Brasil

A voz que faz a diferença nos estádios empurrou o Brasil

O Brasil saiu às ruas. O que se viu nas maiores cidades do país neste 17 de junho entra para a história. A multidão foi estimada em 250 mil pessoas, mas o número deixa a impressão de que é insuficiente para representar o real tamanho da mobilização. Uma massa imbuída em boa parte do tempo pelo comportamento costumeiro de uma arquibancada.

Em São Paulo, várias foram as faixas e cartazes em referência ao futebol, sobretudo à insatisfação pelos gastos públicos exorbitantes com a Copa do Mundo. Também era possível ver algumas pessoas com camisas de times, sobretudo da seleção, e até mesmo algumas máscaras de Sócrates, símbolo da resistência no futebol. No entanto, mais marcantes foram os gritos da multidão, boa parte deles típicos de um estádio.

“O povo acordou”, “Vamos unir povo” e “Brasil, vamos acordar, um professor vale mais do que um Neymar” eram alguns dos gritos puxados pelos protestantes. Cantos que, com outras letras, seriam comuns no meio da torcida do Corinthians, do Palmeiras, do São Paulo ou de qualquer outro clube do país. Na mobilização que partiu do Largo da Batata, inclusive, algumas “olas” foram organizadas no início do trajeto, no meio da rua.

Se a manifestação da última quinta-feira ficou marcada pelo silêncio durante boa parte do tempo, em razão do medo causado pela ação da polícia, a desta segunda se apoiou nos gritos comuns do futebol para conduzir o protesto. Uma maneira criativa e eficaz de fazer ecoar as reivindicações, a partir de ritmos conhecidos da maioria.

De certa maneira, o futebol é a grande representação de mobilização de massas no Brasil. E nada mais natural que muitas das características de torcedores tenham se repetido nos manifestantes – especialmente porque, entre eles, muitos nunca haviam participado de um protesto ou de mobilização popular do tipo.

Na arquibancada, não basta ser espectador. O torcedor não se contenta se não for o 12º jogador, aquele influencia o resultado. Um espírito que toma conta das ruas agora. Dá para gostar de Copa do Mundo sem ser passível com os desmandos que acontecem com ela, assim como em relação às outras reivindicações colocadas nos protestos. A questão agora não é empurrar o próprio time, mas levar o Brasil para frente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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