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Almir Pernambuquinho: o encrenqueiro que substituiu Pelé e foi assassinado jovem demais

“Com uma bolinha na nuca, entrei em campo como um miúra, um touro bravo daqueles que vi na Espanha, numa excursão. Tomei uma resolução: logo de cara, vou acertar Amarildo”.

Almir Pernambuquinho, porém, não acertou Amarildo naquela partida, a segunda do Mundial de Clubes de 1963 entre o Santos e o Milan. Precisou esperar o terceiro jogo, o que deu ao clube paulista o bicampeonato mundial. Mas por que o ex-jogador que completaria 70 anos no último sábado, se não tivesse morrido jovem demais, e que foi honrado com o apelido de Pelé branco, talvez por ter sido bom demais, talvez por ter usado a camisa 10 do Santos substituindo o Rei, estava com tanta raiva do compatriota que defendia o vermelho e preto dos italianos?

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Porque Amarildo havia feito o imperdoável depois da vitória do Milan sobre o Santos, por 4 a 2, em San Siro: falou mal de Pelé. A manchete de um semanário italiano era “Amarildo: Pelé sono io!”. O brasileiro teria dito à reportagem que “Pelé já era”, o que ele negou categoricamente, em entrevista a este escriba, realizada em 2012. “Eu seria incapaz. Não sou ignorante de fazer uma afirmação daquelas. Foi uma fantasia do jornalista e do jornal para vender”, disse.

Acreditar ou não em Amarildo, neste momento, fica a seu critério. O fato é que, mais de 50 anos atrás, Almir Pernambuquinho acreditou no que o jornal publicou e ficou, com o perdão do trocadilho, possesso. “Amarildo para mim parecia um mercenário. Estava seduzido pelas liras italianas, a tal ponto que agredia Pelé sem razão”, afirmou, em um livro publicado pela revista Placar com declarações suas, chamado Eu e o Futebol. “Em entrevistas à imprensa italiana, ele cansou de repetir que o Milan ia faturar o título fácil. Um jogador dizer isso é normal, faz parte da guerra de nervos. Mas ele não ficou só nisso: disse também que Pelé já era, que não era mais o rei. O jogo em Milão teria provado isso. Eu me esquentei com o negócio: um brasileiro falar mal do Pelé não estava certo”.

O jogo em Milão foi um recital dos donos da casa, cujo elenco era extremamente qualificado. A defesa era liderada por Giovanni Trapattoni e Cesare Maldini. Dentro da tradição milanista de recorrer a um trio de estrangeiros – como os suecos Gunnar Gren, Gunnar Nordahl e Nils Liedholm e os holandeses Van Basten, Gullit e Rijkaard -, aquela equipe tinha uma trinca de brasileiros. Além de Amarildo, José Altafini, o Mazzola, e Dino Sani, que por lesão não enfrentou o Santos.

Como em outros dois confrontos daquele ano, um deles entre Brasil e Itália, Pelé foi muito bem marcado por Trapattoni, e diz muito sobre o quão excepcional era o Rei do Futebol que ele tenha feito dois gols, um deles muito bonito, em uma partida em que ele foi considerado bem marcado. Além de caçar o craque brasileiro, Trapattoni abriu o placar, Amarildo marcou duas vezes e Mora fechou a vitória do Milan por 4 a 2.

O otimismo italiano para conquistar o título era muito grande. E ficou maior quando Pelé sofreu uma distensão muscular no empate por 1 a 1 com o Juventus, pelo Campeonato Paulista, e se tornou baixa para o jogo de volta do Mundial. Começa aqui a grande ironia daquele duelo: o substituto de Pelé no Maracanã seria Almir Pernambuquinho, como foi Amarildo na Copa do Mundo de 1962. Um duelo particular entre dois dos poucos homens que tiveram que lidar com a responsabilidade de vestir a camisa do maior de todos.

A responsabilidade era tão grande que Almir Pernambuquinho admitiu, em seu livro, ter aceitado a oferta do auxiliar Alfredo Sampaio, o Alfredinho, de tomar uma “bolinha” para ter mais energia dentro de campo. A “bolinha” era uma droga que melhoraria o seu desempenho. Almir justificou que naquela época “aquilo era normal”. “Por que eu não ia querer? O bicho pela conquista do bicampeonato mundial era 2000 cruzeiros: dava para comprar um Volkswagen zerinho. Nós entramos em campo vendo o automóvel ao alcance da mão. Do outro lado, estavam os caras que podiam impedir isso. Era preciso, então, fazer tudo, se matar dentro de campo, para não deixar que eles faturassem o nosso bicho”. Pepe, Lima e Zito me disseram que não sabem se Almir de fato jogou aquela partida dopado e, se isso aconteceu, foi por conta própria.

