América do Sul

Suárez seguiu o coração e completou uma volta para casa que tem tudo para ser emocionante

O maior artilheiro da história do Uruguai jogará novamente pelo Nacional, 16 anos depois de começar sua brilhante carreira na Europa

Suárez era um adolescente problemático tentando se tornar jogador de futebol profissional. Gostava de se divertir e sair com os amigos um pouco demais. Apenas quando conheceu a atual esposa Sofía Balbí colocou a cabeça no lugar, mas teve uma recaída quando ela se mudou com a família para Barcelona. Até perceber que poderia arranjar um emprego naquela cidade se fosse bom o bastante e transformou o clube catalão em seu maior objetivo. Uma hora conseguiu jogar por ele, quando já estava consagrado como um dos melhores atacantes do mundo e casado com Sofía há cinco anos. Então seguir o coração não é novidade para Suárez, que foi confirmado nesta quarta-feira como o novo reforço do Nacional de Montevidéu.

Suárez havia ficado magoado que o Nacional não tentara contratá-lo, como fez o River Plate, depois de seu contrato com o Atlético de Madrid terminar. Disse que a ideia era continuar na Europa, mas ficou próximo de aceitar a proposta do clube argentino, “que havia demonstrado muito carinho”, e questionou por que aquele que o projetou à Europa não havia feito o mesmo. O presidente tricolor, José Fuentes, começou as negociações quase imediatamente, e a torcida fez uma campanha nas redes sociais que comoveu o maior artilheiro da seleção uruguaia.

“Primeiro, queria agradecer o carinho que eu e minha família recebemos nos últimos dias. Foram impressionantes todas as mensagens que chegaram. Tocou nosso coração nesta situação em que temos que decidir e era inevitável aceitar esta oportunidade de ter a possibilidade de voltar a jogar pelo Nacional”, afirmou Suárez na última terça-feira, quando anunciou o pré-acordo com o Nacional que foi oficializado nesta quarta. Esse carinho parece ter feito a diferença porque não muito tempo atrás, em 2019, o retorno parecia muito longe dos seus planos.

“O Nacional era minha segunda casa, cresci no Gran Parque Central. Sou torcedor do Nacional, meus filhos são sócios, mas às vezes as coisas são mal interpretadas. Não é que eu não quero voltar, é que tenho que pensar na família, se estou disposto a voltar ao Uruguai, com todas as dificuldades que existem. Não é que não quero, adoraria voltar ao Nacional porque sou torcedor, mas hoje em dia não sei o que pode acontecer”, disse à rádio Sport 890.

Parece que seu coração foi pouco a pouco trabalhado. Um ano depois, Loco Abreu disse que estava tentando ser o substituto de Álvaro Gutiérrez e, se virasse técnico do Nacional, tentaria trazer Suárez. Até deu a famosa sondada. “Eu disse a Suárez para vir se eu fosse nomeado treinador. Em dezembro, chegou a haver essa possibilidade. Ele disse que ia avaliar porque tinha contrato (com o Barcelona) e teria que falar com a Sofía. Ele comentou que se eu fosse técnico do Nacional ele pensaria em voltar, que para ele seria um desafio”, explicou, também a um programa da rádio Sport 890, segundo o Marca.

Suárez estreou pelo Nacional em maio de 2005, contra o Junior Barranquilla, na Colômbia, pela Libertadores. Faria 35 jogos oficiais e 12 gols, o primeiro deles no Gran Parque Central contra o Paysandú, pelo Campeonato Uruguaio. Ganhou o título de 2005 e foi muito importante em uma segunda conquista, em 2005/06, marcando nos dois jogos da final contra o Rocha. Foi contratado pelo Groningen em 2006. Não era Barcelona, mas estava mais próximo de Sofia. E foi meio que por acaso.

“Eu estava de férias no começo de junho e recebi uma chamada do meu diretor: vamos comprar o jogador mais caro que já compramos?”, explicou o ex-técnico do Groningen, Ron Jans, à BBC. “Foi um erro porque eles foram ao Uruguai ver outro jogador. Foram a um jogo, viram Suárez e disseram: queremos ele. Foi uma compra impulsiva. Foi uma das melhores decisões que o clube já tomou”.

Foi um período curto pelo Nacional, embora importante. E marcante. Suárez ficou bastante emocionado quando retornou ao Gran Parque Central pela primeira vez desde sua saída, em 2021, para jogar pela seleção uruguaia contra a Colômbia pelas Eliminatórias. Foi o palco do seu primeiro gol como profissional e do último com a camisa do Nacional – na segunda daquelas vitórias sobre o Rocha, por 2 a 0, no jogo de volta da decisão de 2005/06.

“Sinto emoções porque fazia tempo que não vinha. Foi emocionante voltar ao campo onde tudo começou, onde marquei meu primeiro gol como profissional, onde fui campeão com o Nacional, time do qual sou torcedor, mas estou mais emocionado por poder voltar a jogar aqui com a camisa da seleção”, disse, segundo o El Observador, após fazer reconhecimento do gramado. “Hoje, sou jogador da seleção e penso muito na seleção, e voltar a jogar aqui é uma motivação a mais”.

O Gran Parque Central pode ser o palco de uma grande festa em sua homenagem. Segundo o El País, ele chegará ao Uruguai entre sexta-feira e domingo, que seria o único dia possível para uma recepção mais especial porque o Nacional enfrenta o Deportivo Maldonado no sábado pela primeira rodada do Clausura. Na terça-feira, haverá o duelo com o Atlético Goianiense pelas quartas de final da Copa Sul-Americana. Talvez cedo demais para sua estreia porque não joga desde 22 de maio, embora estivesse treinando sozinho para manter a forma física.

O retorno (por enquanto) será breve. O contrato vale até dezembro, de acordo com o El País, igualando o maior salário do elenco. Como ele se apresentará à Copa do Mundo em novembro, e ainda terá uma Data Fifa com a seleção uruguaia em setembro, serão cerca de três meses em que voltará a sentir o gosto de ser jogador do Nacional. Mais do que isso, sentirá esse gostinho durante os meses de aquecimento para uma Copa do Mundo, a sua quarta, e provavelmente última.

O que fará depois ainda é incerto. Imagina-se que irá à Major League Soccer, mas o mais importante é aproveitar esse tempo que será especial ao futebol uruguaio, que poderá contar com um dos maiores nomes do futebol mundial. Esse movimento não é novidade – Diego Forlán defendeu o Peñarol entre 2015 e 2016 e Álvaro Recobe arrebentou quando voltou ao Nacional -, mas não é tão comum quanto na Argentina, por exemplo, também porque o Uruguai não tem tantas estrelas do futebol mundial. Suárez sem dúvida está entre elas.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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