Brasil

7 de setembro: a chegada de Reinaldo e o início da independência do Atlético-MG

Reinaldo chegou como Zé Caburé ao Atlético-MG em um 7 de setembro e trouxe uma independência que o Galo nem sabia que teria

O dia 7 de setembro é uma marca histórica para o Brasil, que celebra sua independência. Mas a data também é marcante para a história do Atlético-MG que, em 1971, viu chegar o maior nome de sua história, o ainda garoto Zé Caburé, de apenas 14 anos. Com alguns anos, o Zé virou Reinaldo, e terminou coroado como Rei.

No dia da Independência do Brasil de 1971, o time juvenil do Atlético foi realizar um amistosos na cidade de Ponte Nova, na Zona da Mata mineira. A cidade é a natural de José Reinaldo de Lima, na época conhecido como Zé Caburé, um jovem de 14 anos que já encantava entre os adultos do Pontenovense. No entanto, o Zé não jogou contra o Galo, já que, assim como fazia todos os anos, estava acompanhando o desfile da independência em sua bicicleta. Mesmo assim, foi ele o escolhido para se juntar ao time atleticano.

O então técnico do juvenil do Atlético, Barbatana, ex-jogador do clube e campeão do Gelo em 1950, tinha a missão de levar um jovem jogador para Belo Horizonte. Sem pestanejar, o jogador indicado para ele foi o tal Zé Caburé, que ele não viu jogar, mas confiou nas indicações e foi atrás do garoto. O treinador conseguiu autorização dos pais para levar Caburé para Belo Horizonte no mesmo dia.

Primeiro dia e treino com os profissionais

No dia seguinte que chegou a Belo Horizonte, Zé Caburé já estava treinando com o time do Atlético. Para surpresa dele, o primeiro treino foi justamente contra o time principal, que viria a ser campeão Brasileiro meses depois. Mesmo com 14 anos, o Zé entrou na segunda parte da atividade e chamou atenção tanto de Barbatana quanto de Telê Santana, técnico do time principal:

– Entrei no treino, fiz gol, dei caneta, driblei, e aí o Barbatana e o Telê ficaram impressionados: ‘que menino é esse que ninguém conhece, chega no primeiro treino e já faz isso tudo?’ – disse em entrevista ao Esporte Espetacular em 2021.

Reinaldo morou debaixo das arquibancadas do Estádio Antônio Carlos, o primeiro da história do Atlético. Por lá, se destacou e ganhou o apelido de “Ponte Nova”, de Marcelo Oliveira e Toninho Cerezo, outros nomes históricos do Galo que também estavam na base do clube. Com o destaque, o atacante ficou apenas dois anos na base e, aos 16 anos, já integrava o time profissional do alvinegro.

O reinado do Rei do Galo

Em 1973, Reinaldo estreou oficialmente com a camisa do Atlético, no dia 28 de janeiro, contra o Valerio, no Mineirão. Esse foi só o primeiro dos 475 jogos que o Rei fez pelo Galo, que o colocam como o 7° jogador que mais vestiu a camisa atleticana. Uma semana depois, o atacante já fazia também o seu primeiro gol, no dia 4 de fevereiro, contra o Uberaba. Ao todo, Reinaldo balançou as redes 255 vezes pelo Atlético, se tornando o maior artilheiro da história do clube.

No Atlético, Reinaldo não conseguiu conquistar nenhum título que hoje é considerado relevante. No entanto, dá para destacar que ele foi octacampeão do Campeonato Mineiro, em uma época que o estadual ainda era valorizado no país. Independente de títulos, Reinaldo é considerado por muitos o maior nome da história do Galo. Foi ele que ajudou a ditar o que é o Clube Atlético Mineiro, e isso é mais importante do que qualquer troféu ou gol. O Galo só é esse Galo, que o torcedor tanto ama, porque teve o reinado de José Reinaldo de Lima.

Os grandes títulos “tirados” de Reinaldo

No Brasileiro de 71, Reinaldo ainda estava no time juvenil do Atlético, então não entra na conta para ele. Em 1977, provavelmente seu melhor ano pelo clube, só não fez chover no Brasileirão, levando o Galo invicto até a final com seus 28 gols. No entanto, ele foi suspenso na semana da grande decisão daquele ano, por conta de um julgamento de uma expulsão que aconteceu quase um mês antes. Sem o Rei, o Galo acabou sendo vice para o São Paulo.

