Ancelotti pode usar ‘nacionalismo do bem’ na Seleção contra versão raivosa de Leão
Ancelotti se esforça para canalizar nacionalismo mais libertador entre os brasileiros da Seleção
Nesta semana, Carlo Ancelotti vai ter a oportunidade de curtir uma coisa que, para ele, parece uma surpresa agradável: o ambiente positivo da Seleção.
Lembro, anos atrás, quando Javier Mascherano chegou no Liverpool e ficou pasmo com o pouco caso que muitos colegas europeus estavam fazendo para defender o seu país. Parecia uma obrigação meio chata. Mas para ele, um sul-americano, era sempre o ponto alto de uma carreira.
Não somente pela importância histórica da seleção, embora isso já seja grande coisa. Mas também pelo ambiente.
Pode ser difícil para um europeu entender, mas, nos próximos dias, os jogadores de Ancelotti têm uma chance rara para ficar juntos falando a sua língua, contando as suas piadas, cantando as suas músicas. Depois do cotidiano de um vestiário multilíngue com os seus clubes, esse tempo junto com os seus compatriotas trata-se de uma experiência libertadora, que Ancelotti já identificou e está se esforçando para canalizar.
Ancelotti incentiva nacionalismo à sua maneira na seleção brasileira
Isso é um nacionalismo leve e alegre, muito diferente da versão raivosa, reacionária e excludente que expressou o Emerson Leão na semana passada.
Surpresa? Nem tanto. Lembro bem do grande ex-goleiro como treinador da seleção brasileira. O seu time perdeu — pela primeira vez — para o Equador. Na verdade, nem o resultado nem a atuação foram tão mal assim. O placar foi mais consequência do crescimento do adversário que qualquer outra coisa.
Mas Leão prometeu uma resposta radical, um time com uma nova atitude. Como? Escalando quase exclusivamente atletas jogando no Brasil.

O que aconteceu? Um empate em casa, com dificuldades, com uma das piores seleções peruanas na história, e uma sucessão de partidas péssimas na Copa das Confederações. E a sua demissão.
Eu estava presente na coletiva de imprensa, lá na velha sede da CBF no centro do Rio, quando Leão anunciou a tua mudança radical. E lembro bem do meu pensamento — “Leão, você acabou de perder o seu emprego.”
Não houve — como hoje não tem — como competir somente com quem joga aqui. A força do dinheiro leva os melhores. Quem decepcionou na Europa e voltou para brilhar aqui — nem sempre –, mas normalmente tem uma explicação técnica. E morar num outro país não transformou uma pessoa num ser menos brasileiro, menos comprometido com a vitória da Seleção.
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Brasileiros no exterior são mais uma solução do que um problema
Outra coisa que lembro daquela coletiva de imprensa, há quase 25 anos atrás: senti-me muito sozinho. Eu era jovem na época, sem cabelos grisalhos. A grande maioria de lá foi mais velho, com idade suficiente para recordar os dias quando a Seleção somente convocava jogadores atuando no Brasil. Quando Leão fez o seu anúncio, a sala ficou em êxtase. Uma orgia geral em que somente eu não estava participando.
Fiquei pensando: “Como todo mundo pode ser tão equivocado? É nacionalismo burro mesmo, que não quer ser incomodado como coisas irritantes chamado fatos? Ou trata-se de uma nostalgia ingênua, um sonho do passado em que todos vão ser reunidos com o cachorrinho da sua infância?”
Porque fica muito fácil enxergar esse passado através de uma lente excessivamente romântica. Entendo que ter quase o elenco inteiro da Seleção fora abre uma distância do torcedor. Sem dúvida. Mas isso pode ser até mais solução que problema.

Tem vários motivos para o fracasso do Brasil na Copa de 1966. Um deles é que a Seleção não se tratava mais de uma união Rio-São Paulo. O país estava crescendo, se desenvolvendo. Belo Horizonte e Porto Alegre chegaram na festa. E todos os centros estavam loucos para ter os seus representantes na Seleção. Por isso o time estava treinando com uma quantidade absurda de 44 jogadores.
Acho que o João Havelange não recebeu crédito suficiente quando, dois anos mais tarde, escolheu João Saldanha para treinar o time. Muito se fala na incoerência de ter um técnico comunista no meio de um regime de ditadura militar. Havelange olhava além.
Identificou o problema, e lançou um figura autoritária sem rabo preso para solucioná-lo. Qual foi o primeiro ato de Saldanha? Anunciou os seus titulares e os seus reservas. Sem espaço para intrigas, nem politicagem local.
Zagallo merece muito crédito para o que ele fez com a seleção de 70. Pegou um 4-2-4 e transformou num 4-2-3-1 que soa moderno até hoje. Mas beneficiou bastante do trabalho de filtragem feito por Saldanha. Não sofreu tanto com as brigas entre os grandes centros urbanos.
E com os jogadores quase todos fora, ninguém sofre muito com isso hoje em dia. Os escolhidos de Ancelotti não são tantos representantes de esse clube ou aquela região. São brasileiros, curtindo um sentimento comum de nacionalidade — um sentimento que o Ancelotti vai tentar transformar em combustível para a vitória.



