O delírio é verde: Em meio ao dilúvio, a Chape se garante na semifinal da Copa Sul-Americana

Chuva, muita chuva. Praticamente um dilúvio. O que nem sempre ajuda o futebol, no entanto, mais parecia um sinal. Elemento essencial para o épico que se desenrolaria na Arena Condá. Não houve temporal que impedisse a torcida da Chapecoense de lotar as arquibancadas. De presenciar, com seus próprios olhos, a história sendo feita no gramado encharcado. A bola tinha dificuldades de rolar, na pegada batalha contra o Junior de Barranquilla em que as poças viravam trincheiras. Mas quem se importava, quando o banho que a Chape dava também era no placar? Vitória irrefutável do time de Caio Júnior por 3 a 0, suficiente para reverter a derrota por 1 a 0 na Colômbia. Sem divisão nacional há oito anos, agora o Verdão disputará a semifinal da Copa Sul-Americana.
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A derrota em Barranquilla deixou a Chapecoense com sangue nos olhos. E o time da casa partiu para a pressão desde os primeiros minutos. A confiança pela reversão do placar aumentava, apesar dos chutes sem direção. Além de tudo, a sorte do Junior de Barranquilla ainda garantia um pouco de drama. Com asas pintadas nas costas de sua camisa, o goleiro Sebastián Viera foi um anjo para os tiburones ao operar duas defesaças em sequência, aos 10 minutos. Quando não pôde fazer nada, o travessão o salvou aos 23. O jogo dos catarinenses se baseava nas bolas alçadas, diante do campo pesado, que garantia muitos tombos e passes errados. Sobrava raça e pegada entre os dois lados.
A Chapecoense precisava apenas de um pouco de paciência. E a insistência, enfim, foi premiada aos 35 minutos. Bruno Rangel recebeu boa enfiada de Tiaguinho e, apesar das dificuldades no domínio, conseguiu emendar passe cruzado para a pequena área. Na medida para que Ananias aparecesse, completando às redes de carrinho. Um gol que fazia a atmosfera explodir na Arena Condá. Naquele momento, o Verdão garantia ao menos a disputa por pênaltis. Considerando o que Danilo já havia feito contra o Independiente, a esperança era enorme.
Pela superioridade que apresentava, contudo, a Chape tinha bola para querer mais. Assim fez, antes mesmo do intervalo. O segundo gol saiu aos 43, para desafogar qualquer preocupação que ainda houvesse naquela inundação. Viera afastou parcialmente e a bola sobrou limpa, para Gil. O chute rasteiro rolou manso para dentro das redes, sem que ninguém parasse. E o terceiro só não veio nos acréscimos porque Viera se redimiu com uma grande defesa diante de Tiaguinho. O Junior de Barranquilla terminou o primeiro tempo sem uma finalização sequer, contra nove do time da casa.
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Já no segundo tempo, com o placar estabelecido, a Chapecoense pôde se resguardar um pouco mais. Mesmo assim, continuava sendo melhor. Criando oportunidades mais claras, os alviverdes mataram o jogo aos 31 minutos. Gil, outra vez, foi de grande valia. Pegou a sobra e mandou na cabeça de Thiego, que desviou para dentro. Uma noite impecável da Chape, que mal foi ameaçada. Atuação gigantesca do time de Caio Júnior, que soube lidar muito bem com as condições, do campo e do jogo. Entre os que encarnaram o espírito de luta, destaque para Cléber Santana, verdadeiro comandante no meio-campo.
Agora, a Chapecoense aguarda o duelo entre Palestino e San Lorenzo, nesta quinta, para conhecer seu adversário – os argentinos têm vantagem, após a vitória por 2 a 0 no Nuevo Gasómetro. E quem imaginaria que o modesto clube do interior de Santa Catarina poderia figurar entre os quatro melhores de um torneio continental? Chapecó irá se incendiar nas próximas semanas, porque o caldeirão da Arena Condá é uma virtude evidente. Se a população já abraçou o clube há tempos e demonstrou enorme apoio nesta quarta, o envolvimento deve se aumentar. Empolgação inescapável, diante de uma realidade que pareceria insana anos atrás. E ainda parece.
O que soa como façanha, no fim das contas, é fruto de um trabalho muito bem estruturado ao longo da última década. Acesso na Série D em 2009, na C em 2012, na B em 2013. Do passo maior do que as pernas, a Chape fincou o pé na elite nacional. Estabilidade na primeira divisão que evoluiu à ameaça ao River Plate na Sul-Americana do ano passado. Não deu para se classificar, mas nem por isso os alviverdes despertaram de seu devaneio. Um ano depois, lavam a alma com a sonhada vaga nas semifinais. O dilúvio abriu os céus na Arena Conda. E o encanto, que parece não ter fim, acaba rendendo uma das histórias mais encantadoras do futebol brasileiro nas últimas décadas.
⚽️ Quem segura a Chape na #SulAmericanaFOXSports? Veja os gols da classificação dos catarinenses para a semifinal do torneio. pic.twitter.com/xDKBO1fVPT
— FOX Sports Brasil (@FoxSports_br) 27 de outubro de 2016



