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Os 30 anos do Nacional campeão mundial: o Bolso quis muito a eternidade

Mesmo que há muito tempo não tenham o protagonismo que um dia tiveram, Peñarol e Nacional seguem protagonizando a típica disputa entre dois gigantes dentro de seu país – no caso, o Uruguai – para ver quem consegue mais fama fora do país. Na década de 1980, os Manyas se destacavam: dois títulos de Copa Libertadores da América (1982 e 1987), além do Mundial Interclubes em 1982. O Bolso precisava reagir. Com uma equipe que tinha na garra – salpicada por talento – o seu principal valor, reagiu em 1988, conquistando o título da Libertadores. Mas era preciso fazer mais. E há 30 anos, em 11 de dezembro, o time alvirrubro fez mais: consagrou-se como o último campeão mundial vindo da república oriental.

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Um mês e quinze dias depois do 3 a 0 no Centenário de Montevidéu que lhe deu o título sul-americano, diante do Newell’s Old Boys, o Nacional vinha para o Estádio Nacional de Tóquio sabendo bem dos seus pontos fortes. No gol, vindo do Danubio no começo daquele ano, estava Jorge Seré, já entronizado como “Superman” pelos milagres contra o América de Cali, nas semifinais da Libertadores. No meio, junto do rápido Yubert Lemos, uma dupla valorosa, até hoje querida dos torcedores: Santiago “El Vasco” Ostolaza e Jorge Cardaccio. Também esforçado, na lateral esquerda, estava José “Chango” Pintos Saldanha. No ataque, Ernesto “Pinocho” Vargas dava muita velocidade, enquanto Juan Carlos de Lima era homem da área. Finalmente, como esteio do time treinado por Roberto Fleitas, voltara ao clube durante a Libertadores um nome especial, a ligação entre os títulos continental e mundial de 1980 e aquele momento: Hugo de León, que correra mundo (Grêmio, Corinthians, Santos, Logronés-ESP) sem deixar de ter o Bolso no coração.

Só havia um problema: o adversário que esperava o Nacional tinha um time melhorado, em comparação com o que ganhara o título continental. Afinal de contas, no PSV campeão europeu em maio de 1988 já estava gente como o goleiro Hans van Breukelen, o zagueiro-líbero Ronald Koeman, o meio-campista/lateral Hubertus “Berry” van Aerle, o ponta-de-lança Gerald Vanenburg, o atacante Wim Kieft, todos também campeões europeus de seleções com a Holanda em junho daquele ano. A ajudar Van Aerle na marcação, havia ainda o dinamarquês Soren Lerby, de fôlego inesgotável. Como se faltasse experiência na defesa dos Boeren, estava o belga Eric Gerets, 34 anos, fundamental na lateral direita do time treinado por Guus Hiddink. E acima de tudo, o grande reforço daquele PSV tinha chegado em outubro, após fabulosa participação no torneio olímpico de futebol em Seul: Romário, já titular absoluto no ataque.

Entre a garra do Nacional e a experiência cheia de técnica do PSV, dava para esperar um grande jogo no Estádio Nacional de Tóquio, naquele 11 de dezembro de 1988 ensolarado na capital japonesa. E ele veio: foi uma das mais emocionantes decisões que a Copa Intercontinental/Mundial Interclubes já viu. O time uruguaio começou sendo paciente na defesa quando o PSV tinha a posse de bola. Era esperar uma chance, nos contra-ataques. E ela não demorou: já aos sete minutos da etapa inicial, o “Vasco” Ostolaza se credenciou a ser o herói da decisão. Daniel Revélez cobrou escanteio da direita, Van Breukelen saiu mal do gol, e o meio-campista uruguaio entrou livre, perto da segunda trave, para fazer 1 a 0 e comemorar com a “barra” do Bolso atrás do gol.

