– Ouça, vou descrever um ataque brasileiro: a música é lenta e suave. Danilo está com a pelota. Ligeira variação. Passa a Bigode e a melodia vai num crescendo violento. A técnica de Danilo lembra Chopin, manso, doce, inspirado. Bigode é a selvagem poesia musical de Villa-Lobos. Jair é Wagner, poderoso e dramático. Quando a bola está com Zizinho, é Mozart tecendo filigranas, mas se entrega a Ademir…

– Beethoven?

– Não. Nem Liszt, Strauss, Tchaikovsky ou Verdi. O futebol de Ademir é a música da terra, de ritmo marcante e beleza inconfundível. Que faz Ademir a caminho do arco senão passes do mais puro samba, da mais brasileira das capoeiras? E se dribla, é maxixe autêntico, é jongo, é o frevo de sua terra pernambucana. Um estrangeiro disse que o selecionado do Brasil é uma orquestra afinada. Acrescente-se que, sob a batuta de Ademir, é uma orquestra tocando em ritmo de samba.

Tal análise, descrita na revista O Cruzeiro, não havia sido feita por nenhum leigo. Ela saiu da mente de Ary Barroso, o craque da composição que também era narrador esportivo e apaixonado por futebol. Já durante o quadrangular decisivo da Copa do Mundo de 1950, o radialista comparou a linha ofensiva do Brasil com os grandes compositores. A Seleção aplicou sua maior goleada na história dos Mundiais logo na estreia da segunda fase, contra a Suécia. Mas, ainda que os 7 a 1 sobre os escandinavos sejam mais elásticos, foram os 6 a 1 sobre a Espanha na segunda rodada que realmente marcam o apogeu do time de Flávio Costa no Maracanã. Era o resultado que parecia tornar os brasileiros campeões por antecipação, três dias antes do Maracanazo.

O Brasil favorito à Jules Rimet tinha dado as caras contra a Suécia, recebendo elogios rasgados da imprensa – não só do país, mas também a estrangeira. Para o encontro com a Espanha, Flávio Costa repetiria praticamente a mesma escalação, apenas trocando o lesionado Maneca na ponta direita por Friaça. Formava-se, então, a equipe que também ficaria famosa pela derrota contra o Uruguai: Barbosa, Augusto, Juvenal; Bauer, Danilo, Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Uma força inegável, especialmente pela maneira como jogara no compromisso anterior.

A Espanha era considerada por alguns como a maior ameaça ao Brasil no quadrangular final. A Fúria vinha referendada por sua ótima campanha na primeira fase, quando sobrou no grupo que também tinha Inglaterra, Chile e Estados Unidos. Os ibéricos somaram três vitórias nos três compromissos, jogando a pá de cal sobre os Three Lions na última rodada. Até empataram com o Uruguai no Pacaembu durante a primeira rodada da fase decisiva, cedendo o 2 a 2 no final, mas ainda era um time para incomodar. A maioria dos jogadores se provaria como lenda com o passar dos anos: Antoni Ramallets e Estanislau Basora estão entre os grandes ídolos do Barcelona, enquanto Agustín Gaínza e José Luis Panizo marcaram a história do Athletic Bilbao. A grande estrela era Telmo Zarra, sempre empilhando gols em San Mamés. E o banco ainda dispunha de referências como o merengue Luis Molowny e o blaugrana César Rodríguez.

Quando a bola rolou no Maracanã, porém, os 152 mil pagantes não viram a força do excelente quinteto ofensivo da Espanha. O Brasil pulverizou os adversários desde o primeiro tempo, sem dar margens à derrota. E a vitória começou ainda na entrada em campo. Assim descrevia o Correio da Manhã: “Com a pontualidade a que já estamos nos acostumando, os brasileiros fizeram a sua entrada em campo às 14h40, sendo recebidos de forma indescritível. Ao longo de todo o estádio os foguetes espoucaram, saudando os jogadores nacionais. Dois minutos passados, palmas assinalam a presença dos espanhóis. Tem início então as solenidades. A colônia ibérica homenageia a CBD, executando-se a seguir os hinos da Espanha e do Brasil. Um espetáculo soberbo aquele em que milhares de vozes entoam o ‘Ouviram do Ipiranga…'”.

Diante de tal atmosfera, o Brasil começou melhor e abriu o placar aos 15 minutos. Ademir chutou forte, a bola desviou nas pernas de José Parra e enganou Ramallets. O domínio aumentou e Jair ampliou aos 21. A jogada nasceu a partir de um lançamento de Friaça a Ademir. O centroavante driblou o marcador e passou a Jair, que soltou a bomba de fora da área. A bola ainda bateu na mão de Ramallets e no travessão antes de entrar. O show seguia e Chico deixou o seu aos 30 minutos, aproveitando uma sobra de bola no meio da área. Já parecia impossível a virada da Espanha.

O segundo tempo viu um Brasil ainda insaciável. Um ataque rápido armado por Jair e Ademir rendeu o quarto gol, de Chico, aos dez minutos. Artilheiro da Copa, Ademir faria mais um dois minutos depois – seu oitavo na competição e o sexto no quadrangular final. Foi uma linda jogada de Zizinho, que passou por um adversário e, quando todos esperavam seu chute, o craque recuou para o Queixada fuzilar.

