Mesmo presente no estádio, José Richard Gallego passa os 90 minutos dando as costas ao campo. É o único em meio à multidão que, de longe, parece ignorar o que acontece no gramado. Entretanto, é impossível encontrar alguém que esteja acompanhando o jogo de maneira tão frenética. A intensidade da peleja passa por suas mãos, através de um pedaço de tábua ou de cartolina. Ele sente a bola que rola, os jogadores que correm, o árbitro que apita, a que canta. E, como os outros nas arquibancadas, torce, mesmo sendo portador da Síndrome de Usher, que o deixou totalmente surdo aos nove anos e tirou quase toda a sua visão aos 15. Vibração que se torna possível graças a César Daza, aquele que empresta olhos e ouvidos a José Richard. Que, em quatro mãos, se torna uma só pessoa ao lado do rapaz.

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A história fantástica só pode ser contada através do anjo da guarda. Sim, anjo da guarda, porque não há outro termo que possa definir melhor seu intérprete nas arquibancadas. Os colombianos se conheceram em 2014, quando César atuava voluntariamente em um centro de assistência a pessoas surdo-cegas. Tornaram-se amigos. E, enquanto José Richard frequentava a Fundação Sem Limites, criada por César para ajudar na comunicação de surdos e cegos, os dois passaram a compartilhar constantemente uma paixão em comum: o futebol. Não há barreiras para que sintam os jogos juntos – nem sentidos e muito menos as cores do coração.

Torcedor do desde a infância – atraído, na época em que ainda enxergava perfeitamente,  pelo azul da camisa – José Richard se frustrava por não poder acompanhar os jogos da melhor maneira. “Na minha casa, era impossível seguir uma partida. Sempre gostei do Millonarios, mas não havia quem narrasse para mim. Sempre me sentia muito triste, muito desiludido”, contou o rapaz, em entrevista ao jornal El Tiempo.

Foi quando José Richard propôs a César uma nova linguagem futebolística. Uma narração feita pelo tato. E o amigo, torcedor justamente do rival , aceitou o desafio. Durante a Copa de 2014, foi o intérprete de uma partida da seleção colombiana ao amigo surdo-cego. Por meio de uma tábua, exprimiu o que aconteceu dentro de campo. Cada mão de César se transformou em um time, mas também relatou o que se via e o que se ouvia do árbitro, dos técnicos, das torcidas nas arquibancadas.

“Ele desejava sentir uma partida de futebol e me propôs que eu descrevesse o jogo através de uma tábua. Ainda que para mim, a princípio, pareceu uma ideia maluca, José Richard me ensinou como fazer. A tábua simulava o campo, minha mão esquerda era uma equipe, a direta era outra. Assim fomos criando uma linguagem para identificar o cartão amarelo, o vermelho, as faltas e o que mais fosse. Chegamos a acordos e fomos aperfeiçoando a técnica para interpretar toda a partida”, contou César, em entrevista ao site da Univisión.

Depois de diversas partidas assistidas de casa, José Richard seguia inquieto. Ainda achava que a sua experiência não estava completa. Queria sentir de perto o calor e a vibração das torcidas, o cheiro do estádio, sentar no concreto. E, no último mês de julho, realizou o sonho de ir pela primeira vez a um estádio. César topou a aventura. Juntos, seguiram ao Estádio Metropolitano de Techo, onde atuaria o Tigres, equipe de Bogotá recém-ascendida à elite do , na qual joga um amigo de José Richard. Pelas mãos de César, o surdo-cego pôde absorver toda a alegria pela vitória sobre o Once Caldas. Um intérprete também das emoções inerentes ao futebol.

“Foi espetacular aquela experiência. Não tem preço sentir realmente, através das minhas mãos, a felicidade de uma pessoa que não vê ou não escuta. Eu não saberia descrever esta sensação”, afirmou César, ao jornal El Espectador. Uma conexão explicada por José Richard: “Com a cartolina ou a tábua, eu posso sentir quando as pessoas gritam ou quando pulam, as vibrações me ajudam a compreender e a imaginar o entorno do luga onde estou”.

Faltava acompanhar um clássico, o que aconteceu no fim de agosto. Os amigos foram ao Estádio El Campín, onde Millonarios e Santa Fe disputariam o dérbi de número 291. Por questões de segurança, apenas os torcedores alvirrubros foram permitidos nas arquibancadas. A exceção azul ficava ao surdo-cego, com a camisa de sua equipe. Ao lado de seu intérprete, davam uma lição de convivência e de afeto. Agitado, José Richard se embalava com o jogo por meio da vibração que chegava ao seu corpo e das mensagens transmitidas pelas mãos do intérprete. “Fico encantado em sentir o retumbar dos bumbos”, disse José Richard. Ao final, sobrou o respeito e o sorriso compartilhado, embora a alegria plena fosse apenas de César, com a vitória dos Cardenales por 1 a 0. A ânsia do torcedor do Millonarios por um gol não se completou.

“Quero que saibam que, mais do que uma camisa, o que importa é o respeito por todos. Se a equipe de César ganha, eu o aplaudo, o felicito e o bendigo. Se acontece o contrário, estou totalmente seguro que César vai fazer o mesmo comigo”, analisa José, à Univisión. “César gosta de uma equipe e eu de outra, mas não temos nada um contra o outro. Levamos uma amizade e o que queremos é mostrar a todo mundo”. Uma postura fundamental que levou César de volta às arquibancadas, após anos afastado justamente pela violência entre as barras em Bogotá.

Morador de um bairro humilde de Bogotá, José Richard segue com outros sonhos. Participa de peças de teatro e faz um curso profissionalizante para ser padeiro. Mas não deixa de pensar no futebol além do que acontece em suas mãos. Deseja conhecer Radamel Falcao García e James Rodríguez, para oferecer ânimo à seleção colombiana. Às vésperas da Copa do Mundo, depois de ser acompanhado ao estádio por diferentes veículos da imprensa local, o jovem merece que o seu anseio se complete. Afinal, nenhum outro torcedor cafetero sente as partidas como José Richard. Graças a César, ele inventou uma nova forma de captar a força do futebol.

Abaixo, três produzidos pela imprensa colombiana, que complementam a história de José Richard e mostram como é acompanhar um jogo ao lado do surdo-cego: