Brasil

Alex: “Quem me viu aos 23 anos não vai notar que tenho 35″

Mais um texto da seção “Baú da revista”, em que, toda sexta, eu republicarei alguma reportagem minha na Revista ESPN. Nesta semana, a entrevista com o meia Alex, publicada na edição de dezembro de 2012. Aproveitem.

Um Alex múltiplo está de volta ao Brasil, depois de nove anos, 378 jogos, 185 gols e 162 assistências pelo Fenerbahçe, que o transformaram em uma lenda na Turquia.

Volta o artilheiro: entre todos os jogadores que atuam no Brasil, ninguém, nem mesmo atacantes como Fred e Luís Fabiano, fez tantos gols quanto ele. Volta o virtuose: alguém se lembra de um gol tão bonito como aquele de dois chapéus contra o São Paulo? Volta o messias do Coritiba, que ele jura não ser. Volta o dono de passes perfeitos. Volta o cidadão, preocupado com o País e cioso do peso de suas opiniões. Volta o dono de palavras sinceras, que garante ter um prazer muito maior em vencer Corinthians, Atlético Mineiro e Atlético Paranaense.

Todos esses Alex estão nesta entrevista, feita em um restaurante napolitano na zona oeste de São Paulo e interrompida por 17 minutos em que ele comeu, com gosto, um filé à parmegiana, com pouco arroz e nenhuma batata frita. Toda a porção foi devidamente desprezada.

Durante uma hora, bebeu água mineral, tomou café e falou sobre passado, presente e futuro. Dos amigos de futsal que nunca conseguiram derrotar o invencível time de Ricardinho, das particularidades entre os grandes times do Palmeiras de 1999 e do Cruzeiro de 2003, tão diferentes entre si, tendo em comum apenas o seu futebol, da preferência pelo Barcelona, do sonho de novos títulos e da possibilidade concreta de ser treinador.

Alexsandro de Souza está de volta. Escolha o melhor deles e desfrute.

Há uma percepção de que você está indo para o Coritiba como uma homenagem ao clube que o revelou, abrindo mão de títulos.

Vou pensando em conquistas, mas claro que é um pouco mais difícil do que em um clube de São Paulo, do Rio, de Minas… Mas o sonho é o mesmo, de poder conquistar. Vou para o Coritiba porque era um desejo meu, e porque vejo no clube potencial para conquistar títulos.

A situação do Palmeiras ajudou na decisão?

Não, o Coritiba ainda corria riscos quando eu assinei contrato.

E por que você confia que o Coritiba possa vingar? O trabalho está sendo benfeito?

Eu estou conhecendo o trabalho agora. Está bem redondo, mas temos de conquistar alguma coisa.

A torcida do Coritiba o considera o messias, o cara que volta para levar o time a grandes conquistas. Isso aumenta a expectativa do torcedor?

Do torcedor eu não sei. A minha, não, porque não sou salvador de nada. Sou mais um jogador, alguém que teve uma carreira legal e que volta para dar a sua contribuição.

Na Espanha é cada vez mais difícil romper a dicotomia entre Barcelona e Real Madrid. E no Brasil, é mais ou menos assim?

Também. Um clube como o Coritiba, o Bahia, a Portuguesa, clubes do Recife como o Náutico, o Sport… Para esses times ganharem é bem mais difícil, é bem mais complicado. Vou dar um exemplo hipotético: se o presidente do Coritiba procurar um atacante, ele vai ter de se apresentar, mostrar o clube, dizer que ele vai jogar com o Alex, com o Deivid, e aí acerta o salário. Mas o jogador, antes de assinar é procurado pelo São Paulo. O Juvenal [Juvêncio] não precisa se apresentar, não precisa explicar como é o São Paulo e nem dizer com quem ele vai jogar. Aí, se o jogador disser que já acertou por R$ 80 mil, é fácil para o São Paulo dar um pouco mais.

Então é mais fácil para os times do eixo Rio-São Paulo?

Sim, veja o Palmeiras que caiu para a segunda divisão. A cota de televisão é mantida e fica uma diferença enorme com os outros clubes.

Como você está fisicamente?

Muito bem. Quem me viu jogar com 23 anos não vai notar diferença agora que estou com 35. O que mudou é que eu fico mais ansioso no pré-jogo, na hora de tomar o ônibus para o estádio. Continuo ouvindo Fundo de Quintal, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, mas não nego que tenho mais responsabilidades. Antes, havia outras referências no time, hoje a referência sou eu.

Está pronto para correr?

Eu vejo esses scouts no Brasil que mostram os jogadores correndo em média oito quilômetros. Na Turquia ninguém corre menos do que dez quilômetros. Mas agora eu conheço os atalhos.

Você continua fazendo gols.

Eu tenho 384 gols na carreira. Nenhum jogador em atividade no Brasil tem essa marca. Só se o Rivaldo voltar. Tenho uma média de 22 gols por ano. Acho que dá para manter.

Ainda mais cobrando pênaltis.

Continuo batendo, sim. O ruim é quando o goleiro te conhece. No meu primeiro ano de Fenerbahçe joguei contra o Ajax, do Gomes, que eu conhecia bem nos tempos de Cruzeiro. Tivemos um pênalti e eu fui arrumar a bola. Ele chegou e falou que sabia como eu iria bater, virou as costas e foi para o gol. Aí, ficou um monte de dúvidas: mantenho ou mudo o meu jeito de bater? Mantive e mandei uma porrada. Ele foi na bola e não pegou.

Vale cavadinha?

Não é para todo mundo. O Djalminha, que é um gênio, pode errar que ninguém reclama, ele sempre batia assim. Agora, o Maicosuel vai ser criticado mesmo, porque ele não está acostumado a bater assim e porque aquele jogo da Udinese contra o Braga, quando ele desperdiçou a cobrança, valia vaga na Champions League.

Você ainda se encontra com os amigos do seu time de futsal, que se tornou lendário no Paraná?

Sim, já encontrei amigos que não via há 20, 25 anos. Me lembro de tudo, dos amigos, dos adversários, mas é bom explicar que meu time era bom, mas o grande time era o do Ricardinho. Ele jogava no Pinheiros e eu na AABB. Ele sempre ganhou tudo, nós éramos apenas o adversário mais duro. O time dele tinha o Tcheco e o Lipatín, que depois jogou no Grêmio, esteve na Batalha dos Aflitos e hoje é empresário do Ricardinho. O meu time tinha o Lúcio Flávio.

Houve muitos embates entre você e o Ricardinho?

Sim, eu no Coritiba e ele no Paraná. Depois eu no Palmeiras e ele no Corinthians, eu no Fenerbahçe e ele no Besiktas.

Na Seleção, ele ganhou de você…

Depende. Ele foi a duas Copas do Mundo e eu a nenhuma, mas meus números são melhores. [Alex tem 49 jogos e 12 gols. Ricardinho tem oito jogos e nenhum gol]. Nós dois tivemos carreiras brilhantes e as comparações acontecem porque crescemos juntos. Mas somos de posições diferentes, poderíamos, inclusive, jogar juntos.

Este duelo pode se repetir como treinador, não?

Talvez, não sei. Por enquanto sou jogador com contrato. É ótimo ser treinador, você trabalhar uma semana, montar peças e no domingo ver o resultado. Quando parar, vou fazer um curso. Tem gente também que diz que eu poderia trabalhar na televisão como comentarista. Veremos.

É verdade que você se revoltou por não ir à Copa de 2002 e nem viu a final?

Nós estávamos na casa do Mozart [volante]. Passei o sábado na casa dele em Morretes, uma cidade a 30 quilômetros de Curitiba. Teve festa, eu participei, e na hora do jogo eu estava dormindo. Acordei com o gol do Ronaldo, já no 2 a 0, peguei minha mulher e fui para Curitiba, de carro. Ouvi pelo rádio o título. Quando estava saindo da casa do Mozart, um cara falou que eu não estava comemorando. Falei que havia acabado de acordar e o Mozart disse para o sujeito que eu devia estar lá no jogo, em campo, e que por isso não tinha muito o que comemorar. Então foi o Mozart que falou, não eu.