A Seleção diminuiu o ritmo depois disso. Mesmo assim, aos 22, a maior pintura da tarde seria assinada por Zizinho. Ademir fez o papel de garçom e cruzou para o companheiro. Mestre Ziza deu um leve toque para tirar o zagueiro e soltou o balaço rumo às redes – antecipando o que faria Pelé na decisão de 1958. O gol de honra da Espanha, aos 26, também seria bonito. Basora cruzou e Silvestre Igoa acertou um voleio para vencer Barbosa. Nada que diminuísse o atropelamento, todavia. Os 20 minutos finais guardaram uma exibição do Brasil, com seus principais craques aproveitando para mostrar seu repertório de dribles e arrancar os aplausos do público.

Depois do quarto gol, panos brancos tremulavam nas arquibancadas do Maracanã. E aquele jogo seria especialmente marcante pelo envolvimento da torcida, que entoou em bom som ‘Touradas em Madri’, marchinha composta em 1937 por Braguinha – o responsável por sucessos como ‘Carinhoso’, ‘Chiquita Bacana’, ‘Balancê’ e outros tantos. A gravação na voz de Carmen Miranda tornava a canção ainda mais famosa. O “pararatimbumbumbum” repetido na letra ritmava a euforia e também o baile dentro de campo.

“Todo o estádio cantou na tarde de ontem. Pela primeira vez nesta Copa do Mundo, a torcida cantou. […] Foi a canção da vitória, da alegria, do desabafo. Sim. Porque a torcida estava um pouco abafada quando começou o jogo. Tinham dito tanta coisa da Fúria… A multidão de torcedores confiava 100% na seleção brasileira. Mas tinha um pouquinho de receio de que qualquer coisa não desse certo. Por isso, diante daqueles consagradores 6 a 1 no placar, a torcida não se conteve mais e desabafou. Cantou Touradas em Madri. Cantou, como se estivesse abrindo as válvulas. Para não desmaiar ou morrer de tanta alegria”, descreveu o Jornal dos Sports, no dia seguinte. “A multidão só teve, no fim, uma forma de expressão. De repente, sem aviso, sem que ninguém começasse primeiro, cantou as Touradas em Madri”.

O próprio técnico Flávio Costa admitiu a influência da música na maneira como seus jogadores se portaram dentro de campo. “Os jogadores parece que jogavam ao som dessa música. Foi o espetáculo mais lindo que poderia haver”, declarou o comandante, anos depois. Era a primeira canção a se tornar célebre no Maracanã. Já o treinador espanhol, Guillermo Eizaguirre, perguntava curioso aos jornalistas que música era aquela.

Braguinha, por sua vez, não esconderia a emoção. Justamente naquele jogo, o compositor estava sentado na cadeira cativa que comprou no Maracanã.  “Quando o povo se levantou no estádio em festa, a única coisa que eu consegui fazer foi deixar que as lágrimas corressem. Nunca esperei que Touradas em Madri, a marchinha que fiz com meu saudoso amigo Alberto Ribeiro, pudesse ser cantada por 200 mil pessoas de uma vez. Por isso eu não cantei: apenas chorei. Lágrimas doces, suaves”, contaria o músico, em 1977, à revista Placar. Houve mesmo um gaiato que chegou a hostilizá-lo: “E aquele gringo ali, por que ele não canta também?”.

Nos dias seguintes, os jornais exaltaram bastante a goleada do Brasil. O Correio da Manhã escreveu: “O futebol brasileiro deu, na tarde de ontem, sua maior demonstração de pujança, ao dominar inteiramente os espanhóis, escolhendo o resultado da partida: 6 a 1. Novo recorde de renda estabeleceu o público entusiasta que tornou pequeno o gigante Maracanã […] Comentar a atuação dos brasileiros na partida de ontem é realmente uma tarefa monótona, tal a sucessão de elogios aos 11 componentes de nossa equipe, uma vez a primorosa exibição com que brindaram o público. Dificilmente na história do futebol se registrou tão perfeita atuação, ainda mais valorizada pela categoria e credencial do adversário”.

Apesar da animação, Flávio Costa pregava respeito ao Uruguai, em entrevista ao jornal A Noite: “Vamos marchando para o título. Agora temos pela frente o conjunto dos bons amigos do sul do continente que, assim, chegam à final do Mundial com os brasileiros. Aqui respeitamos qualquer adversário. Se os resultados têm sido favoráveis, até certo modo amplos, é justamente porque nos atiramos à luta com empenho e convencidos de que, antes dos adversários fazerem os gols, devemos nós vazar-lhes a meta. Assim, não pense que estamos convencidos de nosso valor, a ponto de descuidarmos dos adversários. Não, a luta é igual e difícil. Se nos sai mais fácil, tanto melhor, mas ao pisar o gramado o quadro brasileiro tem mantido invariável respeito pelo contendor. Assim, desde hoje, estamos preparando física e espiritualmente para a nova jornada, a final e decisiva. Que não nos falte o amparo entusiasta da torcida”.

Já do lado espanhol, o artilheiro Zarra se curvava ao talento dos adversários e acreditava no título do Brasil. “Insuperáveis os brasileiros, quero crer, desde que produzam normalmente o que desenvolveram contra nós. Ademir, Zizinho e Bauer são figuras que justificam os tentos colhidos pelos nossos antagonistas. Uma vitória merecida, inegavelmente”, diria a lenda do Athletic Bilbao, em entrevista ao Correio da Manhã.

O jornalista Mário Filho classificava aquela como a maior vitória da história do futebol brasileiro, em sua coluna no Jornal dos Sports: “O baile dos brasileiros, aliás, foi diferente dos bailes que habitualmente os brasileiros dão. Foi uma maneira de evitar o corpo a corpo, o contato, a possibilidade de uma contusão. Os jogadores brasileiros depois do sexto gol pensaram no Uruguai. No último match do campeonato do mundo. E o baile era outra maneira de exibir virtudes técnicas. Chegara o momento da exibição pura. Quando se aproximavam Bauer e Zizinho, os passes de primeira se tornavam um espetáculo. Na esquerda, Jair oferecia outro show. Ademir pertencia a outra espécie. Queria o gol, o ‘mais um’ que a torcida pedia depois dos seis a um”.

“O escore não foi sete como contra a Suécia. Mas bastava contra um adversário como a Espanha. Já era monstruosamente grande contra um adversário como a Espanha. Somente a grande efetividade do football brasileiro era capaz de uma façanha assim. Eu não me lembro de outra vitória mais completa do football brasileiro. Não me venham com o football do passado, remoto ou próximo. Não me venham com dezenove ou com quarenta cinco. Este é o momento supremo do football brasileiro. Nunca se jogou no Brasil um football parecido. O que não deve surpreender ninguém, já que os críticos estrangeiros são unânimes em afirmar que nunca viram um football parecido. Mas essa vitória, que justificou o carnaval em julho que a cidade viveu, não encerra a campanha do scratch brasileiro. Eis o que todos devem ter em mente”, completava.

Mário Filho dizia até mesmo que o Brasil tinha uma dívida e que precisava repetir o nível de atuação contra o Uruguai: “A grande vitória do Brasil sobre a Espanha deu maior valor à grande vitória do Brasil sobre a Suécia. A grande vitória que poucos compreenderam. A grande vitória cuja significação poucos perceberam. A arrancada, porém, tem de continuar. Só pode terminar quando terminar o match contra o Uruguai. O scratch brasileiro assumiu uma dívida com a torcida e consigo mesmo. Assumiu uma dívida com o Brasil. Para pagá-la, basta jogar como jogou contra a Suécia e a Espanha. Basta lutar como lutou contra a Suécia e contra a Espanha. E então o scratch brasileiro será credor da gratidão do Brasil. Foi antecipando esta gratidão, antevendo este momento, que o Brasil construiu um monumento para o seu football: o maior Estádio do Mundo”.

O Uruguai, afinal, fizera a sua parte contra a Suécia no Pacaembu durante aquele mesmo dia. Menos de 8 mil pagantes viram a emocionante vitória celeste por 3 a 2. Os suecos saíram em vantagem com Karl-Erik Palmer, Alcides Ghiggia empatou e Stig Sundqvist retomou a dianteira  antes do intervalo. Apenas no segundo tempo é que saiu a virada charrua, com dois tentos de Óscar Míguez, o segundo deles a cinco minutos do final. Com aquele resultado, os uruguaios poderiam ser campeões com uma vitória sobre o Brasil.

Neste sentido, o aviso dado pelo Correio da Manhã em 14 de julho de 1950 seria profético: “Em meio às alegrias do dia de ontem, um fato não pode ser esquecido, nem subestimado. Resta um adversário ao Brasil e queremos crer, o mais perigoso. Cessem as manifestações de entusiasmo, circunscritas que devem ficar à vitória de ontem. Foi retumbante, é certo, porém apenas um passo, um meio, nunca um fim. Deve o torcedor carioca, este grande colaborador de Flávio Costa, revestir-se novamente da expectativa que o levou aos milhares ao Maracanã. Quanto mais próximo estivermos do título, maior será o amargor da derrota”.

“Compenetremo-nos mais do que nunca da situação. Voltemos ao temor da Iugoslávia, à desconfiança da Suécia, à fúria da Espanha, que nos fez gritar, que nos fez torcer, que nos fez vencer. Reincarnemos nosso papel, retornemos ao estádio na mesma incerteza que é plenamente justificada e estaremos decididamente contribuindo para que o Brasil conquiste o Campeonato Mundial. Façamos tudo para uma vitória, pois se a sorte nos for adversa, restará o consolo de uma derrota honrosa. Perderemos uma grande oportunidade, mas não sentiremos remorsos, não nos culparão da negligência”, finalizava o jornal, dois dias antes do Maracanazo.

Abaixo, as avaliações dos jogadores, feitas por Correio da Manhã e Diário de Notícias: