A verdade que falta, a mentira que sobra
Barcos desembarcou no Brasil sem ser lá muito conhecido da mídia especializada e como uma total incógnita para o torcedor em geral – um torcedor impaciente ao extremo, diga-se de passagem – carente de ídolos e de um título importante há mais de uma década.
Para piorar um pouco a situação do recém-chegado, ainda teve que ser apresentado após a piadinha do brilhante vice de futebol do Palmeiras que, dias antes, ao despistar sobre a contratação, dissera que o clube “não estava naufragando para pensar em barcos”.
Mas nada disso seria obstáculo para este argentino de sangue frio e alma temperada que, sabedor de si mesmo e de seu talento, fez questão de dizer, sem se alarmar, a que tinha vindo: prometeu 27 gols, no mínimo, quando foi apresentado. Falando com calma, humildade e segurança.
Exigiu respeito quando foi preciso, desde o início, dando um passa-moleque em repórter do Globo Esporte que quis fazê-lo de palhaço ao lado de uma foto de Zé Ramalho. Sem medo das consequências da sua irritação, legítima, mas protestando sem jogar para a torcida.
Barcos foi autêntico desde o início. E fez gols e mais gols desde que chegou, em todos os torneios que participou até aqui. Gols bonitos, decisivos, categóricos e plásticos – como plásticas foram suas assistência de pivô, deixando os companheiros na cara do gol.
Na final da Copa do Brasil, com uma apendicite, conheceu seu primeiro e único problema físico no Palmeiras. Eu imagino que devam ter amarrado o argentino na cama para proibi-lo de atuar no segundo jogo, porque alguém como ele não pode se conformar com uma ausência nesta hora. Alguém que aproveitou o reconhecimento que teve do Palmeiras para honrar a camisa do clube que o acolheu até conduzi-lo, finalmente, aos 27 anos, à Seleção Argentina.
Chegou lá, é verdade, desfalcando o Palmeiras em um momento difícil, mas que torcedor não ficou feliz em ver Barcos ser feliz também? Foi o Palmeiras que o levou até lá! E lá chegando, não se esqueceu de nós. Atendendo pedidos da diretoria e do marketing do clube, sacou uma camisa do Verdão na concentração e fez Messi posar com ela para uma foto que rodou o mundo, que colocou o Palmeiras em destaque no cenário internacional em um momento que nos é tão delicado. Um golaço do Pirata, e outra missão cumprida (ele já tem 21 gols até aqui).
Quem ficou para nos defender na condição de peça decisiva foi aquele que foi recontratado como ídolo em 2010; que chegou cobrando milhões, com seu pai praticamente extorquindo um presidente desesperado, idiotizado e que só teria sobrevida jogando para a torcida.
Quem ficou para nos defender foi aquele que não jogou 30% das partidas desde que foi trazido em 2010, pois vive sentindo dores suspeitas quando a situação do time não está boa.
Quem ficou para nos defender foi aquele que, quando convocado para a Seleção do Chile, foi cortado – duas vezes – por ter chegado bêbado à concentração, envergonhando sua própria pátria e deixando o Palmeiras naquela ‘saia justa’ em seu retorno. Aquele que, após jogar bem por dois míseros jogos na Copa do Brasil, pediu mais grana, ameaçando ir embora.
Quem ficou para nos defender foi aquele andrógino de xuquinha cor-de-rosa que dá risadinha para as piriguetes e se esconde dentro de campo quando o Palmeiras precisa dele.
Se o Palmeiras precisa de um ídolo, precisa parar de bater palma pra quem dá risadinha e se joga na grama quando o marcador chega perto.
Nós temos um ídolo. Genuíno, verdadeiro, masculino, que pode e que vai nos conduzir para longe do naufrágio. Só é preciso reconhecê-lo como tal.



