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“O Tigres é o México na Libertadores”, e quem diz isso são os próprios clubes do país

“O (nome do clube) é o Brasil na Libertadores”. Quantas vezes você não escutou o clichê no torneio? E quantas vezes não discordou dele? É lógico, cada um tem a liberdade para torcer a quem bem entender. Só que a torcida massiva do país a um compatriota está longe de ser realidade, ainda mais quando há um rival em questão. E não só no Brasil. Ou você acha mesmo que o “River será a Argentina na Libertadores”, com o Boca no coração de metade dos torcedores do país? Esperar pelo apoio generalizado soa como utopia em um continente de rivalidades tão efervescentes, mesmo se for um clube simpático – como o caso do paraguaio Nacional, em 2014. Porém, o que se aplica na América do Sul nem sempre vale do Panamá para cima. E, pelo menos para os próprios clubes, o Tigres é mesmo o México na Libertadores.

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O Tigres abraçou a imagem de representante nacional no espetáculo feito nas arquibancadas do Estádio Universitário especialmente nos dois últimos jogos em casa. Contra Internacional e River Plate, os felinos estenderam um enorme bandeirão do país, assim como outro que dizia: “Somos México, somos Tigres”. Além disso, também soltou balões nas três cores do país antes do jogo e, após a vitória sobre os colorados, a festa nacionalista estava completa com os clássicos mariachis, originários exatamente da região de Nuevo León.

Já nas redes sociais, os próprios perfis dos clubes trataram de apoiar o Tigres. A maioria brincou com a situação, sempre exaltando a representatividade do momento vivido pelos felinos. E o maior sinal disso veio do maior rival, o Monterrey. “Desejamos que hoje sejam parte da história. Êxito, Tigres! Tendo um grande respeito aos rivais”, escreveram. Em retribuição, os auriazuis também enviaram uma mensagem aos Rayados, após a inauguração de seu novo estádio no final de semana.

Tigres_México unido

Obviamente, o que o clube faz não corresponde em uníssono aos seus torcedores. Muitos negaram o apoio ao Tigres, reclamando especialmente da forma como os rivais os trataram durante as recentes finais da Concachampions e nas participações no Mundial de Clubes. Ainda assim, várias outras pessoas elogiaram a postura das redes sociais e não mostraram ressentimento algum aos felinos. O mesmo aconteceu entre os outros clubes, nos quais as manifestações foram mais de endosso do que de repúdio.

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Há, sobretudo, uma consciência sobre a representatividade que o título da Libertadores terá ao México – inclusive entre os torcedores. Será o feito mais importante da história dos clubes locais. Por mais que seja um mero convidado, sem direitos a decidir em casa ou ficar com a vaga no Mundial, o Tigres poderá se consagrar batendo rivais muito mais tradicionais do que os que encontraria na Concachampions. E os felinos levaram muito mais a sério a Libertadores do que seus compatriotas costumam fazer, voltando esforços para o torneio e até mesmo contratando astros para o torneio – no início e também para as fases finais.

Se o título acontecer, será a glória dentro do continente inimigo, no Monumental de Núñez abarrotado, o que simbolizará a ascensão do futebol mexicano nos últimos anos. A Liga MX compete com o Brasileirão em poderio econômico, e está acima do Argentino. A quantidade de talentos revelados no país pode não ser tão grande quanto nos dois gigantes da América do Sul, mas os clubes mexicanos possuem um ótimo trabalho de observação de jogadores, especialmente na Colômbia e na própria Argentina.

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Além do mais, a virtual conquista do Tigres pode reforçar a proposta de quem defende uma Copa Libertadores “das Américas”. Se por um lado os mexicanos enfatizam o potencial dos clubes do norte, por outro a chiadeira contra a presença deles no sul aumentará. Como parece impossível, hoje, que a Conmebol volte atrás na abertura, a unificação parece um caminho mais viável. Há os pontos negativos, como o aumento das distâncias e a quebra de uma tradição cultura do futebol sul-americano. Ainda assim, os ganhos econômicos são inegáveis, com a entrada do mercado dos Estados Unidos. E, para os mexicanos, também a consolidação das marcas na América do Sul. Por isso, a torcida dos clubes pelo Tigres faz todo o sentido.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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