Essa propaganda política de Fabrizio Romano em suas redes sociais é um problema sério
Jornalista divulga mensagem em que exalta governo saudita, horas antes de publicar notícia exclusiva sobre Cristiano Ronaldo, do Al-Nassr
Em uma terça-feira normal, você abre seu perfil no X (antigo Twitter), pelo aplicativo móvel ou site, e começa a descer a página inicial. Enquanto procura pelas principais notícias do clube do coração ou do jogador favorito, seu jornalista esportivo “de confiança” surge com um vídeo publicitário exaltando os feitos de um governo ditatorial.
Isso não é ficção. De fato, Fabrizio Romano, reconhecido mundialmente como um dos principais jornalistas esportivos, publicou um vídeo nesta semana, com auxílio financeiro da Arábia Saudita, no qual descreve o assistencialismo de King Salman Humanitarian Aid & Relief Centre (KSRelief) — centro internacional de ajuda humanitária e alívio fundado pela Arábia Saudita em 2015.
O fenômeno Fabrizio Romano em que jornalismo se confunde com criação de conteúdo
Fabrizio Romano é um fenômeno. Ele construiu sua carreira nas redes sociais por meio da divulgação de notícias rápidas de transferências de jogadores.
Hoje, ele conta com mais de 27 milhões de seguidores no X, 43 milhões no Instagram e outros 50 milhões somando TikTok e Facebook. São milhões de visualizações em suas publicações diariamente, dos mais variados lugares do mundo, ao alcance de um clique.

Fabrizio Romano é jornalista. A publicação sobre o centro internacional de ajuda humanitária da Arábia Saudita, apoiado por Salman bin Abdulaziz Al Saud, rei e ditador da Arábia Saudita. No vídeo, Fabrizio se utiliza da mesma linguagem que fez com que ganhasse fama na internet.
Números jogados ao vento, do apoio da Arábia Saudita em conflitos, assistência médica, entre tantos outros temas que mascaram a ditadura e opressão no país.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Publicação foi paga pelo governo da Arábia Saudita
Fabrizio não tentou esconder que está, de fato, sendo pago para promover um órgão público, do Oriente Médio. Curiosamente, duas horas depois de publicar a “notícia do século”, divulgou outra informação muito menos relevante do que o KSRelief: Cristiano Ronaldo, contratado pelo Al-Nassr, financiado pelo governo saudita, não deixou o país com sua família em meio aos conflitos entre Irã, Estados Unidos e Israel na Península Arábica.
Ele não tem de divulgar os meios e as fontes pelos quais adquire as informações em suas publicações. Pelo contrário, deve protegê-las, segundo os princípios éticos da profissão. Mas é estranho que, logo após a promoção da Arábia Saudita, surja outra informação relacionada ao país e a seu principal astro — ressaltando que ele não deixou o Oriente Médio e tudo segue a “mil maravilhas” na sede da Copa do Mundo de 2034.

Um dia se passou. Na página inicial de seu perfil, constam outras publicações sobre a lesão de Rodrygo e de Robert Lewandowski, aspas de Diego Simeone e Raphinha após confronto entre Barcelona e Atlético de Madrid pela Copa do Rei, e a publicação da Arábia Saudita, mesmo com quase 11 milhões de visualizações, cai no esquecimento.
E por que a Arábia Saudita escolhe Fabrizio Romano, que cobriu, até hoje, notícias relacionadas a Real Madrid e Barcelona, para uma “agenda positiva”?
Como a própria nota, incluída em sua publicação, sugere, o país utiliza desses meios para que a reputação negativa em relação a direitos humanos, opressão das mulheres e movimentos ultraconservadores sejam relevados.
Arábia Saudita sob alerta de movimentos de direitos humanos
Em 2025, o relatório da Human Rights Watch — e que poderia servir de base para Fabrizio Romano ou qualquer outro jornalista que deseje ampliar as denúncias sobre a Arábia Saudita — destacou que o país registrou um aumento “sem precedentes” no número de execuções, com pelo menos 300 até outubro.
“Grupos de direitos humanos alertaram que o governo saudita está usando a pena de morte como uma ferramenta para reprimir a dissidência pacífica”, afirmou o órgão não governamental.

Ao divulgar uma propaganda em meio a outras dezenas de publicações relacionadas ao futebol, Fabrizio Romano não só confunde sua audiência, mas também fere com princípios éticos do jornalismo — em um momento no qual o Oriente Médio se vê em mais uma crise de proporções globais.
Deixa de lado a verdade factual e a imparcialidade, ao mostrar e ouvir apenas o lado desejado pelo rei Salman. Fere a ética e deixa de ser independente ao se “vender” para os interesses de outra nação ditatorial.
Fabrizio Romano não irá abandonar a cobertura do futebol europeu. Também não deixará de noticiar os movimentos de Cristiano Ronaldo no Oriente Médio. Mas a propaganda abre um precedente perigoso de jornalistas trocarem informações por benefício próprio, financeiro e até político.
Ainda mais relacionado a uma nação que, em oito anos, será palco do principal esporte do mundo e que falha em corrigir seus problemas internos.



