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‘Fez milhões de pessoas felizes’: Os legados inestimáveis que Antero Greco deixou, por Juca Kfouri

Juca Kfouri conversa com a Trivela para honrar memória do amigo 'missionário' do jornalismo

Os 50 anos que Antero Greco atuou como jornalista o consagraram e o elevaram ao patamar de ícone da profissão no Brasil. O início deste texto não é nenhuma mentira, mas pode parecer exagerado para aquele que era o humilde paulistano do Bom Retiro, como diz o amigo e também comunicador Juca Kfouri.

Então, é melhor reformular para uma frase que talvez ele considerasse mais apropriada: Antero Greco fez milhões de pessoas sorrirem ao longo dos 50 anos de profissão.

Ele era uma figura muito engraçada e, toda vez que a gente se encontrava, ele me cumprimentava perguntando: ‘Como vai nosso Corinthians?’. Palmeirense fanático que era –, relembra Kfouri, com muito carinho, à Trivela.

Era um gozador militante o tempo todo. Às vezes, você não sabia se ele estava falando sério ou se estava brincando.

Antero Greco e o dom de unir esporte à ‘vida cotidiana’

O comunicador ficou marcado pela ética e integridade que o levaram a ser definido como “missionário da profissão” por Kfouri. Antero começou a carreira em 1974 no jornal “Estadão” como revisor.

Depois, foi repórter, chefe de reportagem, repórter especial, editor e colunista do periódico. Também passou por “Diário Popular”, “Popular da Tarde” e “Folha de S. Paulo” entre os impressos, e “SBT” e “Band” na televisão. Entretanto, a trajetória na frente das câmeras ganhou contornos mais expressivos na “ESPN”.

O programa SportsCenter noturno apresentado por Antero Greco e Paulo Soares, o Amigão, proporcionou informação com humor aos telespectadores da emissora por mais de 20 anos e é um dos grandes legados deixados pelo comunicador devido ao profissionalismo e irreverência.

— A dupla dele com o Amigão, eu diria sem medo de errar, que acho que nunca houve na história da TV brasileira uma química entre dois jornalistas como a química que os dois criaram.

— E que, em algumas noites, nos punham todos a dar gargalhadas. Quando eles desatavam a rir e não paravam, aquilo era contagiante. Antero fez, centenas de noites, milhões de pessoas irem dormir felizes por causa das graças que ele e o Amigão faziam. Acho que isso é inestimável — conta Kfouri.

Tudo isso fez o adeus ser ainda mais difícil. Há um ano, em 16 de maio de 2024, o Brasil se despedia do jornalista, que morreu em decorrência de um tumor no cérebro semanas antes de completar 70 anos. “Ele não estava a fim de ir embora tão cedo como foi, e diga-se de passagem, foi um bravíssimo lutador até o fim”, ressalta Kfouri.

A empatia e a humildade são legados que deixaram uma marca indelével na vida de quem o conheceu. O costumeiro “como vai você” tinha um significado diferente para o jornalista se a resposta fosse negativa. Juca Kfouri afirma que ele pararia o que estivesse fazendo para ouvir o relato. “Ele era uma pessoa que rigorosamente se interessava pelo próximo. E era de uma absoluta retidão, que é o que, além de tudo, muito me encantava nele”.

A consideração às pessoas se estende até um pedido especial feito pelo comunicador à família: o desejo de eternizar histórias de sua autoria em compilado de livros. O eterno palmeirense produzia textos nobres que mostravam como o esporte não é alheio a outras temáticas da vida. Exemplo é o artigo intitulado “Brasil colônia”, que foi ao ar no “Estadão” em 2018.

O conteúdo abordou como o futebol nacional poderia perder a “sedução” diante do europeu, de modo a levar à reflexão sobre a sociedade moderna.

A Série A do Brasileiro voltou com tudo, houve rodada no meio da semana, com diversos clássicos, e o mesmo se repete agora. (…) Bacana, não é? Também acho. Mas, os assuntos que mais nos chamam a atenção referem-se a jogadores patrícios que atuam no exterior. A transferência milionária de Alisson da Roma para o Liverpool foi cantada em verso em prosa. Assim como ganhou destaque em rede nacional a apresentação oficial de Vinicius Junior no Real Madrid. Temas que atingiram o ápice de comentários nas redes sociais“, dizia.

Outro texto, o “Bandeiras de moralidade”, foi uma observação do esporte unido à política, que começa com ponto de vista sobre a campanha eleitoral. “A novidade foi o uso de redes sociais como poderoso meio de convencimento; abusou-se das fake news, o termo da moda para a velha lorota, a mentira, a conversa fiada. O que era deformação no inimigo virou virtude para vencedores. Em resumo: buscou-se vitória a qualquer preço. O que tem a ver o parágrafo inicial com futebol, objeto corriqueiro deste espaço? Tudo. O esporte é retrato da vida cotidiana“, ele escreveu.

A religião também tinha espaço em suas produções. “Bem provável que nem todos os torcedores do Palmeiras sigam algum credo religioso. Mas sugiro aos que têm fé, seja qual for, pedirem intervenção divina na tarefa do time na noite desta quarta-feira. Pois, além de jogar muita bola, precisará de sopro dos céus para despachar o Boca e classificar-se para a final da Libertadores“, analisou o jornalista em “Entre fé e realidade”.

As histórias produzidas, as informações repassadas com maestria e a irreverência que animou as noites dos brasileiros tornaram Antero Greco referência na comunicação. Sua partida rendeu homenagens emocionantes de amigos e colegas da comunidade jornalística, clubes e instituições esportivas, empresas por onde passou e até do presidente Lula.

Ao ser questionado sobre o que Antero acharia dos tributos, Kfouri não tem dúvidas.

Ele diria que é um exagero, que não era para tanto. Que ele não merecia tudo aquilo, que ele não queria estar ali. Preferia estar homenageando alguém.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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