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Isto é o que sobrou de um templo sagrado do futebol: o Estádio Nacional de Tóquio

Já se sabia que o Estádio Nacional de Tóquio, em sua forma original, desapareceria em breve. O local que recebeu os principais eventos das Olimpíadas de 1964 seria sacrificado para um novo ciclo olímpico, dando espaço ao moderno estádio que sediará os Jogos de 2020. De qualquer forma, olhar os restos mortais de um templo do futebol traz aquela sensação de vazio. O velho precisa dar espaço ao novo, vida que segue. A presença material se vai, mas ficam as várias lembranças e as imagens antigas. Guardadas com bastante carinho também por milhões de torcedores brasileiros, mesmo que o final não tenha sido dos mais felizes.

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Em 1964, o Estádio Nacional consagrou a Hungria de Ferenc Bene com a medalha de ouro olímpica e também passou a receber a final da Copa do Imperador. No entanto, o estádio só entrou mesmo no imaginário do futebol a partir de 1980. O antigo formato do Mundial Interclubes, disputado em jogos de ida e volta, desapareceu. O campo neutro japonês se tornou o solo sagrado para sul-americanos e europeus, diante da chance de se proclamarem “campeões do mundo”. Valeu também para renovar a importância da competição, em baixa nos anos 1970 com as desistências seguidas de donos da Champions.

O Nacional foi o primeiro a desbravar o Japão. Os uruguaios ficaram com a taça após a vitória simples sobre o Nottingham Forest, gol de Waldemar Victorino. Já no ano seguinte, o Flamengo materializou sua maior glória. O Liverpool chegou a Tóquio menosprezando os rubro-negros. Não conheciam quem era Zico. Conheceram. O camisa 10 não fez gols, mas teve uma das melhores atuações da carreira. Participou dos três gols da equipe, dois de Nunes e outro de Adílio. Permitiu aos flamenguistas repetirem os santistas, únicos que até então podiam se dizer os melhores do planeta através do torneio.

Na sequência, o Peñarol igualou o feito do Nacional, derrotando o Aston Villa. E o Grêmio também chegou ao topo graças a um garoto. O Hamburgo tinha um time fortíssimo, mas não um talento do nível de Renato. O atacante de 21 anos marcou os dois gols tricolores, decidiu o jogo já na prorrogação. Tão jovem, mas pronto para se tornar um dos maiores ídolos da história gremista.  O Renato Gaúcho, de espírito carioca, se fez craque realmente no Japão.

A partir de então, um vácuo entre brasileiros no Mundial. Ocupado por grandes times de Independiente, Juventus, River Plate, Porto, Estrela Vermelha.  O Nacional conquistou o bi em 1988, superando o PSV do recém-chegado Romário. Assim como o Milan celebrou em dois anos seguidos, graças ao talento de Van Basten, Gullit, Baresi, Maldini e companhia. Então, veio o primeiro bicampeonato brasileiro no Japão, do São Paulo de Telê Santana.

O primeiro passo aconteceu em 1992, contra o Barcelona treinado por Johan Cruyff. O golaço de Raí cobrando falta segue grudado na retina dos tricolores. Para, no ano seguinte, os são-paulinos derrubarem o Milan, já não tão estrelado quanto no início da década. Nada que minimize a importância do feito do São Paulo, a atuação de Toninho Cerezo ou a emoção pelo gol de Müller, meio sem querer, já aos 43 minutos do segundo tempo.

O São Paulo foi o último clube brasileiro a triunfar no Estádio Nacional de Tóquio. Ainda que vários outros tenham recebido a chance de brilhar naquele gramado. O Grêmio caiu para o Ajax nos pênaltis. O Cruzeiro não conseguiu superar o Borussia Dortmund nem com os reforços trazidos de última hora. O Vasco peitou o Real Madrid de igual para igual, até Raúl chamar toda a defesa cruz-maltina para dançar. E o Palmeiras também não teve sorte contra o Manchester United, mesmo sendo superior durante boa parte do jogo.

Nas últimas edições do Mundial Interclubes, o Estádio Nacional de Tóquio ratificou o poder do Boca Juniors e do Bayern de Munique. Até ser colocado em plano secundário a partir de 2002, com a inauguração do Estádio de Yokohama, onde se disputou a final da Copa do Mundo, as três últimas edições do Mundial Interclubes e as decisões do Mundial de Clubes da Fifa. Mas não sem importância para os brasileiros. O São Paulo venceu o Al Ittihad na semifinal no mesmo campo do bicampeonato e encaminhou o tri. Já o Internacional bateu o Al Ahly, antes de surpreender o Barcelona em Yokohama. O estádio da capital seguiu usado nas semifinais até 2008, descartado três anos depois, quando o torneio voltou ao Japão.

A última grande decisão de futebol no antigo Estádio Nacional de Tóquio aconteceu em 2013, quando o Yokohama Marinos venceu a Copa do Imperador. A partir de 2014, a construção começou a ser demolida, chegando nesta semana ao ponto da foto que abre o texto. Em algumas semanas, não sobrará mais nada. Além, é claro, das memórias de quem viu grandes histórias serem escritas naquele mesmo terreno.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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