Brasil

A lenda de ‘Abel Ferreira, o inimigo das Crias da Academia do Palmeiras’ faz algum sentido?

Técnico do Palmeiras deu e dá chances há muitos jogadores desde sua chegada ao clube, mas seria o suficiente?

Técnico mais longevo do Brasil, mais vencedor desde sua chegada e segundo maior ganhador de títulos da história do Palmeiras, com nove – um a menos que Oswaldo Brandão. Mesmo assim, não faltam palmeirenses críticos ao trabalho de Abel Ferreirra.

Além do apelido de Pardal, em referência ao personagem da Disney – um inventor incompetente – Abel é acusado de prejudicar o desenvolvimento de jogadores formados no clube em detrimento do que os críticos chamam de “panela”: os atletas que conquistaram dez títulos nas últimas quatro temporadas, havendo duas Libertadores e dois Brasileiros entre eles.

Curiosamente, Abel Ferreira teve o bom trabalho com jogadores oriundos das categorias de base como um dos principais argumentos a seu favor na época da decisão de sua contratação. Mas afinal, ele cumpriu o esperado ou de fato prejudicou a evolução de jogadores da base?

Há diferentes maneiras e diferentes argumentos que precisam ser cruzados para se chegar a uma conclusão. Além de saber quantos jogadores trabalharam com ele, é preciso saber quantos ele de fato utilizou com frequência, por exemplo

Também é necessário avaliar se houve um número razoável de chances aos jogadores – o que vem a ser uma análise muito subjetiva para quem está fora do dia-a-dia do clube, mas que é muito bem embasado por quem está dentro.

Mas no fim das contas, como tudo no futebol, nada se impõe mais do que o resultado. O número de conquistas de Abel no intervalo de tempo em que está no clube, é o seu grande critério de avaliação.

Abel não decide sozinho

Endrick disputa jogada com jogador do São Bernardo pelo Paulista (Foto: Cesar Greco/ Palmeiras/ By Canon)

Também é importante pensar que por mais que seja o decisor final dos assuntos relativos ao elenco do futebol profissional alviverde, Abel não é o único com poder de decisão.

Quando chegam ao técnico como possibilidades de mão de obra para o time profissional, os jogadores já passaram pelo escrutínio dos técnicos das equipes da base, da diretoria de futebol de base e dos analistas de desempenho do futebol profissional.

Também já foram avaliados pelo Núcleo de Saúde e Performance, que inclui profissionais das áreas médicas, de nutrição e psicológica. E já foram validados por Vitor Castanheira, o auxiliar de Abel responsável pela ligação entre as categorias de base e o profissional.

No fim, o jogador que chega a Abel é só a ponta final do processo. E ele tem defendido os jogadores revelados no clube.

Hoje, além dos goleiros Kaique e Mateus, há nove Crias da Academia no elenco: Garcia, Naves, Vanderlan, Fabinho, Menino, Jhon Jhon, Luis Guilherme, Endrick e Estevão.

E Jhon Jhon, com oito jogos, divide com Aníbal Moreno o posto de jogador mais vezes utilizado na temporada.

Números altos

Os números mostram que Abel de fato promoveu muitos jogadores desde sua chegada. Segundo levantamento realizado pela Trivela, 25 jogadores formados no clube foram escalados pelo técnico.

A soma não traz jogadores que não estrearam, mas se firmaram sob sua administração. O caso de maior sucesso foi o de Danilo, içado por Vanderlei Luxemburgo do Sub-20, meses antes da chegada do português. Mas houve ainda Gabriel Verón, Wesley, Patrick de Paula e Renan.

O número de jogadores da base escalados por ele – sem contar também casos como os de Vinicius Silvestre, Artur, Papagaio e Victor Luis, que já tinham estourado a idade sub-20 quando o português chegou – é de 34.

Ninguém ficou sem chance

Fabinho disputa bola com Cavani, do Boca Juniors, durante partida válida pelas semifinais da Copa Libertadores, no Allianz Parque. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

É evidente que Abel Ferreira erra e deve ser questionado. Até dentro do Palmeiras, houve críticas quando o técnico escalou uma formação que não andava, na semifinal da Libertadores do ano passado, tendo Endrick no banco, por exemplo.

O título brasileiro, que veio logo depois, com Endrick no comando do time, deixou claro que houve ali um excesso de conservadorismo por parte dele.

Mas, de um modo geral, nenhum dos jogadores da base que Abel deixou de utilizar têm obtido rendimento melhor nos clubes em que estão. E Danilo, que ele deixou ser negociado a contragosto, segue crescendo na Premier League.

Há casos para se avaliar com o tempo. Giovani, por exemplo, acabou negociado com o Qatar, um mercado secundário e logo se lesionou – mas ainda pode mostrar futebol. Kevin, hoje no Shaktar Donetsk, pode ainda mostrar no futuro que merecia mais chances. Mas só a passagem do tempo vai trazer tais respostas.

Mesmo assim, já é válido dizer que nenhum fora de série deixou de ter chances no Palmeiras de Abel. Alguns, como Patrick de Paula e Verón, com o tempo, tiveram problemas extracampo para se firmar.

Os 25 jogadores lançados por Abel Ferreira

Laterais-direitos

  • Garcia – Faz parte do atual elenco profissional do clube e vem jogando com frequência.
  • Lucas Sena – Veio do São Paulo após sair do clube do Morumbi de maneira litigiosa. Atualmente, está sem clube.

Zagueiros

Endrick, Fabinho, Naves, Garcia, Mateus, Flaco López, Eduard Atuesta e Gustavo Gómez (E/D em pé) e Weverton, Luis Guilherme, Jhonatan, Vanderlan e Richard Ríos (E/D agachados), durante
último treinamento do ano, na Academia de Futebol. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)
  • Henri – Está emprestado ao North Texas, do terceiro nível do futebol dos Estados Unidos;
  • Lucas Freitas – Está emprestado à Chapecoense;
  • Michel – Deve ser integrado aos profissionais;
  • Naves – Está no elenco profissional e vem jogando com frequência.

Laterais-esquerdos

  • Vanderlan – Mais do que aprovado, vem jogando com frequência;
  • Ian – Foi negociado com o Famalicão – Palmeiras ficou com 50% dos direitos.

Volantes e Meias

  • Fabinho – Ganhou moral com Abel, vem jogando com frequência;
  • Jhon Jhon – Jogador que mais atuou neste ano, junto com Moreno;
  • Luis Guilherme – Vem sendo escalado com frequência e oscilando;
  • Pedro Bicalho – Está emprestado ao Alverca, da terceira divisão de Portugal;
  • Pedro Lima – Está emprestado ao Norwich, da segunda divisão da Inglaterra, onde tem atuado mais pelo Sub-21;
  • Yago Santos – Era visto como muito promissor, mas não conseguiu se firmar nos profissionais do Palmeiras. Está no América-MG, ainda na base.

Atacantes

Flaco comemora gol do Palmeiras contra o Sãoo Bernardo com Estevão (Footo: cesar Greco/Palmeiras/ By Canon)
  • Estevão – Vem ganhando chances no profissional e correspondendo.
  • Aníbal – Está emprestado ao Ameliano, do Paraguai, mas não vai mais retornar ao Palmeiras.
  • Endrick – Camisa 9 dos profissionais, foi negociado com o Real Madrid por cerca de R$ 400 milhões, valor que depende do cumprimento de algumas metas para ser atingido. Deixará o Palmeiras em julho de 2024;
  • Fabrício – De acordo com informações do portal Transfermarkt, o centroavante está atualmente sem clube;
  • Giovani – Uma venda que os palmeirenses até hoje lamentam, o ponta-direita foi negociado com o Al Sadd, do Qatar, mas rompeu os ligamentos do joelho em sua estreia e ainda não retornou;
  • Kevin – Foi negociado com o Shakhtar Donetsk por 2 milhões de euros fixos (R$ 64,4 milhões), mais 3 milhões de euros em bônus (R$ 16,1 milhões). O Palmeiras terá direito a 8,2 milhões de euros (R$ 44 milhões) do montante fixo, além de 10% de uma venda futura. O restante fica com o Desportivo Brasil.
  • Marcelinho – Esteve no Água Santa, em 2022, foi contratado pelo Cruzeiro e cedido ao Tombense, pelo qual enfrentou o Palmeiras na Copa do Brasil deste ano;
  • Newton – O atacante panamenho está no Antigua, da primeira divisão da Guatemala;
  • Pedro Acácio – O atacante, que também atuou como meia no Verdão, jogou uma temporada no Portimonense, de Portugal, onde atuou como lateral. Atualmente, está no Canaã, da Bahia, de onde saiu para o Verdão inicialmente;
  • Vitinho – Está no Valerenga, da primeira divisão da Noruega. Não tem conseguido muito espaço;
  • Kauan Santos – Negociado com o Shabab Al-Ahli, dos Emirados Árabes, por 2 milhões de dólares (cerca de R$ 10 milhões). O Verdão mantve 35% dos direitos econômicos
Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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