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O xingamento a Zuñiga revela um Neymar mais humano

O Brasil fez uma péssima partida contra a Colômbia, o que significa dizer que Neymar esteve mal. E esteve mesmo. Perdeu bolas que não costuma perder, não teve ideias tão claras em campo e ainda estava irritadiço ao extremo. E dá para elencar uma série de possíveis razões para isso: os problemas fiscais na Espanha, o futebol débil da Seleção, o reencontro com Zúñiga em jogo oficial, o desgaste da temporada, a força do adversário, as arbitragens ruins, a marcação exageradamente dura que recebe ou apenas uma noite pouco inspirada. Criticar a atuação do camisa 10 brasileiro é fácil e sobram argumentos, mas a discussão com Zúñiga no meio da partida não é um deles.

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Uma câmera do Canal Plus espanhol, que acompanhou os movimentos de Neymar, flagrou um bate boca do brasileiro com Zúñiga. Pelas imagens (não há áudio), o jogador do Barcelona reclama do colombiano e parece dizer, em espanhol, “depois você me liga para pedir desculpas, filho da puta”. Pronto, foi o ponto de partida para dizerem que ele não sabe perder, que só sabe reclamar, que é mal educado, que é mimado, que ele mentiu ao dizer que havia perdoado o colombiano, que ele isso, que ele aquilo.

Claro que um craque deve superar os obstáculos que qualquer defesa lhe impuser, como provocação e marcação ríspida. E ele pode ser criticado caso o adversário consiga desestabilizá-lo. Mas o xingamento em si, remetendo ao infeliz encontro com Zúñiga nas quartas de final da Copa do Mundo, não tem nada de condenável.

Ele reclamou de forma agressiva e soltou um palavrão. Como todos os jogadores fazem diversas vezes durante qualquer partida. Neymar não usou termo racista, xenófobo, homofóbico ou com qualquer outro tipo de preconceito, tampouco atacou a filha do lateral colombiano (como alguns torcedores brasileiro fizeram ano passado). Foi um xingamento comum de jogo, e, de tão comum, não significa também que ele tenha mentido quando perdoou Zúñiga. Ele pode perfeitamente ter perdoado, mas se irritou com alguma dividida e reclamou.

Tente-se colocar alguns segundos no lugar de Neymar. Você perdoa o cara que te deu uma joelhada nas costas durante a Copa do Mundo na sua casa e o tira do resto do torneio. Mas, no segundo encontro, você recebe uma entrada mais dura dele. É muito difícil manter a serenidade, ainda mais com tantos outros problemas ao redor. O xingamento é humano. Eu já fiz isso. Você já fez isso.

A única diferença dessa discussão de tantas outras é que um dos protagonistas é seguido por uma câmera durante os 90 minutos. Se houvesse uma em Filipe Luís, outra em Murillo, e mais uma em Thiago Silva, certamente surgiriam mais imagens de atletas disparando palavrões para colegas. Jogo jogado.

Criticar Neymar por isso é exagero, é procurar defeitos em qualquer coisa.E nem precisava fazer tanta força, pois o camisa 10 do Brasil deu vários motivos. Jogou mal e foi expulso corretamente. Pronto, já há elementos para uma avaliação negativa sobre sua participação na derrota brasileira. Senão, deixa de ser crítica. Vira perseguição barata. E de perseguição boba o país já está cheio.

Neymar, muitas vezes, é acusado de ser excessivamente marqueteiro, de se preocupar apenas com a imagem. O xingamento a Zuñiga revela um sujeito normal, que se irrita, que tem dias ruins. O xingamento a Zuñiga revela um Neymar mais humano – e haja humanidade na partida contra a Colômbia…

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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