Um futebol que não se dá o respeito

Aconteceu outra vez. Depois de uma Libertadores quase sem incidentes extra-campo, o futebol sul-americano voltou a ser chacota e vergonha de sua própria condição nesta semana. Dois episódios de violência vinda das arquibancadas suspenderam as partidas entre Emelec e Olimpia e Nacional e Universidad de Chile pela Copa Sul-Americana 2011. Não é a primeira, nem segunda e com certeza não será a última vez que veremos isso.
Em Montevidéu, o Nacional precisava vencer a Universidad de Chile por pelo menos 2 a 0 para avançar às oitavas de final da Sul-Americana. O 1 a 0 serviria para levar o jogo às cobranças de pênaltis. Porém, aos 12 minutos de jogo a equipe já perdia por 2 a 0 e, necessitando de quatro gols para se classificar, praticamente tinha dado adeus à partida. Na volta para a segunda etapa, com um minuto de jogo, um torcedor do Nacional acertou a cabeça do bandeirinha Milciades Saldívar com um rolo de serpentina. O auxiliar caiu no chão sentindo muitas dores e as equipes médicas entraram no gramado. Passados dez minutos o bandeira foi levado para um hospital da região e o juiz Jorge Larrionda decidiu suspender a partida.
Às cenas lamentáveis vindas das arquibancadas seguiram vexames no pós-jogo. Furioso com a decisão da arbitragem de suspender a partida, Alejandro Balbi, dirigente do Nacional, disse que ela era absurda e que o auxiliar não tinha sequer “um galo na cabeça” – embora tenha admitido que nada disso justificaria a agressão. Para terminar ainda fez o comentário de que “ele caiu como se tivesse sido golpeado por Tyson”. Não parou por aí. A versão digital do diário esportivo Ovación foi na onda da irresponsabilidade e, sob o título “Comédia e horror”, disse que o hincha tricolor teve mais pontaria que o ataque da equipe uruguaia.
E, como não poderia deixar de ser, a cereja do bolo veio da Conmebol. Mesmo com um integrante da arbitragem sendo levado de ambulância do estádio e a partida tendo que ser suspensa por falta de condições de segurança a maior entidade do futebol da América do Sul já informou: Não haverá perda de mandos de campo ou jogos a portões fechados no Parque Central, mas apenas uma multa ao clube uruguaio.
Em Guaiaquil o Emelec precisava vencer o Olimpia para se classificar às oitavas de final. Jogando novamente um futebol terrível, a equipe equatoriana levou 2 a 0 dos paraguaios e a já impaciente torcida se revoltou. Além das faixas que tinham sido preparadas para protesto, os torcedores começaram a insultar o técnico uruguaio Juan Ramón Carrasco de forma acintosa. Descontrolada, a hinchada electrica passou a atirar garrafas plásticas contra o goleiro do Olimpia, Martin Silva. Faltando sete minutos para o fim da partida, o árbitro colombiano José Buitrago achou que a situação se tornara perigosa demais e decidiu terminar o jogo antes do final, dando a vitória para o Olimpia, que segue adiante na competição.
O apito final deixou os torcedores ainda mais furiosos e Carrasco teve que ser escoltado por três policiais com escudos. Garrafas e até cadeiras foram atiradas contra o técnico do Emelec. Mesmo assim o clube equatoriano terá apenas que pagar uma multa e não terá qualquer ônus desportivo no caso, graças à Conmebol, evidentemente.
Já era esperado. Para não ir longe demais, no ano passado, em Avellaneda, na Argentina, o próprio Martin Silva, na época goleiro do Defensor Sporting, foi atingido por uma pedra na cabeça em partida contra o Independiente, pelas oitavas de final da Sul-Americana. Sangrando, teve que ser retirado de campo, mas o árbitro manteve o jogo e, 20 minutos depois, Silva voltou ao gramado. O Independiente nada sofreu, senão sanções financeiras.
Ou seja, mais uma vez a Conmebol e os clubes sul-americanos se omitem diante da barbaridade dessa situação. Naturalizam atos de selvageria sob o nome de “rivalidade” ou “charme” do futebol do continente e deixam de lado as consequências de tais atos. Eram garrafas plásticas, era um rolo de serpentina, era uma pedra… “Ninguém morreu”. “Só” ficaram feridos, alguns “sem gravidade alguma” como diz o dirigente do Nacional… Pois é. Tudo se resolve com uma ou duas multas. E o torcedor, que não vai pagar nada e não vai ter qualquer ônus por seus atos – nem prejudicará seu time, quanto mais será punido pela agressão -, assiste a tudo com um sentimento ímpar de impunidade.