Você já entendeu por que, afinal, não foi àquela Copa do Mundo?

Não e nem me interessa mais entender. Não vai mudar nada.

Qual foi o seu gol mais bonito?

Aquele contra o São Paulo, quando dei dois chapéus. Tenho gravações do José Silvério, do Ulisses [Costa] e do Nilson César guardadas.

Barcelona ou Real Madrid: qual estilo mais te seduz?

O futebol me seduz. Mas o estilo do Barcelona é mais plástico, é único. Eles acharam esse estilo de jogo com o Guardiola. Tem gente que diz que o Barça sempre foi assim, mas não foi. O Barça do Romário tinha o [Michael] Laudrup no meio campo, já o do Rivaldo era mais forte, e depois teve o do Ronaldo e o do Deco, que era um baita time, mas não era como este de hoje, que encanta. Este é o melhor de todos.

Se pudesse escolher um estilo das equipes em que jogou, ficaria com o Palmeiras de 1999 ou o Cruzeiro de 2003?

O Cruzeiro de 2003. Era mais plástico, mais bonito de se ver jogar. O time de Felipão em 1999 era mais forte, até psicologicamente. A gente até comemorava derrota fora de casa porque sabia que ganharíamos no Palestra Itália. Mas o palmeirense deve lembrar que o modo como o Felipão montava o time era questionado, diziam que o time era muito preso, que devia ser mais solto.

Felipão ou Luxemburgo?

O Luxemburgo é fenomenal. Mas as comparações entre os dois devem passar até pelo lado cultural de cada um. Da cultura futebolística, mesmo. O Scolari jogou só no interior do Rio Grande do Sul, o Luxemburgo foi criado no Rio, é outro estilo. Luxemburgo apostava mais na qualidade dos volantes, transformou Emerson e Rincón em volantes, pelo bom passe. É mais estratégico.

Quem te ama mais, a torcida do Palmeiras ou a do Cruzeiro?

Precisa perguntar para eles. Eu respeito igualmente Palmeiras, Cruzeiro, Fenerbahçe e Coritiba. A diferença é que sou torcedor de arquibancada do Coxa. A procura dos turcos é maior, até porque a torcida é bem maior, são mais de 30 milhões. No Cruzeiro, cheguei perto de ser uma unanimidade, no Palmeiras nunca fui.

Não?

Não. Gostavam de mim, mas unanimidade eram apenas o Marcos e o Evair. O Edmundo era ídolo, mas também era contestado.

Jogador de futebol tem raiva de um time, comemora mais certas vitórias?

Claro. Quem é do Coritiba gosta de vencer o Atlético, quem é do Palmeiras gosta de derrotar o Corinthians, quem é Cruzeiro comemora mais contra o Galo. E isso continua. Estou no Coritiba e vou ter mais prazer em vencer o Corinthians.

Qual a diferença entre o futebol brasileiro e o turco?

Lá a paixão do povo é muito maior. Você vira uma celebridade de verdade. A cobertura é muito maior. Já vi senhoras de 80 anos comprando jornais esportivos. Tecnicamente, o nosso é melhor, menos corrido, com menos força, protegemos mais a bola.

E o que é pior, dirigente brasileiro ou dirigente turco?

Turco é pior. Ele é mais apaixonado, coloca dinheiro, é um investidor do clube. Joguei quatro anos no Palmeiras e vi o Mustafá [Contursi, ex-presidente] três ou quatro vezes. Na Turquia via o presidente todo dia. Ele foi preso por um caso de mala branca.

Você teve convites para jogar nas grandes ligas da Europa, mas não aceitou…

Tive para jogar na Alemanha, em 2007. Acertei com o Borussia Dortmund, mas teve uma mudança e o negócio foi desfeito. Tive chance de jogar no Birmingham e não quis. Também em Portugal e na Espanha.

