As ações do Vasco no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ são um marco e um exemplo de postura ativa no futebol em prol da inclusão
Numa data em que vários clubes brasileiros se posicionam, o Vasco deu um passo além com seu manifesto e outras ações contundentes
O dia 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, também passou a fazer parte do calendário do futebol brasileiro durante os últimos anos. As manifestações nas redes sociais se tornaram frequentes entre vários clubes, indicando seu apoio a grupos LGBTQIA+. Mais importante que demarcar a intenção é agir em prol das minorias. Assim, a rodada do Campeonato Brasileiro guardaria uma série de posicionamentos expressos nas camisas. Clubes como Santos, Flamengo e Fluminense trouxeram as cores do arco-íris em seus uniformes. O Vasco, de qualquer maneira, merece aplausos por dar um passo à frente. Além do uniforme especial, também publicou um manifesto e coloriu São Januário. E tudo se tornou mais emblemático com a comemoração de Germán Cano na vitória por 2 a 1 sobre o Brusque pela Série B do Brasileirão.
O Vasco é um clube fundamental por seu papel na inclusão de negros no futebol brasileiro, graças ao esquadrão montado no início dos anos 1920 e à Resposta Histórica que marcou a revolta do clube contra a proibição imposta a jogadores negros no Campeonato Carioca. Tornar o futebol um ambiente inclusivo a grupos LGBTQIA+ também é importante, apesar da inação da maioria dos clubes ao longo de décadas – em reflexo ao preconceito vigente na sociedade. E num momento no qual o debate se torna bem mais aberto no esporte, o manifesto publicado pelos cruzmaltinos também possui um peso histórico.
“O mundo dos esportes não é um espaço que aceite as mudanças com facilidade e leveza. Pudera: o esporte é um reflexo da sociedade que o rodeia e, portanto, reproduz seus estereótipos e práticas, seus valores e preconceitos. Reproduz, enfim, sua inércia”, escreveu o Vasco, no manifesto que pode ser lido na íntegra mais abaixo. “Mesmo assim, a sociedade muda. E, como reflexo da sociedade em transformação, o futebol também não se mantem imune às suas mudanças. Mas o esporte tem o dever de ir além: o futebol, particularmente, é uma inspiração comum a diversas gerações e deve fazer parte das transformações sociais, rumo a uma sociedade melhor e mais justa”.
“Ser parte da mudança – e não do problema – não é simples, já que exige uma mudança de nós mesmos. O Vasco convida clubes, atletas, torcedores, dirigentes, federações e sociedade para um compromisso conjunto de debate acerca da homofobia e da transfobia. O Vasco de 1923 não aceitou o racismo, naturalizado no século anterior. O Vasco do século XXI se nega a aceitar a homofobia e a transfobia que marcaram o século XX. Mudemos juntos. O caminho é longo, mas o Vasco dará tantos passos quantos forem necessários neste debate, indispensável ao mundo atual”, complementou o clube.
O Vasco nasceu como o time de todos, sempre lutou pela inclusão, pelo respeito, pela diversidade e continuará sendo assim. E, como forma de ampliar essa homenagem, o time vai a campo hoje usando-a. ?✊??
? Matheus Lima#VascoDaGama #RespeitoEDiversidade #PrideMonth pic.twitter.com/TpOrenREo7
— Vasco da Gama (@VascodaGama) June 27, 2021
A posição firme do Vasco não veio sozinha. O clube, que já permite associados LGBTQIA+ de terem seus nomes sociais em carteirinhas, prometeu a criação das “Políticas de Inclusão, Respeito e Diversidade”, incluindo a temática LGBTQIA+, assim como a igualdade de gênero e o combate ao racismo. A Vasco TV também publicou um vídeo com depoimentos diversos torcedores, incluindo LGBTQIA+ e também ilustres, para defender a diversidade. Já em São Januário, enquanto as bandeirinhas de escanteio traziam as cores do arco-íris, as arquibancadas exibiam um mosaico pedindo respeito.
A ação só estaria completa com uma camisa especial do Vasco, com as cores do arco-íris na tradicional faixa transversal e um patch pedindo respeito e diversidade. O dinheiro arrecadado com a venda dos uniformes será destinado à Casa Nem, em apoio a pessoas LGBTQIA+ em vulnerabilidade social. As camisas postas à venda esgotaram em poucas horas.
Pois o domingo histórico se engrandeceu dentro de campo. Germán Vasco abriu a vitória por 2 a 1 sobre o Brusque e saiu correndo para a bandeirinha de escanteio, erguendo o símbolo da diversidade como se estivesse “empunhando a causa”. Nas suas redes sociais, o argentino reiterou a mensagem e ainda publicou uma arte com a imagem histórica. O ídolo oferece ainda mais representatividade a tudo o que aconteceu ao redor de São Januário. E a promessa do Vasco é manter ações contínuas, voltadas à inclusão e ao combate contra o preconceito.
Não são apenas as mensagens dos clubes que transformam o ambiente preconceituoso que tantas vezes toma o futebol. É preciso agir para não se limitar apenas ao marketing. Campanhas educativas e uma inclusão ativa são essenciais para a mudança do ambiente nos próprios estádios. Que o domingo histórico do Vasco motive mais clubes a atuarem de maneira tão ampla e permitam uma transformação efetiva. O futebol é uma excelente ferramenta de inclusão e os clubes, o alvo da paixão de tanta gente, podem contribuir bastante com esse tipo de consciência sobre seu papel social.
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— ?????? ???? (@Germancanoofi) June 28, 2021
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Abaixo, o manifesto do Vasco na íntegra. Confira:
O mundo dos esportes não é um espaço que aceite as mudanças com facilidade e leveza. Pudera: o esporte é um reflexo da sociedade que o rodeia e, portanto, reproduz seus estereótipos e práticas, seus valores e preconceitos. Reproduz, enfim, sua inércia.
Mesmo assim, a sociedade muda. E, como reflexo da sociedade em transformação, o futebol também não se mantem imune às suas mudanças. Mas o esporte tem o dever de ir além: o futebol, particularmente, é uma inspiração comum a diversas gerações e deve fazer parte das transformações sociais, rumo a uma sociedade melhor e mais justa.
A homofobia e a transfobia são alguns dos mais graves problemas do nosso tempo e o esporte ainda é, infelizmente, um de seus espaços de mais forte reprodução. O Vasco da Gama assume para si a responsabilidade de se posicionar diante do tema, sem defender aquilo que é cômodo, mas sim aquilo que é correto. O clube será um parceiro daqueles que lutam contra o preconceito relacionado à orientação sexual ou à identidade de gênero de quem quer que seja.
Estamos conscientes de que uma parte das mudanças acontece dentro de nossos próprios muros. Mas estamos dispostos a nos engajar na construção de um Vasco melhor, que reflita o mundo que queremos ver para o futuro próximo: com respeito e dignidade, independentemente de orientação sexual ou identidade de gênero.
Ser parte da mudança – e não do problema – não é simples, já que exige uma mudança de nós mesmos. O Vasco convida clubes, atletas, torcedores, dirigentes, federações e sociedade para um compromisso conjunto de debate acerca da homofobia e da transfobia.
O Vasco de 1923 não aceitou o racismo, naturalizado no século anterior.
O Vasco do século XXI se nega a aceitar a homofobia e a transfobia que marcaram o século XX.
Mudemos juntos. O caminho é longo, mas o Vasco dará tantos passos quantos forem necessários neste debate, indispensável ao mundo atual.
Independente da sua orientação sexual ou identidade de gênero, somos todos iguais. O Vasco da Gama nasceu como o time de todos e continuará sendo.
"O mundo dos esportes não é um espaço que aceite as mudanças com facilidade e leveza. Pudera: o esporte é um reflexo da sociedade que o rodeia e, portanto, reproduz seus estereótipos e práticas, seus valores e preconceitos." ?✊??
Manifesto completo: https://t.co/wWgpwa6IQ3 pic.twitter.com/LcfbO3Ifpb
— Vasco da Gama (@VascodaGama) June 27, 2021