O Santos saiu atrás, em um Maracanã com mais de 130 mil pagantes. Foi para o vestiário perdendo o jogo de volta por 2 a 0. Precisava virar para forçar o desempate. A lenda, também negada por Amarildo, era que o Milan já havia preparado a festa no vestiário do estádio carioca. “A melhor preleção da minha vida”, relatou Almir Pernambuquinho. Começou a chover no Rio de Janeiro, e o Santos tinha um bom jogador de chuva. Os potentes petardos de Pepe ganhavam ainda mais velocidade com o gramado molhado. Aproveitando a física, marcou em duas cobranças de falta. Almir e Lima fecharam o placar em 4 a 2. Haveria o jogo desempate.

A birra de Almir com Amarildo não era à toa. Pernambuquinho idolatrava Pelé. Imaginem, portanto, o que significou para ele receber um abraço do Rei, depois daquele jogo, e ouvir: “Almir, você é grande!”. “Pelé talvez nem se lembre disso, mas aquele abraço, aquelas palavras, me deram alma nova para o segundo jogo”, contou.

O Santos precisava apenas vencer o terceiro jogo, também no Maracanã, para se sagrar campeão mundial. Mas Almir ainda precisava tratar de outro assunto: precisava acertar Amarildo. Foi uma boa notícia quando ouviu do vice-presidente Nicolau Moran que “poderia fazer o que quisesse dentro de campo” porque o árbitro não faria nada – e os italianos, depois da partida, reclamaram bastante da arbitragem, com acusações de que teria sido comprada. Disse Almir em sua biografia:

“Com 1 minuto de jogo, Amarildo pegou a bola e fez uma jogada que executava no Maracanã desde os tempos em que jogou no Botafogo. Eu tinha sido advertido para isso, no primeiro jogo, manjei bem o estilo dele; sabia a zona de campo onde poderia cercá-lo. Ele descambou para a esquerda e procurou se aproximar da linha de fundo, por fora da área, para tentar o cruzamento com violência ou o chute direto ao gol. O danado tinha bom domínio de bola, driblava bem, chutava como gente grande. Ele vinha sassaricando, queria impressionar o público, estava naquela de mostrar que era o Possesso, apelido que ganhou na Copa do Mundo de 1962. Mas possesso ali era eu. Corri em diagonal na direção dele, avisei o Ismael e o Mauro para fazerem a cobertura, disse logo que aquele era meu: ‘Deixa esse filho da mãe comigo! Agora ele vai ver!’.

Foi um toco só. Ele caiu se contorcendo de dor, mas acho que fez cena demais: queria ver se o argentino Juan Brozzi me expulsava, e se assim o Milan começava logo com a vantagem de onze contra dez. Eu não me perturbei, fiz tudo friamente, tratei logo de falar com o pessoal para arrumar bem a nossa defesa, comecei a preparar a barreira. Os italianos chiaram muito. O Maldini, capitão deles, falava pelos cotovelos, queria cavar minha expulsão a qualquer preço. Eu nem dei bola porque sabia que a palavra de seu Moran era para valer: ‘Você é rei lá dentro, Almir. Faz o que quiser. O juiz não vai fazer nada’.”

O relógio havia acabado de marcar a primeira meia hora da partida quando Almir participou do lance decisivo. Maldini tentou cortar uma bola dentro da área e acabou acertando a cabeça do jogador do Santos. Juan Brozzi marcou pênalti. “Lima fez um cruzamento pelo alto, eu estava mais ou menos ali pela marca do pênalti. Ia chegar um pouco atrasado na bola, mas tinha de tentar, tinha de acreditar em mim. Vi quando Maldini, desesperado, levantou o pé, tentando cortar o lançamento. Eu tinha de dar tudo ali naquele lance: meter a cabeça para levar um pontapé de Maldini, correr o risco de uma contusão grave, ficar cego, até mesmo morrer, porque o italiano vinha com vontade. Agora era ele ou eu. Meti a cabeça. Maldini enfiou o pé, eu rolei de dor no chão. O argentino Juan Brozzi não conversou: pênalti”, disse.