Se pegar um time melhorado vindo de Eindhoven era um tremendo desafio, o Nacional passou a maior parte daquele tempo normal superando-o brilhantemente: ficou bem mais confiante após o gol, teve velocidade no primeiro tempo, criou chances. E nas tentativas do PSV – na maioria das vezes, jogadas iniciadas por Koeman (o melhor dos Eindhovenaren em campo, por incrível que pareça), continuadas por Vanenburg para Romário finalizar -, a defesa sempre estava a postos para afastar tudo. Hugo de León, com calma; Revélez, com dedicação, quase insuperável no jogo aéreo.

Porém, o time que ferira numa falha na saída de gol, com falha na saída de gol seria ferido. Mesmo firme na defesa, o Nacional deu uma chance valiosa ao PSV, aos 30 minutos do segundo tempo, já mais cansado, cedendo um lateral perto da área, na direita. Vanenburg cobrou forte, mandando a bola para a área. Seré saiu do gol, socou a bola fracamente, e a esférica parou nos pés de quem? Romário. O destino você já deve imaginar: redes. 1 a 1, Romário saiu correndo para comemorar abraçando Guus Hiddink, PSV e Nacional iriam para a prorrogação.

Se o tempo normal já fora empolgante, entre o destemor do time de Montevidéu e a paciência do time de Eindhoven, a prorrogação seria para fazer qualquer torcedor cardíaco do Bolso (e até em Eindhoven, embora um pouco menos) pegar o remédio mais próximo. As bolas altas sempre eram escoradas pelos meio-campistas, levando a chances de parte a parte. O Nacional exemplificou isso logo aos cinco minutos do tempo extra: após desvio, William Castro pegou a bola livre na esquerda, chegou à área e finalizou cruzado, rente à trave de Van Breukelen.

Se a equipe sul-americana perdera sua chance, o PSV não perderia a dele para virar o jogo. Já na segunda parte da prorrogação, aos cinco minutos, lançamento pelo alto, e Héctor Morán foi dividir a bola na área com Hans Gillhaus. O meia-atacante holandês caiu na área. A disputa nem fora tão faltosa, mas convenceu o juiz colombiano Jesús Díaz Palacios: pênalti. Se Romário concluindo as jogadas era garantia para o time da Philips, Ronald Koeman nas bolas paradas também tranquilizava a torcida. Bingo: Koeman cobrou o penal, bola no meio, Seré na direita, 2 a 1.

Era para ser o título mundial que configuraria a “quádrupla coroa” do PSV em 1988, após as três conquistas de 1987/88 (campeonato e copa holandeses, e Copa dos Campeões). Mas qual era o maior trunfo do Nacional, acima da técnica de Cardaccio, da velocidade de “Pinocho” Vargas, da experiência de Hugo de León? Era a garra personificada em Santiago Ostolaza. A garra que o levou a tentar algo num escanteio, no último dos 120 minutos de bola rolando. A garra que levou Carlos Muñoz, narrador da televisão uruguaia, a vociferar assim o gol: “¡Vamos, muchachos! ¡Todos a cabecear! ¡El centro de [Yubert] Lemos! Se cerró… ¡cabezazo! ¡GOOOOOOOOOL!”. O zagueiro Adick Koot ainda tentou tirar a bola em cima da linha, mas o juiz não se enganou. Transmitindo o jogo para o Brasil, na TV Bandeirantes, direto do estádio, Jota Júnior confirmou: “Entrou, sim”. Ostolaza fizera o milagre: 2 a 2. Os pênaltis definiriam o campeão mundial de 1988.

A série de cobranças começou com o PSV. Koeman fez o previsível: 1 a 0. Lemos, que batera o escanteio do gol de empate na prorrogação, não deixou por menos: 1 a 1. Aí, se Ostolaza fora o herói com bola rolando, era hora de um novo herói aparecer: Jorge Seré. Na cobrança de Wim Kieft, bola na direita, e o goleiro uruguaio pulou certo para pegar e provocar o êxtase de Carlos Muñoz: “¡SUUUUUUPERMAAAAN! ¡VAMOS, SUPERMAAAAN!”. Só não foi melhor daquela vez porque o atacante José Daniel Carreño, que entrara na prorrogação, bateu, e Van Breukelen (que agarrara a cobrança do título na Copa dos Campeões, contra o Benfica, e pegara outro na decisão da Euro 1988 – se fez valer de novo, defendendo. Pior: Gillhaus fez 2 a 1, e Morán bateu por cima. O PSV ficava em vantagem. E ficou com as cobranças seguintes: Romário e William Castro, que converteram seus chutes.

A narração cada vez mais apoplética de Carlos Muñoz na televisão uruguaia já dizia após a defesa de Seré no chute de Kieft: “Se há justiça, o Nacional tem de ser o campeão mundial!”. E a sorte começou a ajudar: Soren Lerby bateu a quinta cobrança, a do título, no travessão. Aí, era com Hugo de León. Claro que o capitão não iria decepcionar o Bolso: 3 a 3. Teríamos as cobranças alternadas. Dois atacantes – um de cada lado, Juul Ellerman e Juan Carlos de Lima. Duas bolas na rede: 4 a 4. Dois zagueiros, Revélez e Stan Valckx: 5 a 5. Gerets, o experiente, capitão do PSV, foi para a oitava cobrança do time holandês: Seré, no meio do gol, espalmou e deu razão para mais um “SUUUUPERMAAAAN” de Carlos Muñoz. Só que “Chango” Saldanha, de atuação valorosa no tempo normal, mandou o pênalti do título no travessão. E voltou chorando para o meio do campo.

Já eram nove cobranças. Eindhoven podia não perder o sono, mas a ala alvirrubra de Montevidéu perdia por duas cidades, na madrugada uruguaia, tarde de Tóquio. Koot bateu e fez 6 a 5. Se Ostolaza fora o herói no tempo normal e na prorrogação, não seria o vilão nos pênaltis: 6 a 6. Então, foi a hora de Seré se consolidar para sempre no coração dos adeptos: Van Aerle bateu na direita, mas o goleiro uruguaio foi no canto certo, espalmou, deu mais uma chance para o “SUUUUUUPERMAAAN” de Carlos Muñoz, e apontou para si próprio. Em declarações ao livro “Héroes de Nacional”, de Gerardo Bassorelli, Seré justificou: “Eram dois que não tinham batido pênaltis: eu e Tony Gómez. Eu disse ‘se eu pegar, pedirei para bater, porque se eu errar não tem problema, seguimos na disputa. Acenei olhando para o meio, porque achava que [Roberto] Fleitas estava ali. Depois eu soube que não estava, que tinha ido para o vestiário”.

Se destino é destino, o de Tony Gómez não podia ser melhor. O lateral direito sequer seria titular no Mundial Interclubes. Mas a lesão de Carlos Soca, titular na campanha da Copa Libertadores, abriu caminho para ele. Gómez foi, “como se fosse comprar cigarros na esquina”, nas palavras de Bassorelli. Carlos Muñoz espalmava: “¡NO LO QUIERO MIRAR! ¡CON EL GRITO LO VOY A SABER!”. Ele não queria nem olhar. Pelo grito da torcida, ele saberia. E pôde saber: Gómez mandou no canto de Van Breukelen. 7 a 6. Era o “Nacional del mundo”. Pela última vez, o “Uruguay del mundo”. Imagem simbolizada em Hugo de León voltando a erguer a taça de campeão mundial, após cinco anos. Simbolizada na eleição de Ostolaza como melhor do jogo. Enfim, simbolizada em todo o Nacional. Que se esforçou tanto por merecer aquele título, que o fez. Citando novamente Carlos Muñoz, hoje aposentado: “¡Es justa!”. Foi mesmo.

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