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As saídas de Holan e Soteldo provocam ainda mais dúvidas sobre o já instável ambiente do Santos

Em poucas horas, o Santos recebeu duas notícias duras para o planejamento de seu futebol, que colocam ainda mais interrogações sobre a capacidade competitiva do clube. Yeferson Soteldo, que tinha sua transferência já dada como certa e necessária pelas circunstâncias financeiras, foi confirmado como reforço do Toronto FC. Enquanto isso, Ariel Holan pediu demissão e deixou o comando dos alvinegros depois de apenas 12 partidas. Apesar das tentativas da diretoria em manter o treinador, não houve acordo. E, com a fase de grupos da Libertadores em pleno vapor, na véspera de um jogo decisivo contra o Boca Juniors, os santistas precisam achar um novo rumo.

A explicação oficial sobre a saída de Holan se concentra nos protestos realizados por torcedores em frente à sua casa, com foguetório após a derrota no clássico contra o Corinthians. Lidar com a insatisfação da torcida não é uma situação nova para o argentino, que enfrentou casos bem mais delicados no Independiente. Num clube onde a barra brava possui uma influência política enorme, o técnico chegou a ser ameaçado por Bebote Álvarez, líder dos uniformizados. Bebote tentou extorquir Holan e realizou ligações prometendo atacar a família do treinador. Holan recorreu a proteção policial, sobretudo depois de outubro de 2017. Naquele momento, Bebote fez um sequestro-relâmpago com o treinador e exigiu o pagamento de US$50 mil, enquanto 15 capangas armados com paus cercavam Holan. O comandante se recusou a dar o dinheiro e, mesmo assim, foi liberado.

Holan chegou a ter idas e vindas no Independiente por conta das ameaças, mas permaneceu no clube até 2019. No Santos, porém, indicou uma tolerância menor com as interferências desmedidas em sua vida pessoal. E a própria situação esportiva do Peixe parecia comprometida. O clube enfrenta uma séria crise financeira, além de ter suas possibilidades no mercado limitadas, pela proibição no registro de atletas. Holan já precisou se virar com muitos garotos no time de cima durante suas poucas semanas de trabalho. Não teve muito tempo para incutir suas ideias, ainda mais com duelos decisivos pela Libertadores, além de modificar bastante a equipe durante o Paulistão. E, enquanto o imponderável ainda provocou lesões de peso, a venda de Soteldo parece custar um pouco mais em perspectivas de curto prazo.

Ainda que o aproveitamento de Holan no Santos não impressione tanto, não dá para chamar de fracasso sua passagem pelo clube. Conquistou a tarefa mais importante, que foi a classificação contra o San Lorenzo nas preliminares da Libertadores, com grande atuação na partida de ida na Argentina. A estreia na fase de grupos foi ruim, assim como o time vinha de instabilidades recentes, mas as dificuldades pareciam compreensíveis diante de tantas limitações. De qualquer maneira, o treinador também respondia por escolhas que se tornavam cada vez mais questionadas.

Holan realizou improvisações pouco compreensíveis, mudou escolhas táticas e algumas alterações no time não agradavam. O próprio jogo contra o Corinthians exibiu esses entraves, mesmo que não parecesse suficiente à demissão ou a protestos tão agressivos. Ainda assim, o argentino já não demonstrava estar satisfeito, por mais que soubesse desde o início quais seriam alguns dos obstáculos nos bastidores santistas. Sinais de desgaste interno vieram à tona, através de Marinho. E num trabalho que requeria paciência e longo prazo para que as ideias do argentino fossem aplicadas, ele preferiu pular do barco bem antes, com derrota no clássico e um cenário ruim no Paulistão. O início de uma relação que se sugeria promissora terminou em rompimento abrupto.

A diretoria ainda tentou convencer Holan, assim como boa parte da torcida também fez campanha pelo “fico” do treinador, demonstrando seu carinho. A saída, porém, parece indicar que o argentino desistiu da missão ao medir o tamanho dos problemas que enfrentaria para ter algum sucesso. As cobranças enormes do futebol brasileiro, com uma atitude injustificável de parte dos torcedores em frente à sua casa, e a pressão maior por um calendário insano, que não permite o mínimo tempo de trabalho, também pode ter influenciado. O certo é que o Peixe precisará se repensar, sem muita margem à manobra.

O Santos terá que decidir o que deseja de seu novo treinador e se aproveitará algo dos parcos meses com Holan. Segundo o blog do PVC, havia uma insatisfação interna com o argentino pela maneira como ele priorizava a posse de bola – algo que deveria ser sabido desde o início, por seus trabalhos anteriores. No momento, mais do que imprimir uma forma ofensiva de jogar, os alvinegros deveriam priorizar um comandante que saiba fazer a limonada com poucos limões e consiga aproveitar melhor as categorias de base. O mercado já não garante uma oferta tão numerosa e o cenário na Vila Belmiro não anima tanto.

E pesa também, é claro, a maneira como o Santos perdeu jogadores importantes em relação à histórica campanha na Libertadores passada. Lucas Veríssimo e Diego Pituca eram nevrálgicos na equipe, enquanto Soteldo sai com o peso de estrela da companhia. Em dois anos no clube, o venezuelano saiu de aposta para logo se firmar como um dos jogadores mais talentosos e decisivos. Não foram poucas as partidas que o meia resolveu. O curto período não permitiu que escrevesse uma história tão vitoriosa, mas sem dúvidas marca seu nome na Vila Belmiro, pelo menos como um dos atletas mais queridos dos últimos anos.

A venda de Soteldo, ainda que ruim do ponto de vista esportivo, era importante financeiramente. O Santos devia dinheiro ao Huachipato e vislumbrou a venda como um mal necessário. Ao repassar sua parte no negócio aos chilenos, o Peixe tira o banimento no mercado e poderá voltar a contratar. A questão é que a grana não está sobrando e mesmo o elenco atual enfrenta cortes salariais. As péssimas gestões anteriores criaram um cenário bastante instável, que prejudica os santistas de diferentes maneiras. Será difícil achar um treinador que aceite lidar com tantos problemas. Mais duro ainda será conseguir tranquilidade, sem tempo para treinar e com jogos decisivos rolando todas as semanas. Se o vice na Libertadores já soava um feito e tanto, considerando os percalços internos, o horizonte torna aquela campanha mais distante, até pela cobrança exagerada neste momento, sabendo os entraves vividos há tempos na Vila.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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