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Adeus de D’Alessandro é uma declaração de amor ao Inter e uma tristeza aos colorados

A história de Andrés D’Alessandro no Internacional é eterna. Seus 12 anos de clubes estão marcados profundamente na memória e no coração de cada colorado que o viu jogar e em todos que não viram, mas ouvirão as histórias daqueles que acompanharam. Esta história, agora, tem data marcada para terminar. A coletiva de imprensa desta segunda-feira serve como um momento histórico. É o anúncio da despedida. O argentino comunicou que não irá renovar o seu contrato com o clube após o término, dia 31 de dezembro. Em 2021, o Colorado não terá mais o seu camisa 10 de tantos anos. 12 anos. Uma vida.

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As palavras de D’Alessandro para a sua despedida são de encher os corações colorados – e os olhos, só que de lágrimas. As palavras escolhidas pelo ídolo para o seu adeus reverberam intensamente em cada peito colorado, em cada coração que pulsa vermelho de paixão, em cada grito rouco no Beira-Rio, em cada dia de Inter.

A ti, torcedor colorado, sempre falei com o coração. Agora, não poderia ser diferente. Afinal, a ti devo tudo. Foi tu, que há 12 anos me recebeu de abraços abertos em Porto Alegre. Foi tu, que desde 30 de agosto de 2008 me mostrou o que é o Inter, que me fez entender o peso da camisa vermelha, sua história, sua importância. Foi junto contigo que conquistei o que conquistei e que me tornei o que sou.

O que alcançamos juntos deve ser preservado. E por respeito a ti, e por tudo que vivemos, preciso te dizer de peito aberto: o tempo passa, as coisas mudam, e os ciclos se fecham. O meu, longo, inesquecível, vitorioso, está chegando ao final. Entender isso foi o que me fez decidir, pensando no melhor para mim e no melhor para o Inter. Uma decisão pessoal, amadurecida e somente minha.

Em 2021, não estarei aqui. Seguirei minha vida profissional e o Inter o seu caminho. Tantos outros passaram e o Dale também passa. Mas o clube, maior que tudo e todos, permanece. Porque é gigante, porque é o Inter. A ti, torcedor colorado, que palavras não traduzem tudo que precisa ser dito. Então deixo que o coração fale, estaremos juntos para sempre. Muito obrigado.

Andrés Nico D’Alessandro, Porto Alegre, 23 de novembro de 2020.
https://twitter.com/SCInternacional/status/1330948726026887179

O que significa D’Ale para o Inter é algo difícil de descrever. Talvez se fale dos títulos, que são muitos. A Libertadores, a Sul-Americana, uma Suruga, uma Recopa, sete gaúchos, duas Copas RS. Cada uma com importâncias muito diferentes, mas nenhuma dessas taças consegue demonstrar o que significa esse jogador para o clube.

Cada título é um capítulo, uma história, uma lembrança, mas todas menores que a figura que ele representa. Afinal, idolatria não se dá só por títulos, se dá por sentimento. Um sentimento intenso que muitas vezes nunca tem uma taça para chamar de sua. Nem precisa. O amor do torcedor pelo clube, e por aqueles que representam o escudo como se fosse um dos milhares da arquibancada, é algo que a história torna eterno.

 

D’Alessandro disparou na coletiva. Falou sobre quem estava e quem não estava. Sobre o ambiente conturbado politicamente, desde que o vice-presidente de futebol, Alessandro Barcellos, deixou o cargo para ser concorrente à presidência como oposição. O ambiente conturbado, com críticas internamente, já minou parte do trabalho de Eduardo Coudet, que optou por sair quando sabia que tinha boas perspectivas, pelo menos esportivas, ao ficar. As falas de D’Alessandro reforçam que isso tem sido um problema.

“A saída dele (Coudet) foi ruim. Não há como não ter instabilidade no grupo, no dia a dia. Foi embora um treinador que conseguia resultado, desempenho, entrega no campo. Vida que segue. Obviamente foi uma escolha do treinador e muito bem respeitada”, afirmou.

“Nem tudo é o que parece. Eu gostaria de um clube mais unido, sem falta de respeito. Recebi ontem um Twitter de um conselheiro do clube, que está em uma chapa: ‘Esse gringo 171 que se arrasta em campo’. Os conselheiros podem não gostar do que tenho entregado em campo, mas precisam respeitar meu caráter, minha índole. Nunca desrespeitei o clube”.

“O Twitter é o lugar dos covardes. É muito fácil falar nas redes sociais. É fácil falar mal do clube quando perdemos um ou dois jogos. O colorado de verdade ajuda, ou pelo menos não se manifesta. O colorado de verdade busca ajudar”.

O anúncio da sua saída significa que D’Alessandro sequer terminará os campeonatos que seguem até 2021, caso o Colorado siga avançando na Libertadores. O Brasileiro só termina em fevereiro. “A responsabilidade pelos resultados é 90% do grupo. A instabilidade ocorreu após a saída do treinador. Mas passa ao vestiário. Não conseguimos produzir. Esperamos melhorar. Nestes últimos 38 dias, nada mudará do que fiz até agora por fazer este anúncio. Seguirá igual. O que o professor Abel (Braga) precisar, estarei pronto para ajudar o grupo”, disse.

 

A saída de D’Alessandro é um sinal que as coisas estão fervilhando e se une à insatisfação do próprio jogador com o papel que tem, que é pequeno. Tem a ver principalmente com um ambiente que incomoda quem está lá, trabalhando, todos os dias. Já não era bom com o time líder do Campeonato Brasileiro, com Coudet tirando tudo que pode do time, talvez mais. Agora, com a queda de rendimento, a tendência é que isso piore. E isso, certamente, não ajuda ninguém, nem o time, como coletivo.

Em uma situação normal, em um bom ambiente favorável, que D’Alessandro fosse bem aproveitado por tudo que pode oferecer, ele penduraria as chuteiras com a camisa colorada, como o grande ídolo que é, com todas as homenagens que ele merece ter. Ainda há tempo para fazer tudo isso, mas o fim, antes do término da temporada, terá um inevitável sabor amargo. Até porque ele quer continuar jogando e era difícil imaginar D’Ale terminando a carreira em outro lugar. A diretoria deveria fazer todo esforço para que o Inter fosse o último clube do jogador.

Mesmo assim, ainda que haja alguma mágoa, a história estará escrita. Ele tem tudo para terminar a sua imensa passagem pelo Inter de 12 anos (com um ano de empréstimo ao River, em 2016) como um dos que mais vestiu a camisa do clube. Hoje, tem 513, em terceiro lugar, atrás apenas de Bibiano Pontes, com 523, e Valdomiro, inalcançável com seus 803 jogos. D’Alessandro é uma lenda que pode deixar de estar em campo pelos colorados, mas está eternizado.

Mesmo que D’Alessandro pouco faça daqui até o dia 31 de dezembro, ele ganhou um lugar no panteão dos ídolos, expresso em bandeiras, quadros, livros, nomes. Certamente teremos colorados com nomes de Andrés, como possivelmente já temos. O camisa 10, que começou com a camisa 15, porque a 10 era de Alex no seu primeiro ano, tornou-se um camisa 10 eterno. A despedida é também de cortar corações, mas parafraseando um famoso ex-presidente do Brasil, D’Alessandro deixará os campos para entrar para a história.  

 

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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