Prefeitura do Rio assume que não fez sua parte na preparação olímpica ao pedir férias coletivas
Deu certo em 2014, dará certo em 2016. A organização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro parece trabalhar com a crença de que, se a Copa do Mundo funcionou mesmo depois de tantos sustos, não há motivos para preocupação em relação ao evento poliesportivo do ano que vem. Nem que, para isso, tenha de partir para certos improvisos que, no final das contas, são gambiarras.
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Nesta terça, o prefeito Eduardo Paes voltou a falar na possibilidade de pedir às grandes empresas cariocas a decretarem férias coletivas ou dispensarem seus funcionários durante o período dos Jogos. “Devo chamar ainda em março uma reunião com o Poder Judiciário e grandes empresas, como Petrobras e BNDES, e outros grandes empregadores do Rio, para que a gente possa ter no período das Olimpíadas um período de férias”, disse em entrevista coletiva.
O princípio é o mesmo que funcionou no Mundial de futebol. Menos gente indo trabalhar alivia a carga sobre o sistema de transporte e permite uma circulação mais tranquila de turistas, atletas e jornalistas envolvidos com a Olimpíada. O problema é que a comparação entre os dois megaeventos é impossível nessa questão.
O Rio de Janeiro foi, ao lado de Brasília, a cidade que recebeu mais partidas da Copa, sete. No entanto, quatro desses jogos (Argentina 2×1 Bósnia-Herzegovina, Bélgica 1×0 Rússia, Colombia 2×0 Uruguai e Alemanha 1×0 Argentina) foram realizados em fins de semana. Outro encontro (Alemanha 1×0 França) foi disputado em um feriado informal, pois o Brasil venceu a Colômbia no mesmo dia e ninguém trabalhou depois do almoço. Ou seja, só duas partidas (Espanha 0x2 Chile e França 0x0 Equador) caíram em dias úteis e exigiram esquema especial das empresas para não sobrecarregar o trânsito carioca.

Os Jogos Olímpicos são de outra natureza. São 17 dias (de 5 a 21 de agosto) diretos, com vários eventos a todo momento, sem trégua. A ideia de Paes é decretar alguns feriados pontuais nesse período, mas um dia não é particularmente mais tranquilo que o outro. Por isso o prefeito falou em “férias coletivas”, mas isso teria um impacto grande nessas empresas. Ficar um dia ou outro fechado é algo contornável. Ficar duas semanas parado é outra questão.
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O que mais incomoda na proposta é que se trata da insistência no improviso. Uma das vantagens dos Jogos Olímpicos serem realizados no mesmo lugar que, dois anos antes, organizou a Copa do Mundo é que boa parte da infraestrutura já estaria pronta. O tal “legado da Copa” que se transformaria em estrutura olímpica.
Nada disso aconteceu para o Mundial. Várias obras ficaram pelo caminho, e os brasileiros não viram boa parte desse legado. O carioca sabe bem disso, pois o trânsito da cidade está um caos maior do que normalmente é (falo isso como paulistano que está quase anestesiado contra qualquer tráfego intenso, e ainda assim fiquei impressionado com os congestionamentos cariocas em uma visita no segundo semestre do ano passado).
De qualquer maneira, os trabalhos que não ficaram prontos em junho de 2014 deveriam estar em andamento e perdido o prazo por pouco, o que significa que estariam entregues para 2016. No momento em que a prefeitura do Rio pede para as empresas decretarem férias, está assumindo que os projetos previstos não funcionarão adequadamente e será preciso “artificialismos” (uma versão generosa para “gambiarra”) para evitar problemas mais graves.
Que tudo dê certo, porque a imagem que o Brasil deixou após a Copa foi positiva, apesar dos sustos. Uma edição bem sucedida dos Jogos Olímpicos reforçaria essa impressão, até atenuando um pouco o impacto das notícias negativas sobre a situação político-econômica do País.



