‘Sistema está todo errado’: Arnaldo Cezar Coelho elenca soluções para arbitragem brasileira
Comentarista acredita que a dificuldade é sistêmica e vai além de treinamentos aos árbitros
A arbitragem tem sido alvo de reclamações constantes de dirigentes, comissão técnica e jogadores no futebol brasileiro. As controvérsias mais recentes ocorreram em Red Bull Bragantino x Grêmio e São Paulo x Palmeiras no Brasileirão, que culminou no afastamento dos árbitros centrais e de vídeo por parte da Comissão da CBF.
Lucas Casagrande e Gilberto Rodrigues Castro Junior (Bragantino x Grêmio) e Ramon Abatti Abel e Ilbert Estevam da Silva (São Paulo x Palmeiras) “serão condicionados a treinamento, aprimoramento e avaliação interna, para posterior retorno às atividades”, segundo a nota.
O Grêmio se queixou da decisão de Lucas Casagrande, que sinalizou pênalti de Marlon na reta final do jogo após revisar o lance no VAR. A cobrança foi convertida por Jhon Jhon e decretou a vitória da equipe paulista por 1 a 0 em Bragança.
Já no MorumBIS, a bronca tricolor se concentrou na não marcação de um pênalti em Tapia por Ramon Abatti Abel e no pisão de Andreas Pereira em Marcos Antônio. O São Paulo abriu 2 a 0 no clássico e acabou derrotado por 3 a 2.
Arbitragem em crise?
O afastamento pode ser considerado suficiente para minimizar as queixas dos clubes? À Trivela, o ex-árbitro Arnaldo Cezar Coelho diz acreditar que “polêmicas sempre vão existir” dada a natureza do esporte — que abre margem às interpretações de contatos e disputas corporais –, mas elenca soluções além dos treinos e aprimoramento a serem adotadas.
A CBF já suspendeu árbitros em outra ocasião nesta temporada, como depois de Internacional x Cruzeiro e Sport x Palmeiras, em abril. Agora, passados seis meses, a entidade volta a ter situações similares. Isso ajuda a reforçar como a arbitragem é um problema crônico no Brasil.
— Minha experiência me leva a opinar que a arbitragem não só brasileira como mundial está muito fraca na medida que os profissionais envolvidos não estão se preparando. (…) O que está acontecendo no futebol brasileiro é reflexo dessa falta de orientação, falta de direção — avalia Arnaldo.

O ex-árbitro destaca que a Comissão de Arbitragem da CBF precisa ser um norte aos árbitros. A declaração vai de encontro ao que ele pontua ser a primeira solução.
— Colocar gente capaz e referência para que os árbitros sintam que tem gente que entende e não que os árbitros se sintam mais importantes que os membros da Comissão de Arbitragem. Os árbitros precisam ter humildade para aprender, têm que ser melhores escalados.. E tem que ter o maior número de árbitros, o maior tipo de lançamento de árbitros novos, para renovar os árbitros — salienta.
— É uma série de coisas que tem que ser feita para melhorar. E o sistema também é falho. A impunidade no Brasil impera, os tribunais são fracos, e isso dá todos os problemas.
Além disso, o ex-árbitro ressalta ser fundamental aprender com os erros. Com jogos todos televisionados e repletos de câmeras que permitem analisar ângulo por ângulo, é possível ver todas as jogadas com clareza para não repetir equívocos, segundo ele.
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Recursos disponíveis não minimizam bronca com arbitragem à CBF
Por falar em “olhos” disponíveis, Arnaldo Cezar Coelho também coloca os holofotes sobre a quantidade de mecanismos. Ele relembra que houve muitas mudanças significativas ao longo do tempo em relação à arbitragem.
Auxiliares puderam sinalizar faltas, árbitros que ficam na beira do campo passaram a dar opiniões e, evidentemente, o surgimento do VAR.
— Os recursos para arbitragem são muitos, mas pouco aproveitados. (…) Eu acho que, com o recurso que tem hoje, os cursos que estão tendo, já era para ter uma melhoria de arbitragem, uma melhor unificação de critérios. No entanto, não tem — ponderou.
Inclusive, discussões continuam a ocorrer, como o observado na 27ª rodada do Campeonato Brasileiro.

‘Sistema está todo errado’, diz Arnaldo Cezar Coelho
Arnaldo enfatiza que, em casos de tanta reclamação como o ocorrido nestes dois jogos, considera correto conversar com os árbitros e tirá-los da escala de arbitragem para “psicologicamente melhorar”.
— Acredito que, depois de tanta crítica, o árbitro vai entrar em campo um pouco inseguro — justifica.
Ele afirma que os juízes também estão muito desgastados com um calendário enxuto, e que são “poucos árbitros para muitos jogos importantes”.
— Acho que o sistema está todo errado. Acho que a CBF investiu muito para ter poucos resultados.

O comentarista aproveita para opinar que a Fifa permitir a treinadores e capitães reclamar durante os jogos também não facilita ao árbitro. Por outro lado, considera necessário adotar punições em caso de omissão.
— Não é por uma interpretação duvidosa que o árbitro pode ser punido. Tem que ser punido por omissão, por falta de autoridade. E a punição é deixar fora da escala. A melhor punição que se dá ao árbitro é ele não receber os jogos e doer no bolso dele. Aí ele vai ter mais responsabilidade, vai estar mais focado no jogo — afirma.
A CBF informou à Trivela que os árbitros envolvidos devem passar por aperfeiçoamento e, portanto, não são escalados a jogos oficiais. A metodologia envolve reunião para posicionamento dos juízes e revisão em vídeo de todos os lances de advertência e decisões importantes.
Posteriormente, há a definição do planejamento a ser adotado em cada caso, seja focado em regras e protocolos de jogos, posicionamento, gestão, controle disciplinar ou comunicação.
— Os treinamentos iniciam-se em formato online ao vivo, em sessões de referência de aproximadamente quatro horas por até quatro encontros, ajustados à complexidade do caso. Conforme a necessidade técnica, o processo evolui para etapas presenciais, seja nos seminários regionais que a CBF vem promovendo de forma recorrente pelo país — atualmente já aconteceram seminários regionais de arbitragem no Amazonas, Roraima, Mato Grosso, Pará, Alagoas e Ceará. No período de 16 a 18 de outubro, o Distrito Federal receberá a próxima edição –, ou em módulos específicos no Rio de Janeiro — dizia o texto.



