Ásia/Oceania

Como brasileiro que fez base na Internazionale sonha alto nos Emirados Árabes Unidos

Daniel Bessa relembra, à Trivela, momentos que passou pelo futebol europeu e brasileiro até ida para o Oriente Médio, além de suas percepções sobre a liga do país

O Oriente Médio vive uma rápida expansão em seu futebol. Além da Arábia Saudita, que passou a investir milhões em sua liga nacional, e conseguiu atrair competições da Fifa — como a Copa do Mundo de 2034 —, outros países vizinhos tentam repetir os mesmos feitos. É o caso do Catar, que caminha para disputar seu segundo Mundial neste ano, e dos Emirados Árabes Unidos.

No Golfo Pérsico, os pouco mais de 83 mil km² dos Emirados Árabes tentam expandir seu futebol local, depois de investimentos massivos no Manchester City desde o final da década de 2000. No último ano, a seleção nacional ficou próxima de voltar a disputar uma Copa do Mundo, mas acabou eliminada justamente para o rival Catar.

Entre os bilhões investidos anualmente no esporte, clubes e atletas dos EAU tentam prosperar. Alguns times são conhecidos do grande público, como o Al Ain (treinado por Hernán Crespo nos últimos anos) e Al-Jazira, que já contou com Romarinho em seu elenco. Outros, no entanto, tentar se colocar em destaque no cenário continental e, consequentemente, mundial.

Daniel Bessa, 33 anos, é um dos jogadores que foi atraído pelo projeto oferecido pelos Emirados Árabes Unidos. Ele se alçou para a Europa ainda jovem, antes da maioridade, depois de se destacar nas categorias de base do Athletico-PR. Pela família, e pelo seu desejo pessoal de construir uma carreira no exterior, foi seduzido pela proposta da Internazionale.

Muito antes de aceitar quaisquer propostas dos Emirados, aos 15 anos, Bessa tinha em suas mãos um projeto para o futuro: um contrato profissional com a Inter, uma cidadania italiana, e pode realizar o objetivo de estudar e jogar na Itália.

— A alternativa seria me profissionalizar no Brasil, em Curitiba, ou, enfim, tentar São Paulo ou Rio. Naquele momento, isso era complicado para mim. Eu já tinha a noção de que queria viver do futebol e que as oportunidades estavam aparecendo. Então, quando fui (para a Inter), não tive arrependimento nenhum — conta o meio-campista, à Trivela.

Sereno, Bessa repassou sua carreira à reportagem durante pouco mais de 40 minutos. Com 33 anos recém-completados, se divide entre o Al-Bataeh — um dos caçulas dos Emirados Árabes, fundado em 2012 — e a vida pessoal, ao lado da mulher, Raphaela Ozório, e seus três filhos.

A “mina de dinheiro”, que já foi capaz de atrair diversos brasileiros para o mundo árabe, não foi o único atrativo para Bessa, que ao tomar a decisão, em 2022, já vinha de boas temporadas pelo futebol italiano. Sua família, ambientada ao Oriente Médio e à vida em Sharjah, foi crucial para que optasse por permanecer na Ásia. E onde almeja alcançar seus sonhos no futuro.

Início de Bessa na Inter de Milão

Bessa era tratado como uma joia a ser lapidada pela Inter em seus primeiros anos. Ainda nas categorias de base, se destacou em conquistas juvenis da equipe — entre elas, Champions League da categoria. Esse período, apoiado pela mãe e irmão, foi o início de uma “história de amor” com o clube — mesmo que não tenha chegado a disputar uma partida profissional por tal.

Depois de subir posições nas categorias de base da Inter, problemas no joelho — incluindo uma ruptura no ligamento cruzado, em 2012 —, abreviaram sua passagem por Milão. “Infelicidade do percurso”, como o próprio meio-campista destaca. Naquele momento da carreira, ele já havia escolhido defender a seleção de base da Itália, “incentivado” pelo trabalho junto ao clube.

Daniel Bessa rodou pelo futebol italiano após deixar a Inter de Milão (Foto: Imago)

Longe da Inter, mas perto da Itália. Ao longo dos anos, Bessa rodou pelo país, em diversos clubes de destaque da primeira e segunda divisão.

— Essa circunstância, por já ter feito toda a base na Itália, ter ido bem, ter tido reconhecimento e um contrato com um clube italiano, fez com que eu começasse minha carreira profissional lá também — conta o ítalo-brasileiro.

Bessa rodou a Itália e a Europa por empréstimo (passou por clubes como Sparta Rotterdam, da Holanda, e Olhanense, de Portugal), até ser adquirido pelo Verona, de forma definitiva, em 2017. “O maior sonho da minha carreira seria jogar temporadas pela Inter, mas eu só tenho a agradecer”, afirma o meia.

— Quando voltei a enfrentar a Inter jogando por Genoa, Verona ou Bologna, era sempre assim: desde os roupeiros até o pessoal do clube me tratavam super bem. Às vezes apareciam ex-jogadores, gente que tinha passado pela Inter, e sempre rolava esse reconhecimento. Para mim, isso sempre foi muito legal — detalha.

— Compro roupas da Inter para o Pedro, futuramente para o José também. A Maria não gosta tanto, mas compro mesmo assim. E vou continuar comprando, porque eu gosto, sou torcedor e quero levar eles um dia para o San Siro.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Por que os Emirados Árabes?

Bessa deixou a Itália em 2022, em direção a Kalba. Sua chegada coincidiu com o momento de maior investimento do futebol no Oriente Médio, com Arábia Saudita e Catar, e em meio ao fortalecimento da própria liga dos Emirados Árabes Unidos.

O meio-campista é sincero em relação a seus principais objetivos: passar mais tempo ao lado de sua família e ter maior longevidade em sua carreira. Com menos em disputa nos Emirados Árabes Unidos — chegou à centésima partida, após quatro temporadas no país —, acredita que possa continuar atuando, em alto nível, além dos 37 anos.

— Quero passar uma marca interessante de jogos e poder jogar tempo suficiente para que meu filho mais novo (Pedro) comece a me assistir jogando. São sonhos que eu ainda gostaria de realizar — explica Bessa, que tem como objetivo também superar a marca de 500 jogos disputados, em toda a carreira.

Por ser um país pequeno, formado por sete “emirados”, as viagens e o deslocamento entre os estádios também são inferiores àquele experienciado na Europa. Para jogar na liga dos Emirados Árabes Unidos, clubes utilizam, majoritariamente, o ônibus como meio de transporte.

— Às vezes o jogador está um pouco saturado, e acaba escolhendo ligas e países menores também por isso, não só pela questão de o nível do jogo ser inferior. Tem a questão da distância, do desgaste. Isso acaba por prolongar a carreira — pontua Bessa.

Bessa enxerga uma evolução na liga dos Emirados Árabes Unidos também. Igor Jesus, que hoje brilha no Nottingham Forest, da Inglaterra, foi “encontrado” pelo Botafogo e repatriado pelo clube alvinegro na temporada em que conquistou a Libertadores e Campeonato Brasileiro.

— Eles (EAU) têm essa vontade de ter a própria competição deles fortalecida. Antes, traziam jogadores mais como uma propaganda. Isso ainda é feito, mas também contratam jogadores jovens, que fiquem até 15 anos no país. Contratam treinadores também, muitas vezes indo para o Brasil e voltando para cá — destaca o meio-campista.

‘Perrengues’ nos Emirados Árabes Unidos

No Kalba, e agora no Al-Bataeh, Bessa foi uma das referências em ambas as equipes. Dentro de campo, além das mais de 100 partidas disputadas, foi artilheiro da Copa dos Emirados Árabes, na temporada 2023/24 — feito este que classifica um dos mais importantes, juntamente com gols marcados sobre a Juventus e títulos conquistados na Itália.

Mesmo que tenha escolhido permanecer no Oriente Médio, pela adaptação de seus filhos, passou por alguns perrengues. Em especial, relacionados às diferenças de costumes nos EAU, em comparação a Brasil e Europa.

Bessa defende o Al-Bataeh, dos Emirados Árabes, desde 2025 (Foto: Divulgação/Al-Bataeh)

Nos clubes, Bessa destacou as relações entre funcionários, dirigentes e jogadores no jantar. “Todos ficam no mesmo nível, sem diferenças de cargos”, afirma. Também detalhou questões relacionadas a seus filhos, gêmeos, na ida à escola nos Emirados Árabes.

— Minha esposa, nos primeiros dois ou três meses, não estava no grupo das mães na escola. Por isso, aconteceram algumas situações, por exemplo: a gente chegava na escola e, naquele dia, as crianças tinham de ir de uniforme árabe, com a roupa tradicional. Só que ninguém tinha avisado, e só os nossos filhos apareciam sem a roupa.

Retorno ao Brasil entre os objetivos da carreira

Aos 33 anos, Bessa ainda sonha com o Brasil. E não esconde esse desejo. Ele não se arrepende de ter deixado o país ainda jovem, para defender a Internazionale nas categorias de base, mas, com o passar dos anos, decidiu que gostaria de jogar e ser campeão no Brasil.

Antes da pandemia da covid-19, o meio-campista acertou seu retorno ao Goiás, em 2020. O contexto do futebol profissional no país, no entanto, prejudicou sua curta passagem. Até acertar com o Kalba e Al-Bataeh, também recebeu sondagens de clubes do futebol brasileiro.

O Cruzeiro, quando ainda estava na Série B do Campeonato Brasileiro, esteve próximo de acertar a repatriação do meia. As conversas, entretanto, não avançaram. Muito antes disso, em 2016, também manteve contatos com o Grêmio.

— A última vez que eu estive mais perto, de verdade, foi com o Cruzeiro. Quase deu certo. E agora, mais recentemente, às vezes surgem conversas com um clube ou outro, geralmente por meio de amigos que têm contato e querem saber como estão as coisas por aqui — conta Bessa.

Enquanto progride no Al-Bataeh, e vive a nova vida ao lado dos filhos e da mulher, mantém vivo os sonhos de retornar a Curitiba e ser campeão.

Foto de Murillo César Alves

Murillo César AlvesRedator

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por Estadão, UOL, 90min e QuintoQuarto.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo