A situação toda é um pouco surreal. Shinji Okazaki escreveu uma mensagem de despedida aos torcedores do Málaga que poderia transparecer ao desavisado que houve uma bonita história de amor entre os dois: “Quero agradecer todo o carinho que vocês tiveram por mim durante minha passagem. Não me arrependo de nada e nunca esquecerei o tempo que passamos juntos. Se um dia tiver a oportunidade de voltar e jogar pelo Málaga, não pensarei duas vezes”.

O fato oculto no comunicado é que o japonês passou apenas um mês no clube da Andaluzia e, com exceção de alguns amistosos, e apesar de terem sido disputados três jogos oficiais, não entrou em campo em nenhum deles. Nesta quarta-feira, foi anunciado pelo Huesca, também da segunda divisão, depois de ter tido seu contrato rescindido com o Málaga que não conseguiu encaixá-lo em seu teto salarial.

O caso de Simón Moreno é ainda pior. O atacante de 22 anos do time reserva do Villarreal foi emprestado ao Almería, no final de junho. No entanto, o saudita Turki Al-Sheikh comprou o clube e, aproveitando que o prazo de devolução ainda estava válido, decidiu que não o queria mais. Foi quando apareceu o interesse do Málaga. Moreno treinou na Andaluzia antes de também ser rejeitado por um dono endinheirado. Posou com as duas camisas e não defendeu nenhuma delas antes de retornar ao Villarreal.

O que aconteceu foi que o Málaga acabou contratando jogadores demais para o seu orçamento salarial e, no apagar das luzes da janela de transferências, na última segunda-feira, precisou se livrar de alguns para se adequar às normas da segunda divisão espanhola, apenas a última das patacoadas recentes sob o comando do xeique Abdullah al-Thani, dono do clube desde 2010, ao fim de uma janela de transferências em que houve uma série de desentendimentos entre ele e a diretoria de futebol, liderada por José Luis Caminero.

A própria chegada de Okazaki foi conturbada. Após ser anunciado, precisou esperar um bom tempo pela oficialização do negócio e recebeu um pedido de desculpas público de Caminero durante sua apresentação. No meio do mês, Al-Thani confirmou que precisava levantar € 8 milhões para equilibrar o caixa, o que até chegou a acontecer com as vendas de Javi Ontiveros ao Villarreal (€ 7,5 milhões) e Michael Santos, ao Copenhague (€ 2,2 milhões), mas achou que conseguiria € 20 milhões, o que não chegou nem perto de se concretizar.

Naquela mesma entrevista, ao jornal Marca, Al Thani acusou o ponta Jony Rodríguez de rescindir seu contrato unilateralmente para acertar com a Lazio, que teria pagado apenas € 2 milhões pelo jogador, em vez dos € 12 milhões que exigiam sua cláusula. Disse que entraria com ação legal para cobrar o valor cheio. “Não nos respeitaram”, disse. “Há clubes que querem se aproveitar da situação em que estamos e apresentam propostas de merda por nossos jogadores”.

Abdullah bin Nasser bin Abdullah Al Ahmed Al Thani – pois é, tudo isso – foi quem começou a deterioração que levou o Málaga a esta situação. Chegou ao clube vendendo sonhos e grandes ambições, gastou vultuosas quantias de euros em reforços como Ruud van Nistelrooy e Santi Cazorla, e conseguiu, sob o comando de Manuel Pellegrini, chegar em quarto lugar. Mas os boletos apareceram em pouco tempo e alguns jogadores importantes tiveram que ir embora. Em meio a tudo isso, o time alcançou as quartas de final da Champions League e quase eliminou o Borussia Dortmund, mas aquela temporada terminou com exclusão da Liga Europa por violação do Fair Play Financeiro.

A decadência do clube foi se aprofundando pouco a pouco até o rebaixamento à segunda divisão, em abril do ano passado. A primeira tentativa de acesso esbarrou no Deportivo La Coruña, nas semifinais dos playoffs da última temporada, e, nesse meio tempo, apenas cresceu a contestação dos torcedores à administração de Al-Thani, que não coloca mais dinheiro no clube, bate cabeça com seus diretores, paga salário aos filhos e há um bom tempo nem aparece na cidade. Para piorar, mesmo que o xeique quisesse vender o clube, há uma briga jurídica que complica a situação. A empresa hoteleira Blue Bay, trazida como parceira em 2013 para estabilizar a situação financeira, reivindica 49% das ações do clube e já recebeu decisões favoráveis na Justiça.

E Al-Thani nem quer vender o Málaga. “Quero deixar claro às pessoas que o Málaga é minha família, meu sangue, que não estou aqui para ganhar dinheiro, que não venderei o clube ao melhor preço. O Málaga não é um jogo para mim. Por isso, embora tenha outras empresas, estou trabalhando 24 horas por dia e meu telefone está sempre disponível. Não paro, não durmo para salvar essa situação”, afirmou, ao Marca. Mas também não coloca mais dinheiro no clube e se defende, primeiro, dizendo que as regras da segunda divisão o impedem de oferecer aportes financeiros. E, em seguida, que já perdeu entre € 150 milhões e € 200 milhões graças a “má gestão que firmou contratos exagerados”.

“O orçamento tem que ser equilibrado, ainda mais na Segunda. La Liga não permite injeção de dinheiro livremente. Tem que ser cumprido um fair play financeiro, de faturamento-gastos-salários. Isso as pessoas não sabem e quero esclarecer. Não posso colocar dinheiro porque eu o perco, além de ser um método ilegal. Então, até quando querem que eu perca dinheiro? Agora, só é investido o que é produzido”, explicou.

A paciência do torcedor do Málaga, porém, está cada vez menor, diante da bagunça e das vergonhas pelas quais é obrigado a passar. Okazaki chegou cheio de pompas e circunstâncias, anunciado como um “campeão da Premier League (pelo Leicester)” e, nas palavras de Caminero, um “puro luxo para o Málaga”. Camisas foram colocadas à venda e se estima que 300 foram vendidas, a € 70 cada. O clube, agora, analisa reembolsar os torcedores que as compraram, ou permitir que elas sejam trocadas, porque elas não serão mais necessárias. Okazaki jogará a segunda divisão. Mas pelo Huesca, não pelo Málaga.
 

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