América do Sul

O Chile segue entre os favoritos, mas precisa aprender com o sufoco da estreia

O clichê é velho, mas muitas vezes se cumpre. Fazer a estreia em um campeonato está longe de ser uma questão simples, ainda mais se houver a exigência da torcida que lota o estádio. E o Chile sentiu a pressão no cangote nesta quinta-feira, na abertura da Copa América de 2015. La Roja esteve longe de fazer um jogo brilhante e não empolgou muito a multidão que encheu o Estádio Nacional de Santiago. Mesmo assim, fez o suficiente para vencer o Equador por 2 a 0, vivendo momentos de sufoco ao longo dos 90 minutos. Serviço feito e três pontos garantidos, o time de Jorge Sampaoli tira um peso das costas. Mas terá também que aprender com a experiência e fazer acontecer nas próximas rodadas.

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Quem esperava o Chile intenso do fim das Eliminatórias e da Copa de 2014 se frustrou. Por mais que a escalação mantivesse os mesmos jogadores, que a torcida tenha dado uma força extra com o hino cantado à capela e que o primeiro minuto já tenha contado com um belo cartão de visitas, em jogada perigosa de Alexis Sánchez, os chilenos estiveram longe de seguir a cartilha tradicional de Sampaoli. Muito pelo contrário, a equipe pareceu burocrática, com muitas trocas de passes, poucas infiltrações e raras finalizações. Sánchez era um dos poucos que chamava a responsabilidade e se movimentava, mas não teve a mesma sintonia dos companheiros. Faltava a pressão e a verticalidade dos melhores momentos do time.

Pior, o Chile também dava espaços às costas de sua defesa. E o Equador fazia o jogo que queria. Com uma defesa sólida, El Tri podia ameaçar nos contra-ataques e aproveitar a velocidade de seus homens de frente, entre eles Enner Valencia, Jefferson Montero e Miller Bolaños. Não foram poucas as vezes em que Claudio Bravo precisou sair do gol. E fez a defesa mais importante do primeiro tempo, em uma saída de bola errada de seus companheiros. Enquanto isso, os poucos chutes da Roja não obrigavam Domínguez a trabalhar.

Marcelo Díaz e Charles Aránguiz ditavam o ritmo do meio de campo, e Valdívia até começou abrindo espaços. Faltava quem os preenchesse. Por isso mesmo, Sampaoli trocou Beausejour por Eduardo Vargas no início do segundo tempo. Só que a substituição na surtiu tanto efeito assim. Os chilenos só puderam respirar mais aliviados aos 22 minutos do segundo tempo, em um pênalti discutível. Arturo Vidal foi puxado dentro da área, mas valorizou na queda. O árbitro Nestor Pitana se ateve ao início do lance e marcou. E o próprio meio-campista converteu, tirando do alcance de Domínguez.

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A torcida chilena, que costuma ser muito barulhenta, parece ter se contaminado com o ritmo do time e com o frio que tomava a atmosfera em Santiago. De certa forma, permitiu aos equatorianos se sentirem mais à vontade para tentarem buscar o resultado. E o empate não saiu por centímetros, em um problema crônico da defesa chilena há tempos. Em bola alçada na área, Enner Valencia subiu mais que a zaga e carimbou o travessão. O alívio pelo quase que não aconteceu acabou complementado instantes depois, em um erro da zaga que permitiu o segundo gol da Roja aos 39 minutos. Sánchez aproveitou o péssimo recuo e deixou Vargas na cara do gol, para fechar a conta.

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O Chile permanece como forte candidato a chegar longe na Copa América. Até porque, se terminar na primeira posição do Grupo A, só deve ter pelo caminho um entre Argentina, Uruguai, Brasil e Colômbia. E o desafio que, em teoria, seria o mais difícil desta primeira fase já ficou para trás – com o Equador mostrando as credenciais para o segundo lugar da chave. Contudo, a Roja precisa tratar esse duelo contra os equatorianos como um aprendizado. Especialmente, diante daquilo que os chilenos não fizeram, e que têm muito potencial para fazer.

O time de Sampaoli possui boas doses de qualidade técnica, principalmente em Alexis Sánchez e Arturo Vidal. Mas não pode depender da individualidade. O diferencial do Chile nos últimos meses era exatamente a forma como partia à jugular do adversário – como eliminou a Espanha e ameaçou o Brasil na Copa, além de ter encantado nos meses anteriores. Mais do que trabalhar a bola, a equipe tem que ser incisiva com ela, e mais faminta sem ela. Algo que não se viu nesta quinta. Nos próximos dias, os chilenos precisam ter consciência do que fazer para recuperar essa força coletiva, passando longe da burocracia da estreia. E, com a pressão inicial deixada para trás, aproveitar assim todo o potencial de ter o apoio de uma massa fanática para embalar na competição.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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