E a Conmebol… Também assiste! Assiste às agressões em sua segunda maior competição e nada faz. Assiste aos seus principais times – excetuando-se os brasileiros – se tornarem motivos de vergonha e chacota mundo afora e, consequentemente, assiste ao seu produto sendo cada vez mais desvalorizado. E os clubes… Os clubes que transgridem passam as costas da mão pela testa com o alívio de quem não será punido, enquanto os que são agredidos se regozijam com a vaga na fase seguinte. Já passou, já passou…
Quando alguém vai se mexer? Talvez quando alguém morra em algum incidente destes, mas apenas talvez…
Mais da Sul-Americana
Dentro de campo foram definidas as oitavas de final da Copa Sul-Americana 2011. Confira os confrontos desta que será a primeira fase totalmente internacional do torneio:
Universidad Católica (CHI) x Vélez Sársfield (ARG)
Botafogo (BRA) x Santa Fe (COL)
LDU (EQU) x Independiente (ARG)
São Paulo (BRA) x Libertad (PAR)
Flamengo (BRA) x Universidad de Chile (CHI)
Olimpia (PAR) x Arsenal de Sarandí (ARG)
Godoy Cruz (ARG) x Universitario (PER)
Aurora (BOL) x Vasco da Gama (BRA)
CURTAS
Uruguaias
– No Apertura 2011 o River Plate só empatou em 0 a 0 com o Cerrito e viu o Peñarol encostar na liderança após a vitória dos carboneros por 2 a 1 ante o Danubio. O Nacional venceu sua segunda partida no campeonato – 4 a 0 no Cerro Largo – e voltou à disputa. A tabela agora tem River Plate e Peñarol empatados na liderança com 14 pontos em seis jogos, seguidos por Cerro, com 13, Danubio com 11 e Nacional e Fénix com 10.
– Neste final de semana Peñarol e River se enfrentam pela sétima rodada.
Chilenas
– No Clausura chileno a Universidad de Chile segue vencendo e quebrando recordes. Após a vitória por 3 a 1 diante do Cobresal, a equipe chegou a oito vitórias em oito rodadas e bateu o recorde de partidas invictas em sua história, feito que era do time de la U de 1964, o chamado “ballet azul”. A Universidad de Chile tem agora 24 pontos, oito de vantagem sobre o Colo Colo, que perdeu por 3 a 0 para a Unión La Calera. O Audax Italiano é o terceiro, depois de vencer a Universidad de Concepción, enquanto a Católica ocupa a quarta posição, após derrota ante o Ñublense.
Peruanas
– No Descentralizado 2011 o Alianza Lima venceu mais uma – 2 a 1 no César Vallejo – e ampliou sua vantagem na liderança. Isso porque o Juan Aurich só empatou em 1 a 1 com o Melgar. Faltando oito rodadas para o fim da primeira fase (na segunda os dois primeiros se enfrentam em duas finais) o Alianza tem 48 pontos, seguido pelo Juan Aurich com 42 e pelo León de Huánuco, com 35.
Venezuelanas
– No Apertura da Venezuela, o CD Lara venceu o Monagas por 2 a 0 e segue firme na ponta da tabela, agora com 16 pontos em seis jogos. Em segundo lugar está o Caracas, que fez 4 a 0 no Mineros e tem 15 pontos. Em terceiro está o Yaracuyanos, seguido pelo AC Mineros FC.
– As decepções do campeonato até aqui são o atual campeão Deportivo Táchira, que está apenas na 12ª colocação, com oito pontos, e o Real Esppor, em 14º.
Colombianas
– Na Liga Postobón II quem segue dando as cartas é o Quindío. A equipe venceu o Independiente Medellín por 2 a 1 e se manteve na ponta da tabela, com 13 pontos em seis jogos. Também com 13 pontos, mas com sete jogos, aparece o Atletico Huila, que bateu o Envigado por 1 a 0. O terceiro colocado é o Junior Barranquilla, seguido por Itagüí e Boyacá Chicó, todos com 11 pontos.
Paraguaias
– Em um momento a la Brasileirão o Libertad perdeu por 2 a 0 para o Sol de América em casa, mas segue na liderança, com 14 pontos e um jogo a menos que os rivais. O motivo foi os tropeços dos demais postulantes ao título. O Nacional perdeu por 1 a 0 para o Tacuary e continua em segundo lugar, com 14 pontos, mas em oito jogos. O Olímpia é o terceiro e não jogou nesta semana, tendo portanto 13 pontos em sete jogos. Na quarta posição aparece o Guaraní, também com 13 pontos, após vencer o Sportivo Luqueño. Já o Cerro é apenas o quinto, com 12 pontos, depois do 1 a 1 com o 3 de Febrero.
Equatorianas
– Depois de oito vitórias nos oito primeiros jogos, o Deportivo Quito deu uma desacelerada. Na semana passada a equipe empatou com o Emelec em 0 a 0 e nesta ficou no 2 a 2 com o Imbabura. Mesmo assim lidera o campeonato, com 26 pontos em 10 jogos. O segundo lugar está com o Barcelona, que fez 1 a 0 no Independiente e tem agora 18 pontos. Em terceiro está o Nacional, com 17, seguido pela LDU, com 16.
Bolivianas
– No Apertura boliviano, o Guabirá fez 2 a 0 no Real Mamoré e agora lidera o grupo A com 9 pontos em quatro jogos. Em segundo está o Real Potosí, com 7 pontos, mas 3 jogos, seguido pelo Bolívar, que fez 5 a 3 no The Strongest e tem agora 7 pontos em quatro jogos. No grupo B o Aurora tem 9 pontos em três jogos, o The Strongest tem 7 pontos em quatro jogos e o Nacional Potosí é o terceiro, com 6 pontos. Lembrando que os três melhores de cada grupo se classificam para a segunda fase do campeonato.



