América do Sul

Um garoto de 19 anos encerrou a angústia do Colo-Colo, com um golaço que livrou o clube do inédito rebaixamento

O Colo-Colo pôs fim ao jogo mais dramático de sua história com uma sensação imensurável de alívio. Apesar de beirar o inédito rebaixamento, o Cacique permanecerá na primeira divisão do Campeonato Chileno. Os colocolinos terminaram a temporada na antepenúltima colocação e fizeram uma partida decisiva contra a Universidad de Concepción, penúltima no promédio. Apenas o vencedor do jogo único em Talca permaneceria na elite. E, na última hora, os Albos cumpriram sua missão. O Colo Colo venceu por 1 a 0 e evitou o descenso. O herói foi o garoto Pablo Solari, que em seu primeiro gol como profissional já garante a idolatria da torcida.

Seria uma partida naturalmente tensa em Talca. Os dois adversários jogavam sua sobrevivência. Melhor durante o primeiro tempo, o Colo-Colo conseguia travar os adversários com seus volantes e levava mais perigo no ataque. O gol da permanência saiu aos 19 minutos, com o predestinado Solari. O argentino de 19 anos recebeu a bola na direita e aprontou um carnaval em plena quarta-feira de cinzas. Fintou o primeiro marcador, deu um corte seco no segundo e finalizou por baixo do goleiro. O chute nem foi dos mais fortes, mas se tornaria suficiente para acariciar as redes.

A Universidad de Concepción pressionou especialmente durante o segundo tempo. O Colo-Colo conseguiu segurar a diferença. Ainda poderia ter anotado o segundo, em outro lance de Solari. O garoto participava bastante e parou no travessão. Apesar dos longos acréscimos, a diferença mínima se manteve no marcador. O apito final significou uma erupção de emoções entre os colocolinos. Choravam, se abraçavam e respiravam o alívio por não representarem a página mais tenebrosa da história alba. Não estão rebaixados. Já a UdeC precisará disputar a segundona, ao lado de Coquimbo Unido e Deportes Iquique.

O grande personagem da tarde foi Pablo Solari. O ponta de 19 anos começou no Talleres e foi emprestado ao Colo-Colo em novembro, sem sequer estrear como profissional na Argentina. A princípio, era reforço para os juniores – numa temporada em que a diretoria apelava a antigos ídolos, como Matías Fernández e Jorge Valdívia. Logo o adolescente virou uma opção no time de Gustavo Quinteros e ganhou a posição de titular na reta final do Campeonato Chileno, quando os albos esboçavam sua reação. Os pontos conquistados não foram suficientes para garantir o Cacique a salvo dos playoffs contra o descenso, mas o prodígio ganhava moral.

Solari conquistou a torcida por seu empenho e por sua habilidade na ponta direita. Criava ótimos lances, mesmo sem ainda ter balançado as redes. E o jogo extra, para determinar a salvação, significou a consagração do garoto. Antes de chegar a Talca, ele demonstrou personalidade ao se reunir com os torcedores que até ameaçavam de morte o elenco. Já dentro de campo, não sentiu a pressão e resolveu, com o primeiro gol de sua carreira evitando a mancha no clube de 95 anos. Vira um talismã, e certamente a torcida desejará sua permanência para reerguer a equipe em 2021.

O descenso não veio, mas o Colo-Colo ainda precisa se reconstruir. O Campeonato Chileno de 2020 foi claramente caótico à equipe dentro de campo, guardando ainda uma série de problemas nos bastidores e expondo a má gestão realizada pela ‘Blanco y Negro S.A.’, a empresa que administra o departamento de futebol. O Cacique precisará repensar seus rumos e a própria divisão de poderes, com conflitos internos. Um respiro vem com a vitória desta quarta, já que o descenso poderia causar um impacto incalculável nas finanças. São novos ares, inspirados por um garoto de 19 anos, capaz de livrar a angústia dos colocolinos na mais pura habilidade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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