo. Tão quanto a anterior.

A renúncia do presidente Ziza Valadares foi uma surpresa grande para praticamente todos atleticanos, mas a decisão de Ziza não torna melhor e nem pior a situação do Galo. Tendo sua gestão investigada pelo Ministério Público, o dirigente que veio do departamento de futebol mostrou claras incapacidades de planejamento e tinha inimigos internos quase declarados.

Publicamente, conselheiros e vice-presidentes criticavam a gestão de Ziza, a quem acusavam de ser centralizador, entre outras coisas. A depredação da sede do clube por parte de marginais disfarçados de torcedores, ameaças de morte ao próprio presidente e seus familiares, e o afastamento do público do Mineirão não foram atitudes isoladas, mas sim concomitantes e que tornaram insustentável a permanência de Ziza, que tinha mais um ano e três meses de mandato para cumprir.

A verdade é que, em quase três anos como presidente atleticano, Ziza Valadares não conseguiu desvincular sua imagem da do criticadíssimo e nefasto Ricardo Guimarães – trampolim para a ascensão de Ziza no Atlético. Ainda que com uma gestão nem tão infeliz quando a anterior, foi incapaz de dar ao Galo e sua torcida maravilhosa um ano digno. Senão repleto de grandes títulos, mas com transparência, serenidade e objetivos definidos.

O cenário que se desenha para esta semana deve ser visto, também, com bastante preocupação. Ainda nesta segunda-feira, os quatro vice-presidentes – Renato Salvador, Roberto Vasconcellos, Gil César Moreira de Abreu e Ronaldo Vasconcelos – devem confirmar suas saídas. Na prática, significa que não aceitam, nenhum deles, receber o cargo entregue por Ziza.

Assim, o presidente do Conselho Deliberativo, João Batista Ardizoni, deverá abrir novas eleições para as próximas semanas. Entre os nomes especulados – Alexandre Kalil, Itamar Vasconcelos e Sérgio Bias Fortes – o temor de que Ricardo Guimarães, supostamente dono da maior parte dos votos do Conselho – retorne ao clube. Sérgio Bias Fortes seria o candidato próximo de RG.

As dívidas atleticanas, aliás, são gigantescas e as receitas de 2009 já estariam praticamente comprometidas. Uma derrota na Justiça, diga-se passagem, obriga o Atlético a pagar 21 milhões de reais à WRV Empreendimentos, em razão de uma dívida contraída por um empréstimo da gestão de Ricardo Guimarães. Em linhas gerais, o total do negativo do Galo transcende os 200 milhões de reais, segundo o Estado de Minas.

Os números gigantescos, a investigação do Ministério Público, a solidão e a pressão interna, além do temor por sua própria integridade física e de sua família, somaram um cenário que, para Ziza Valadares, foi insustentável.

Ainda que a vitória sobre o Náutico tenha posto um pouco de paz no cotidiano atleticano, a turbulência deve, naturalmente, atingir o futebol. Como já atingira, aliás, há alguns meses. Membros da direção do Atlético fizeram uma faixa de apoio ao presidente Ziza e entregaram aos jogadores. Liderado, segundo versão extra-oficial, por Marques e Petkovic, o elenco preferiu não se envolver na rixa do cartola com a torcida – orquestrada, claro, por membros da direção que faziam oposição à Ziza.

Após a renúncia do presidente, o capitão Marcos admitiu, publicamente, o temor que os salários atrasados voltassem a prejudicar o desempenho do elenco – um dos poucos pontos positivos da gestão de Ziza foi manter os compromissos com funcionários, jogadores e comissão técnica em dia.

Sem presidente, sem vice-presidentes, sem o apoio total da torcida e com um ano de centenário triste, o Atlético vive dias de solidão. Sua própria posição na classificação, longe do grupo que vai até o 11º e pode pensar em Libertadores, consegue manter uma distância razoável e, a 12 rodadas do fim, anestesiar, em doses curtas, a possibilidade do rebaixamento. Terminar 2008 em meio ao caos e ao marasmo é um cenário desolador para uma camisa da magnitude do Clube Atlético Mineiro.

Tudo errado no ano número 100

As possibilidades de título – ou ao menos um ano glorioso – se diluíram rapidamente no imaginário do torcedor do Galo em 2008. Historicamente acostumado com más administrações e desilusões, o atleticano nem pôde crer quando a direção não chegou a um acordo com Emerson Leão, responsável pela empolgante arrancada da equipe na reta final de 2007. Com uma vitória dentro do Parque Antártica, o Atlético foi à Sul-Americana e selou o destino de Caio Júnior – dando a vaga na Libertadores ao Cruzeiro, por ironia do destino.

A não permanência de Leão, que voltou ao Santos, foi pequena perto da frustração pela nova atitude da direção. Geninho, após um trabalho discreto no Sport, voltou ao clube que deixara em 2003 – para ir ao Corinthians – e à torcida que não lhe engolia desde então. Foi uma contratação infeliz e, pior, desnecessária.

A necessidade de dar respostas à sua torcida no ano do centenário fez o Galo pensar em Ricardinho e Gallardo, mas trazer Souza e Marques para o início da temporada. O Campeonato Mineiro, única real chance de título para o Atlético, foi utilizado como laboratório pela direção, que assumiu publicamente a idéia de testar uma série de atletas resgatados de empréstimos por outros clubes ou, sem expressão, trazidos para testes.

A derrota no jogo de ida da final estadual contra o Cruzeiro, por 5 a 0, mostrou que o time atleticano era bem inferior em relação ao que haviam aparentado os jogos mais simples do Ruralzão. A situação era triste, o Campeonato Mineiro se foi, mas a manutenção de Geninho no cargo foi a saída encontrada para tentar amenizar o conturbado ambiente. Não houve jeito.

Os anúncios de Petkovic e Castillo, em meio aos festejos do centenário, constrangeram o sempre vibrante torcedor atleticano. Ironizava-se, já que as somas das idades de Pet, Marques e Souza contabilizava, justamente, o número 100. É verdade que o sérvio, surpreendentemente, mostra bom futebol no Atlético, mas nem isso foi capaz de dar mares seguros ao Galo.

Sem Geninho, que pediu demissão após a eliminação na Copa do Brasil contra o Botafogo – mesmo algoz de 2007 e em um confronto de grande importância para o orgulho atleticano -, a aposta em Gallo fez com que o Atlético visse um pouco mais de sintonia, em um técnico com história dentro do clube. Em 13 jogos, o novo treinador só ganhou quatro, e ainda que se visse progresso em sua equipe, seu trabalho foi devastado após a sonora goleada de 6 a 1, imposta pelo rebaixável Vasco no fim de julho.

Hoje, com Marcelo Oliveira, o Atlético se afastou discretamente do rebaixamento. Conhecedor e responsável pelas sucessivas gerações vitoriosas que formou nas categorias de base, Marcelo manteve a fórmula tática do 4-3-1-2 e não mudou tantos nomes, dando apenas mais tranqüilidade ao grupo.

Sem parceria, CRB vai cair

O supracitado Marcelo Oliveira, no início do ano, foi enviado para Maceió como o responsável por estreitar ainda mais os laços entre Atlético e CRB, cuja parceria, no último ano, tinha sido a maior explicação para a permanência do clube alagoano na Série B. A passagem de Marcelo durou semanas e, sem a parceria, o CRB apenas conta os dias para ter o rebaixamento matematicamente decretado.

A parceria entre os dois clubes é um dos alvos de investigação do Ministério Público, que alega que o acordo era bastante nocivo ao Atlético. Cedendo jogadores pouco utilizados, o Galo fortalecia os alagoanos e, teoricamente, extraía quem lhe interessasse, ou mesmo negociava.

Marcelo Nicácio, maior destaque do CRB em 2007, voltou ao Galo para a atual temporada como uma das esperanças de gol para o ataque que não tinha um comandante. Naufragou, como todos os outros que passaram pela função nos últimos dois anos.

Rodada para Palmeiras e Flamengo

O Palmeiras com um ponto a menos e uma vitória a mais que o Grêmio, o Flamengo de volta à zona de classificação para a Libertadores após nove rodadas – essas foram as maiores marcas da 26ª rodada do Campeonato Brasileiro. Em contrapartida, o Botafogo perdeu o segundo jogo consecutivo, o São Paulo empatou o quarto jogo em cinco e Goiás e Internacional voltaram a vencer, diminuindo a distância para o sonho de brigar pela América em 2009.

No Parque Antártica, o Palmeiras desfilou com tranqüilidade e venceu novamente o Vasco, três dias após a classificação na Sul-Americana. Luxemburgo voltou a utilizar três zagueiros e dois volantes, soltando Leandro pela esquerda e deixando Diego Souza próximo dos atacantes. Parece a melhor saída para uma equipe segura para a reta final.

O Flamengo venceu, voltou ao G-4, mas ainda transmite instabilidade. O placar mínimo, contra o Ipatinga, era tão pouco convincente que Caio Júnior aumentou o poder de fogo no segundo tempo, mesmo com a vitória iminente. O treinador rubro-negro precisará mostrar, dessa vez, habilidade em produzir um ambiente vitorioso nos momentos de tensão.

Na parte baixa da tabela, Vasco e Fluminense seguem entre os quatro últimos e ampliam a possibilidade de ao menos um carioca – e grande – ser rebaixado para a próxima Série B. Imagina-se que os clubes, logo, deixarão a posição desconfortável, mas restam apenas 12 rodadas.

Resumos do primeiro turno

Grêmio, Cruzeiro, Palmeiras, São Paulo e Vitória
http://dassler.blogspot.com/2008/08/anlise-do-primeiro-turno-grmio-cruzeiro.html
Coritiba, Flamengo, Botafogo, Sport e Internacional
http://dassler.blogspot.com/2008/08/anlise-do-primeiro-turno-coritiba.html
Figueirense, Atlético-MG, Goiás, Portuguesa e Náutico
http://dassler.blogspot.com/2008/08/anlise-do-primeiro-turno-figueirense.html
Atlético-PR, Vasco, Santos, Fluminense e Ipatinga
http://dassler.blogspot.com/2008/08/anlise-do-primeiro-turno-atltico-pr.html

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo