Brasil

Arrascaeta, leve e sutil, flutua num Maracanã de outros tempos

Atuação de Arrascaeta na goleada do Flamengo contra o Vasco foi memorável - 'deitou', como diriam alguns

Adoraria saber o que Eduardo Galeano, escritor com sensibilidade de Pelé, diria de seu conterrâneo Arrascaeta ao fim de uma tarde de outono no Maracanã, terminada com goleada histórica no jogo mais popular da cidade. Porque não sai da cabeça, jogo ali e jogo aqui nesses últimos anos, que o camisa 14 remete ao futebol dos grandes palcos servidos aos grandes craques, nessa leveza de quem oferece ao jogo mais do que gols, passes ou resultados, mas também a calma, a picardia, certa ousadia tímida, sutil, desapressada ao longo dos 90 minutos.

Galeano talvez começaria, com sua correção inigualável, que foi em 2024, no Maracanã, o Flamengo de protocolar visitante num clássico contra o Vasco pelo Campeonato Brasileiro. Arrascaeta, astro rubro-negro, voltado ao segundo tempo pronto para se eternizar, recebeu no meio-campo e girou sobre o marcador em outro tempo, o vascaíno sob as leis da física e o flamenguista apenas resvalando no ritmo, pisando na grama somente o necessário, tocando na bola o mínimo, sem excessos. Ele rolou para o quinto, já acabara de fazer o quatro numa paciência agonizante diante do goleiro, e iria até o fim para o sexto gol, se despedindo só quando já fosse noite.

Contem-me como joga Arrascaeta — pediam os cegos.

Foi uma das atuações mais especiais que já vi num estádio de futebol. Arrasca levou o jogo no seu deboche particular, pouco espalhafatoso, mais formal. Está ali a capacidade de invenção para os espaços curtos, todo o leque de pequenas cavadinhas e letras e pés trocados distribuídos ao longo do campo, a fluidez de quem preenche o espaço ao natural, criando clarões em cantinhos apertados. Ele deitou, como diriam alguns, e a maior vitória do Flamengo no confronto, um 6 a 1 de passar ovacionado na avenida, tratará de manter essas imagens rodando para sempre.

É verdade que o rival anda num baixo astral sem precedentes entre as maiores camisas do país, um jogo que pode ver a confiança desabar num lance, um clube e um time em que as devidas instabilidades te deixam no risco constante de um chocolate eterno, um zagueiro expulso no primeiro tempo, um técnico tentando ir para cima com a goleada clara até para uma criança (numa subida dessas, fecha a casinha, amigo). Mas o Flamengo mostrou algumas boas impressões, principalmente a impactante atuação de seu maestro com uma partida sem retificações, colecionando tapas e enganos indecentes.

O também uruguaio De La Cruz se firma como o fiador ideal, três anos mais jovem e três pulmões a mais, um motor de mudar o patamar físico de um elenco estrelado e o cara que indiretamente fechou o jogo, ao dar o pique que rendeu o vermelho a João Vitor. Gerson aberto na direita encontra suas vantagens, mais perto de entrar na área e com o balanço de falso-ponta que dificulta o encaixe da marcação adversária, líder como um capitão que a cada gol fazia o gesto de empurrar o time para frente, apertar, exigir que a equipe seguisse lá em cima contra um oponente nas cordas. Por dentro, Allan vem encontrando seu melhor tom, e Pedro vive ótima fase no desvio final, seja servindo, seja guardando.

Uma pena para o campeonato que esse time que poderia estar se firmando acaba suspenso por até nove jogos no Brasileiro, um quarto da liga, com Viña, De La Cruz e Arrascaeta servindo o Uruguai na Copa América, mais Pulgar no Chile. O calendário e o formato causam um prejuízo duplo, porque os torcedores perdem seus principais jogadores por mais de um mês e ainda pegam bronca do futebol de seleções, que poderia ser uma festa de tanta gente boa jogando um torneio de bom nível. Vira uma crise geral, ruim para todo mundo.

Tite ainda tem um longo caminho pela frente para fazer seu Flamengo ser realmente notável e querido por seu torcedor, esse sim um megalomaníaco na exigência, alguém que não se basta em ganhar e até atrapalha por isso, mas faz parte. Terá uma maratona pela frente ao tempo que verá Arrascaeta e De La Cruz só pela televisão, enquanto o Maracanã ficará um tanto menos divertido, bem mais ponderado. O fiapo de finalização no quarto e o tapa do quinto gol seguirão passando em looping, à espera de herdeiros.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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