Nos anos 80, o Atlético de Reinaldo e o Flamengo de Zico eram os grandes times do Brasil. Eles fizeram a final do Brasileirão de 81. O Rei fez o gol da vitória atleticana no primeiro jogo e fez os dois na volta, mas acabou expulso logo após empatar o jogo em 2 a 2, por retardar o início de jogo por um impedimento inexistente marcado contra o Galo, que deixaria o time na cara do gol. O Fla venceu por 3 a 2 e levou a taça.

No ano seguinte, os clubes se encontraram na Libertadores, em um dos jogos mais polêmicos da história do futebol. No mesmo grupo da primeira fase, Atlético e Flamengo tiveram que decidir quem se classificava para a segunda fase em um jogo desempate, em campo neutro. No Serra Dourada, a partida durou apenas 37 minutos, pois o árbitro José Roberto Wright expulsou cinco jogadores do Galo, que ficou sem jogadores suficientes para continuar a partida, perdendo por WO.

Reinaldo estava entre um dos expulsos. Essa partida é alvo de reclamações da torcida atleticana até os dias de hoje, pois apontam favorecimento ao Rubro-Negro. Como projetado na época, quem avançasse desse jogo seria o campeão, por serem times muito superiores aos rivais. Não deu outra e o Fla levou o título daquela edição.

Justiça feita em 2021

Reinaldo passou algumas vezes como funcionário do Atlético após se aposentar. Em 2021, quando o Galo voltou a ser campeão Brasileiro, ele estava no clube e era presença garantida nos jogos em casa. Por isso, é possível falar que ele finalmente conseguiu ser campeão brasileiro pelo alvinegro. Uma cena entre ele e Éder Aleixo, outro ídolo histórico que não tinha um título tão relevante assim, chamou atenção pouco antes do Galo levantar a taça no gramado do Mineirão.

– Nós ajudamos esse clube, e hoje esses jogadores nos dando essa alegria de ser bicampeão – disse Reinaldo a Éder Aleixo na live da TV Galo. Éder então respondeu: “Ô Rei, graças a Deus. Eles roubaram a gente demais, mas agora não teve jeito.”, e foi complementado pelo Rei: “A justiça foi feita!”.

Reinaldo, o mais próximo de Pelé

A ótima carreira de Reinaldo foi interrompida cedo, aos 31 anos. O atacante teve que parar de jogar pelas inúmeras lesões que sofreu no seu tempo como jogador, já que era muito habilidoso e assim perseguido pelos adversários, que davam pancadas nele jogo após jogo. O joelho foi seu principal inimigo – além dos zagueiros que batiam nele.

A curta carreira do Rei do Galo, que nos últimos anos atuando já não conseguia render o mesmo, é uma das grandes lamentações de muitos amantes do futebol que o viram jogar, inclusive de Zico, seu principal rival em campo, mas amigo fora dele. Para o Galinho do Flamengo, Reinaldo poderia ter sido o melhor pós-Pelé.

– Para mim, teria sido o Reinaldo do Atlético, se ele não tivesse tido os problemas no joelho. Foi o maior jogador que eu vi. Eu tinha 17 anos e parei na ponta-direita para ver ele dar um baile no nosso time. A inteligência dele, a maneira que ele jogava, seria o jogador que poderia mais se aproximar do Pelé. Foi o jogador mais inteligente que eu já vi”, disse Zico ao podcast “Hoje Sim”, do ge.

Em praticamente todas as entrevistas que dá e é perguntado sobre Reinaldo, Zico faz questão de exaltar o amigo. A fala aproximando o Rei do Galo do Rei do Futebol é constante, e já foi dita também em outras ocasiões. O próprio Pelé já citou esse fato em uma entrevista ao jornal Estado de Minas.

Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander Heinrick

Alecsander Heinrick se formou em Jornalismo na PUC Minas em 2021. Antes da Trivela, passou por Esporte News Mundo, EstrelaBet e Hoje em Dia.
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