Parece que realmente foi pênalti, mas, junto com as acusações de que a arbitragem havia sido comprada, e com as reclamações de excesso de faltas no primeiro jogo no Maracanã, também apitado por Brozzi, a penalidade foi o bastante para Maldini perder a cabeça.  Houve cenas lamentáveis, e o capitão do Milan partiu para cima do árbitro. Acabou expulso e retirado de campo. Dalmo foi o responsável pela cobrança e pelo gol do bicampeonato mundial, mas o grande herói foi o corajoso Almir.

No mesmo Maracanã…

O Bangu vencia o Flamengo por 2 a 0 no intervalo da decisão do Campeonato Carioca de 1966. O dirigente rubro-negro Flávio Soares de Moura perguntou para Almir Pernambuquinho: “Eles vão dar a volta olímpica?”. Almir respondeu: “Não vai ter volta olímpica. Só se for do Flamengo”. Palavras ousadas porque, além do placar desfavorável, o Flamengo estava, na prática, com dois jogadores a menos: o ponta Carlos Alberto e o meia Nelsinho, machucados, arrastavam-se em campo e não havia substituições.

Almir mais uma vez havia tomado a “bolinha”, que desta vez ele especificou como dexamil, uma espécie de anfetamina, e em seu livro teceu teorias da conspiração: que o árbitro e o goleiro Valdomiro estavam no bolso do Bangu. Fato é que o clube do bicheiro Castor de Andrade fez 2 a 0 no primeiro tempo e ampliou a vantagem no segundo. A diferença na partida era tão grande que Almir estava com medo de ver o Flamengo levar um baile, ser humilhado em pleno Maracanã. A partida não podia terminar.

A deixa quando o atacante Ladeira deu um tapa na cara de Paulo Henrique, do Flamengo. Almir foi para cima do agressor com todas as intenções de agredi-lo, e explodiu a confusão no gramado do Maracanã. Ladeira foi retirado de maca, e Almir, consciente de que tinha sido expulso, saiu do gramado. Mas, voltou, sob ordens de não se sabe quem, para acabar de vez com aquela “palhaçada”. Começou com o goleiro Ubirajara, segundo o livro Eu e o Futebol.

“Dei-lhe um soco no estômago. Ele caiu e se levantou logo para revidar, enquanto Ari Clemente me dava um saoco. Eu estava cercado de jogadores do Bangu, mas fui enfrentando todos eles: uma pontapé num, um soco noutro, uma corrida em cima de outro, até que todo mundo entrou na briga. Veio polícia, os fotógrafos corriam no campo à procura dos melhores lances do conflito; eu estava uma fera, era de novo o miúra do jogo Santos x Milan: via vermelho e branco na frente, ia dando cacete em quem encontrava. O juíz Aírton Vieira de Morais (Sansão) acabou cumprindo bem o seu papel: expulsou cinco jogadores do Flamengo e quatro do Bangu. Com isso, o Flamengo ficava com menos de sete jogadores no campo, o jogo não podia prosseguir. Sansão deu a partida por encerrada, o Bangu era campeão”.

Mas não deu volta olímpica.

A briga de bar

Almir Pernambuquinho encerrou a sua carreira com a camisa do América-RJ, em 1968, e cinco anos depois, foi assassinado em uma briga no bar Rio-Jerez, em Copacabana. Ainda era muito jovem: tinha apenas 35 anos. As versões divergem. A majoritária, contada pelo escritor e jornalista Mário Prata, diz que Almir levantou-se para defender atores gays, que faziam um espetáculo chamado “Dzi Croquetes” e estavam sendo provocados com insultos homofóbicos por três portugueses.

O jornal Folha de S. Paulo, em texto sobre os 40 anos do ocorrido, publicou que, segundo familiares do ex-jogador, a discussão na verdade teria começado quando ele agrediu um dos homossexuais.

No dia seguinte ao ocorrido, em 7 de fevereiro de 1973, a Folha contou uma terceira história: um dos portugueses, Artur Garcia Soares, estava mexendo insistentemente com a companheira de Almir, Helenice Ferreira de Sousa. Almir protestou “cordialmente”, mas Artur respondeu de maneira agressiva. No meio da discussão, o ex-jogador teria levado um tiro na nuca.

 

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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