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A saída de Gilmar deveria ser comemorada tanto quanto a de Dunga

O que deveria ser um ciclo de renovação, após dois anos, dá a sensação de estagnação. Ou, pior ainda, de que a seleção brasileira caminhou para trás. A escolha tão controvertida de Dunga para o comando da equipe nacional se encerra. Um trabalho que não foi capaz de conquistar bons resultados e muito menos de criar uma identidade ao time. No entanto, se é o nome de Dunga que ocupa as manchetes, outra demissão tão (ou mais) importante também aconteceu nesta terça. Gilmar Rinaldi não é mais o coordenador da Seleção. Sua escolha no processo de mudanças após a Copa de 2014 aconteceu antes mesmo do anúncio de Dunga – a quem endossou. Coube ao chefe inflar de ar a bolha que finalmente estourou.

Gilmar chegou ao importante cargo sem credenciais. Foi um ex-goleiro de sucesso, e só. Além disso, também atuou como superintendente na desastrosa presidência de Edmundo Santos Silva no Flamengo. E, para endossá-lo menos ainda, foi empresários de jogadores, o que sempre causou um desconforto desnecessário e outras tantas acusações, mesmo que já estivesse afastado da função.

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Diante de seu passado, Gilmar Rinaldi assumiu o cargo mais por rezar a cartilha da CBF do que por um currículo que o sustentasse. Justamente o que a Seleção não precisava, em um momento no qual a necessidade era trazer novas ideias, repensar estruturas. Por mais que o buraco seja mais profundo (no qual os verdadeiros entraves estão em uma entidade tomada pela corrupção, permissiva ao jogo de poderes das federações e colocando interesses políticos acima do futebol), Gilmar não tinha nada que o referendasse como exemplo de gestão. E para assumir um papel importantíssimo na estrutura do futebol brasileiro, considerando que os seus superiores entendem muito mais de protegerem seus privilégios e se protegerem do FBI do que propriamente de futebol.

Dois anos depois, os principais temores sobre Gilmar Rinaldi se concretizaram. O seu trabalho na coordenação da Seleção foi péssimo – a começar por sua primeira atitude, ao botar a culpa do 7×1 da Alemanha mais em um boné do que em tantas críticas técnicas que poderiam ser feitas. O ex-goleiro apenas escorou o velho modelo e tentou blindar Dunga das pesadas críticas. As novas ideias, estas que eram tão fundamentais, nunca apareceram. Enquanto isso, o mais comum foi um discurso agressivo, mantendo a noção de que a “CBF é o Brasil que dá certo”. E ainda defendendo justamente o que estava errado, por mais que os problemas fossem tão gritantes aos olhos de todos. Um exemplo disso foi sua discussão no programa “Bem Amigos”, após o empate sofrível contra o Paraguai. O Peru provou o contrário.

Ao longo desta semana, a postura de Gilmar foi patética. Preferiu tocar violino com o Titanic afundando, respaldando as decisões de Dunga e reafirmando que a Seleção estava no “caminho certo”. Pior do que isso, prometeu um relatório sobre o que teria sido positivo na Copa América. Pelo visto, nada, diante de sua demissão sem muita conversa na sede da CBF. E suas declarações permaneceram extremamente alienadas nesta terça. “Que não se perca muito das coisas que conseguimos mudar e construir aqui. Estou muito satisfeito pelo trabalho que consegui colocar. Triste por estar saindo. Eu me considero um vencedor”, afirmou.

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Por fim, Gilmar reiterou a fidelidade canina, deixando para trás suas obrigações como coordenador: “Existe uma coisa que aprendi cedo, lealdade. Tenho de proteger meus comandados. Foi o que fiz e faria de novo sem dúvida”. Não dá para esperar muito de um chefe que, ao invés de cobrar, passa a mão na cabeça de seus subordinados e tenta relativizar os erros publicamente. Em uma seleção repleta de jogadores mal-acostumados com os mimos, o protecionismo acabou sendo permissivo à falta de compromisso que se reflete em campo.

Para não falar que a passagem de Gilmar Rinaldi pela coordenação foi totalmente perdida, ao menos nas seleções de base há elogios cabíveis, apesar dos entraves iniciais. A saída de Gallo abriu caminho para o técnico Rogério Micale e o coordenador da base Erasmo Damiani darem seguimento a um bom trabalho, principalmente pensando nas Olimpíadas. Com a demissão de Dunga, inicialmente designado para estar nos Jogos do Rio de Janeiro, a prioridade idealmente deverá ser dada a Micale.

Por enquanto, a prioridade da CBF é o anúncio do substituto de Dunga. O nome de quem vem para a vaga de Gilmar Rinaldi deve ficar para depois. O que se pede, ao menos desta vez, é que a competência valha mais do que as relações nos bastidores. Algo um tanto quanto difícil de se esperar de uma entidade que, apesar das urgências, trabalha quase sempre para preservar as suas velhas e carcomidas estruturas.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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