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Por que damos tanta importância para chancelas oficiais no futebol?

A relação que temos com as autoridades oficiais do futebol me parece paradoxal: ao mesmo tempo em que sabemos que elas não podem ser confiáveis, que não são entidades democráticas, que suspeitamos de decisões meramente políticas e de sujeira nos bastidores, olhamos para elas em busca de confirmação dos nossos sentimentos, experiências e do registro feito pela história.

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A Fifa declarou, nesta sexta, que os vencedores das Copas Intercontinentais, o nome pelo qual ficou conhecido o Mundial de Clubes que foi realizado durante 44 anos, são agora reconhecidos como campeões mundiais pela entidade máxima do futebol. Juntam-se à festa, portanto, o Santos de 1962 e 1963, o Flamengo de 1981, o Grêmio de 1983 e o São Paulo de 1992 e 1993. Antes tarde do que nunca: ela foi a última a perceber que esses clubes conquistaram o mundo.

Uma análise retroativa da importância de um campeonato não pode ignorar o contexto da época em que ele foi realizado, nem o significado que ele teve naquele momento. A parte técnica é incontestável, porque estamos falando de duelos que colocaram frente a frente o time de Pelé com o de Eusébio, o de Zico com o de Kenny Dalglish, o de Telê Santana com o de Johan Cruyff, e torcedores acordaram cedo para assistir a jogos que foram tratados e comemorados como campeonatos mundiais.

Não chega a ser má ideia incluir representantes de outros continentes, um passo natural para um campeonato que se propõe global, por mais que o formato atual esteja se esgotando e prestes a ser mudado. Também não é ruim, em si, oficializar o Mundial de Clubes colocando-o nas mãos da Fifa. O problema é, ao fazer isso, apagar o que aconteceu anteriormente e, pior ainda, aceitarmos tal imposição por causa da autoridade difusa de uma entidade sem representatividade com os torcedores e engolida por escândalos.

Sem querer aprofundar demais a sociologia, a autoridade tem que emanar do povo. O instrumento que mais gostamos de usar para isso é o voto, e quem elegeu Joseph Blatter e Gianni Infantino? Nem indiretamente conseguimos chegar de forma abrangente aos torcedores: foram federações nacionais, eleitas por clubes, comandados por presidentes, alguns deles escolhidos por sócios, muitos deles, não.

Não quer dizer que a Fifa não tem sua função ou sua legitimidade, mas ela não é absoluta. Seria interessante um órgão técnico que avaliasse e ordenasse por importância campeonatos do passado, desde que o processo fosse conduzido com transparência, uniformidade e critérios bem estabelecidos. O que a Fifa faz – e a CBF – é escrever e reescrever a história de acordo com as necessidades políticas do momento.

O Mundial de Clubes oficial, com todos os continentes, foi idealizado a partir da estratégia eleitoral desenvolvida por João Havelange, de agradar federações menos importantes, cujos votos tinham o mesmo peso das brasileiras e inglesas. Agora, a decisão da Fifa surge no momento em que se fala em retomar a disputa única entre os campeões da Europa e da América do Sul, diante da possibilidade de que um Mundial mais robusto possa substituir a Copa das Confederações.

Pelo menos no Brasil, nunca houve dúvidas em relação à legitimidade desses jogos como títulos mundiais. Até a Fifa decidir realizar o seu próprio torneio e começarmos a abaixar a cabeça para o que ela estava dizendo, ignorando tudo que os torcedores experimentaram com as glórias de Tóquio, do Estádio da Luz, do Maracanã e de San Siro. Parece haver uma tara por oficializações no futebol brasileiro que supera as vivências e a memória coletiva.

E é constante. Atenção: não estamos entrando no mérito de nenhuma dessas questões, quem está certo e quem está errado na letra da lei, mas isso ocorre com os campeonatos nacionais pré 1971 e com a Copa União de 1987. Parece mais importante ter um papel assinado com firma reconhecida no cartório – no fim das contas, o que são a CBF e a Fifa além de cartórios muito bem financiados? – para esfregar na cara dos torcedores rivais do que relembrar e preservar grandes jogos, craques e campanhas.

É mais uma aspecto da preguiça crônica pelo debate um pouco mais profundo que temos no nosso futebol: é muito mais fácil pedir que uma entidade, qualquer uma, pense por você do que argumentar sozinho a importância de um campeonato ou de um título. A mesma coisa ocorre com as premiações individuais, que estão cada vez mais midiáticas, automáticas e descoladas da realidade. Se você acha Messi melhor que Cristiano Ronaldo – ou vice-versa -, o que importa se um tem três, quatro ou cinco Bolas de Ouro? O que importa se o seu jogador favorito ficou em sexto ou sétimo lugar na votação dos capitães e técnicos da Lituânia, Canadá e Sudão?

O que importa a chancela oficial para o título que você, ou seu pai, ou seu avô, comemoraram como se fosse o maior do mundo? Durante mais de 40 anos, não houve dúvida ou debate em relação a isso. Sempre houve um consenso. Diante dele, não é contra a lei, nem vergonhoso, dizer que seu clube é campeão mundial, mesmo que um punhado de suíços discorde. E seu clube não se tornou campeão mundial apenas porque um punhado de suíços mudou de ideia.

Seu clube se tornou campeão mundial porque Pelé fez uma das melhores partidas da sua vida no Estádio da Luz, porque Pepe colocou pneus de chuva para salvar o Santos contra o Milan no Maracanã, porque Nunes passou por cima do Liverpool, como a Ferrari de Telê Santana passou por cima do Barcelona, e Renato Gaúcho, do Hamburgo, e porque a bola bateu na bunda do Müller.

Nada disso pode ser modificado por uma canetada.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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