Mudando um pouco de assunto, existe uma história engraçada sobre como você conquistou sua mulher. Uma história que envolve jornal…

[Risos] A história é que eu ia sempre à sala de um supervisor do Coritiba, chamado Paulinho Alves, para pegar ingressos. E eu a via lá. Então, ia sempre para paquerar, ficava lendo o jornal. A lenda que ela e o pai dela alimentam é que eu ficava lendo o jornal de cabeça para baixo, mas não é verdade, não.

Você era conquistador?

De que jeito? Falo pouco, sou feio pra cacete e não gosto da noite.

Você é um jogador diferente, com um nível intelectual acima da média. Você lê bastante? Qual o melhor livro que leu recentemente?

A biografia do Andre Agassi. Já li duas vezes. Em especial a parte em que ele encontra a Steffi Graf e ela diz que adorava tênis, viajar e treinar, enquanto ele fala que detestava tudo aquilo.

Gosta de tênis?

Meu segundo esporte é o futsal, talvez seja o primeiro. Mas eu gosto de tênis também.

Já viu a novela “Salve Jorge”, que se passa em partes na Turquia?

Sim. Quando a Glória Perez começou a escrever a novela, eu estive com ela em Istambul. Soube de muitos detalhes da trama antes de acontecer. Ela trocou ideias comigo, queria saber como os turcos viviam. Aí, fomos a um bar e ficamos horas observando as pessoas para ela sacar os sotaques, o gestual, coisas diferentes que poderia colocar na novela.

Acredita que jogadores de futebol devam se posicionar sobre outros assuntos?

Nós temos um papel importante na sociedade, somos exemplo para muitas crianças. Então, com todas as oportunidades que temos, devemos sim nos posicionar de alguma forma, com bons exemplos. Eu, na sociedade turca, entrava na casa do ministro e do gari. No Paraná a mesma coisa. Conheço o governador do Estado, conheço o prefeito que acabou de ser eleito, o [Gustavo] Fruet. Por isso, acredito que o jogador deve se posicionar.

Você assumiria apoio a algum candidato político?

Não assumo minha posição de eleitor, mas assumo várias discussões que possam ser implementadas.

Regina Duarte e Camila Pitanga assumem apoio a um candidato…

Mas até que ponto a Regina Duarte tem in­fluência? Talvez há 30 anos ela tivesse. A Camila Pitanga, sim, o pai dela é casado com a [deputada federal] Benedita da Silva. Mas o jogador de futebol tem mais importância. Por isso, tem de ter cuidado com o que fala. Tem de falar coisas positivas, defender ideias. Tudo é importante. Veja agora: a Dilma mandou abraços para o Neto e o Falcão, do futsal, pelo título [da Copa do Mundo]. Vai receber o time todo?

Mas se ela receber não parece demagogia, que está aparecendo em cima dos jogadores?

Não, ela é presidente, não precisa aparecer, não ganha nada com isso. Acho que quando alguém faz alguma coisa boa pelo esporte tem de ser abraçado pelo povo. E o presidente é o representante do povo.

O que você pensa do Ronaldo e do Bebeto no Comitê Organizador da Copa?

São jogadores que participaram da Copa do Mundo, que conhecem bem o assunto. O Ronaldo tem um peso absurdo relacionado ao futebol, ele tem um conhecimento grande. Espero que as coisas caminhem bem.

Está confiante com a Copa e a Olimpíada no Brasil?

Sou sempre confiante, sempre otimista. Que o Brasil se prepare bem, que receba bem quem vier, que tenha um grande sucesso. Acho que Olimpíada deve ser mais difícil que Copa, com desafios maiores, por ter muita gente concentrada em um lugar só.

Se o presidente do Palmeiras lhe perguntasse como vencer a Série B o que você diria?

Que o caminho é de muito trabalho e muita seriedade. Precisa ter muita organização, o que permite que o time se levante rapidamente quando houver uma queda.

Você comemoraria gols contra o Palmeiras ou o Cruzeiro?

Lógico. Eu comemorei contra o Coritiba, por que não vou comemorar contra o Palmeiras?

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