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Quinze jogadores ameaçam deixar seleção se presidente da federação não renunciar

O mandato do presidente da Federação Venezuelana de Futebol, Laureano González, está em risco, depois que quinze jogadores da seleção assinaram uma carta na qual ficou explícita a ameaça de boicote ao time nacional caso ele não renuncie ao cargo.

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O que irritou os jogadores, entre eles alguns dos mais importantes da equipe, como Salomon Rondón, foi uma declaração de González acusando o elenco de conspirar para derrubar o técnico Noel Sanvincente, arquiteto da campanha venezuelana nas Eliminatórias Sul-Americanas, com quatro derrotas em quatro rodadas. Uma impressão reforçada pela decisão de Fernando Amorebieta, do Middlesbrough, de não defender a Venezuela enquanto Sanvincente fosse treinador.

“Aceitamos as críticas esportivas a respeito das nossas atuações com a seleção nacional e assumimos a responsabilidade pelos resultados”, começou a carta. “Mas não aceitamos sob nenhuma circunstância as declarações do presidente da Federação Venezuelana de Futebol, Laureano González, dadas ao Diario Líder, em 25 de novembro de 2015, nas quais ele afirmou que os jogadores ‘configuram um movimento para derrubar o técnico nacional'”.

“Não concordamos que a atual diretoria da FVF continue no comando. (…) Não é negociável a nossa integridade, e o dano que foi causado só pode ser reparado renovando a diretoria da FVF. Não podemos continuar em um ambiente já prejudicado por esses dirigentes”, continuou.

Os signatários do documento foram Tomás Rincón, Oswaldo Vizcarrondo, Salomón Rondón, Roberto Rosales, César González, Luis Manuel Seijas, Franklin Lucena, Grenddy Perozo, Josef Martínez, Juan Falcón, Nicolás Fedor, Gabriel Cichero, Ronald Vargas, Alejandro Guerra e Christian Santos. Desses, oito estiveram em campo na última partida da Venezuela, derrota por 3 a 1 para o Equador (Rosales, Vizcarrondo, Cichero; Rincón, Lucena, Martínez, Santos e Rondón).

Sanvincente, que havia mantido o seu direito ao silêncio desde as declarações atrapalhadas de González, respondeu aos jogadores, que cobraram um posicionamento dele na carta que publicaram. Começa listando suas credenciais, reforçando o quanto já batalhou pelo futebol venezuelano e apresentando as suas propostas para melhorá-lo, com o objetivo de finalmente disputar uma Copa do Mundo. Apenas no final do longo texto publicado no site da FVF trata da ameaça de boicote e admite renunciar ao cargo.

“Peço desculpas aos meus jogadores se em algum momento sentiram falta de apoio, porque minhas exigências nascem do amor pelo futebol”, afirmou. “Desejo ser o primeiro mediador nessa situação em que estamos vivendo e fazer com que jogadores, corpo técnico e dirigentes estejam unidos para alcançarmos esse grande objetivo, que é o sucesso da nossa Vinotinto, mas, se minha saída contribuir para que as diferenças sejam postas de lado, vou me afastar, pensando no benefício do nosso futebol”.

Laureano González agora está na berlinda, com um motim em mãos, um técnico indesejado pelos jogadores e o seu cargo em risco. Uma situação difícil para ele, que assumiu o cargo seis meses atrás, depois que Raphael Esquivel foi preso pelo FBI, na explosão do escândalo de corrupção da Fifa, em maio.

Leia a carta na íntegra:

Carta dirigida aos diretores da Federação Venezuelana de Futebol

Aceitamos as críticas esportivas a respeita da nossa atuação com a seleção nacional e assumimos, como equipe, a responsabilidade por esses resultados. Mas não aceitamos, sob nenhuma circunstância, as declarações do presidente da Federação Venezuelana de Futebol, Laureano González, dadas em uma entrevista ao Diário Líder, em 25 de novembro de 2015, nas quais ele afirmou que os jogadores ‘fazem um movimento para derrubar o técnico nacional’.

Essas declarações são totalmente falsas e violam nossa honra e reputação. Atentam contra nossos valores como pessoas e como profissionais, ainda mais contra um grupo de jogadores que está há oito anos competindo ao nível máximo, baseando-se em coesão de grupo, sentimento de pertencimento e valores humanos. Logo, manifestamos uma grande decepção e decepção por falta de apoio do corpo técnico dessa seleção nacional diante das acusações.

Durante nossa carreira, aprendemos códigos éticos e esportivos, nos quais resolvemos e manifestamos situações e diferenças dentro do vestiário, e não à luz pública, como vem fazendo a Federação. Ao contrário da atitude de alguns diretores, sempre conservamos a vontade de lutar até o último ponto para conseguir nosso maior objetivo, que é nos classificarmos para o Mundial da Rússia, em 2018, tendo claro o que isso significa. Enquanto a Federação Venezuelana de Futebol for comandada pelos atuais diretores, nosso sonho de ir a um mundial de futebol será comprometido pela falta de capacidade que até agora eles mostraram. Nós, os jogadores, não concordamos que a atual diretoria da FVF continue no comando, já que não é negociável a forma como fomos tratados e como o projeto de ir ao mundial está sendo administrado. Pensamos como uma equipe que precisa dessa importância mudança diretiva para que o trabalho realizado não seja desperdiçado por mais oito anos. A essa altura das Eliminatórias Sul-Americanas para o Mundial da Rússia de 2018, uma mudança a tempo é vital.

Repetimos novamente que não é negociável nossa integridade, e que o dano causado pode ser reparado apenas renovando a direção da FVF. Não podemos continuar em um ambiente já prejudicado por esses dirigentes.

Dessa maneira, queremos manifestar que o dinheiro recebido nesse ciclo e que nos é devido será destinado a uma fundação que estamos criando em conjunto com os jogadores aqui nomeados, com o fim de ajudar nossa juventude e a desenvolver escolas desportivas em nosso país.

Assinado:

Tomás Rincón, Oswaldo Vizcarrondo, Salomón Rondón, Roberto Rosales, César González, Luis Manuel Seijas, Franklin Lucena, Grenddy Perozo, Josef Martínez, Juan Falcón, Nicolás Fedor, Gabriel Cichero, Ronald Vargas, Alejandro Guerra e Christian Santos.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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