América do Sul

O adeus de Gareca demarca o fim de uma história muito especial à seleção peruana

Gareca encerrou sua passagem de sete anos à frente da Blanquirroja, sem chegar a um acordo para a renovação de seu contrato

A seleção peruana encerrou um dos capítulos mais importantes de sua história na última sexta-feira. A federação do país anunciou que Ricardo Gareca não será mais o técnico da Blanquirroja. Após a eliminação dos peruanos na repescagem da Copa do Mundo, os dirigentes queriam reduzir o salário do comandante na renovação de seu contrato. O veterano não aceitou um decréscimo salarial na casa dos 40% (de US$3,7 milhões anuais para US$2,2 milhões anuais), bem como uma diminuição no número de integrantes de sua comissão técnica, e preferiu deixar o posto. Apesar do atrito no rompimento, fica uma história de carinho e redenção ao redor dos Incas. Gareca é daqueles personagens que sempre serão recebidos de braços abertos no país, ao recolocar a equipe nacional de volta ao Mundial após 36 anos de ausência.

Em seu comunicado oficial, a federação peruana ainda deixou expressa a gratidão a Gareca: “A Federação Peruana de Futebol agradece profundamente ao professor Ricardo Gareca e toda a sua equipe de colaboradores pelos mais de sete anos de trabalho com nossa seleção absoluta, que com notável profissionalismo e muita entrega, soube conseguir conquistas esportivas, confiando nas fortalezas e capacidades de nossos selecionados; por isso, nosso reiterado e sincero agradecimento ao Professor Gareca e sua equipe, desejando a eles o melhor dos êxitos profissionais e pessoais”. Através das redes sociais, diversos jogadores também se manifestaram em agradecimento ao comandante.

Gareca ainda voltará ao Peru para realizar uma coletiva de imprensa nesta terça-feira, em evento desde já cercado de expectativas pela emoção. Já em suas redes sociais, El Tigre foi suscinto: escreveu a palavra “agradecido”, com a bandeira do Peru, na legenda de uma fotografia em preto e branco pela seleção. Não existem mesmo tantas palavras para dimensionar a sua representatividade para os Incas.

Gareca permaneceu sete anos à frente da seleção peruana. Como jogador, possuía um histórico peculiar contra a Blanquirroja, ao marcar o gol que tirou a equipe (e classificou a Argentina) da Copa de 1986. Já como treinador, vinha de um trabalho curto à frente do Palmeiras, mas tinha o respaldo de uma vitoriosa passagem pelo Vélez Sarsfield, em que conquistou três vezes o Campeonato Argentino. Além disso, já tinha trabalhado no próprio Campeonato Peruano, campeão do Apertura em 2008 à frente do Universitário. Chegava para substituir Pablo Bengoechea, que permaneceu durante quatro anos como assistente de Sergio Markarián na Blanquirroja, mas que só durou um ano no cargo principal. A partir de então, o rumo dos Incas se transformaria.

Contratado em fevereiro de 2015, Gareca tinha como primeira missão a Copa América. E o histórico de boas campanhas recentes do Peru foi preservado, com a caminhada até as semifinais, que rendeu a medalha de bronze. O grande desafio, ainda assim, estava nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. A ansiedade era enorme, diante do hiato de 32 anos fora dos Mundiais. Gareca não começou bem, com apenas uma vitória nas primeiras seis rodadas. Todavia, foi respaldado pela federação no cargo e, depois do desempenho até as quartas de final da Copa América Centenário (deixando o Brasil pelo caminho), pegou embalo. Os Incas cresceram a partir do fim do primeiro turno do qualificatório e desbancaram favoritos na reta decisiva do segundo turno. O empate contra a Colômbia em Lima valeu a vaga na repescagem.

O que se viu naqueles dois jogos da repescagem, então, foi uma das maiores comunhões de uma população ao redor de sua seleção. Os peruanos apoiaram incondicionalmente o time de Ricardo Gareca, com presença massiva de torcedores na Nova Zelândia e um clima completamente insano em Lima. A classificação de volta à Copa do Mundo estava ratificada. A partir de então, Gareca virava um herói nacional e um cidadão honorário. A Blanquirroja deixou a desejar na Rússia, com a eliminação na primeira fase apesar da vitória final contra a Austrália, mas não era isso que afetava o orgulho dos Incas ao redor da equipe nacional. Foi a deixa para que o argentino renovasse o seu contrato.

A história de Gareca seria maior graças à Copa América de 2019, quando o Peru eliminou o Uruguai e o Chile nos mata-matas, para retornar à decisão do torneio após 44 anos. A derrota para o Brasil não era o complemento desejado, mas também não diminuía o tamanho dos feitos. Porém, as provações voltariam e o filme se repetiria no início das Eliminatórias para a Copa de 2022. Os peruanos só ganharam um de seus primeiros seis jogos. Teve quem duvidasse de Gareca no cargo, mas a Copa América de 2021 garantiu outra sobrevida com a campanha até as semifinais. Seria a chave para que se reerguesse também no qualificatório.

Como tinha acontecido em 2018, o Peru ressurgiu das cinzas nas Eliminatórias de 2022. Parecia fadado ao fracasso e conseguiu superar adversários mais badalados, até se firmar na zona de classificação à repescagem. As vitórias decisivas contra Colômbia e Chile marcaram a recuperação. Porém, o duelo contra a Austrália no Catar não teria o final esperado na repescagem. A Blanquirroja claramente contava com uma equipe mais técnica, mas não apresentou a qualidade aguardada dentro de campo. O jogo se arrastou até os pênaltis, nos quais os Socceroos foram mais precisos. A segunda vaga consecutiva aos Mundiais escapava pelos dedos.

A eliminação diante da Austrália parecia mais circunstancial do que um problema de processo. Dá para criticar os peruanos pela exibição ruim nos 120 minutos. Porém, não é isso que deveria afetar um trabalho muito acima das expectativas feito por Gareca. Olhando no papel, os Incas não possuem um dos cinco melhores elencos da América do Sul, mas apresentaram um nível de competitividade elevadíssimo com o argentino. Na decisão ao redor da renovação, pesaram bem mais os interesses financeiros da federação do que os aspectos esportivos. E, diante de tamanho decréscimo salarial, nada mais natural que Gareca fizesse suas malas. Ao todo, foram 41 vitórias e 19 empates em 96 jogos, com 135 gols marcados e 124 sofridos.

Será difícil de acreditar que, com essa redução salarial, o Peru consiga um treinador tão qualificado quanto Gareca. O argentino estava totalmente aclimatado ao ambiente da seleção e tinha uma ótima relação com os jogadores. Isso terá que ser reconstruído do zero, e não será fácil encontrar alguém que se encaixe tão bem. Por outro lado, Gareca tem força para conseguir um bom emprego nos próximos meses. Aos 64 anos, não é o treinador mais jovem, mas pode ser uma boa solução a clubes e também seleções. Não surpreenderia se assumisse algum time tradicional da América do Sul ou então uma equipe nacional de qualquer continente.

E o que fica é uma relação que não se apagará. Quando se aposentar, Gareca poderá muito bem viver em Lima se assim desejar, que será tratado feito um rei. Pode até mesmo ser um potencial consultor da federação peruana no futuro, quando as rusgas atuais estiverem curadas. Poucas mentes do futebol conhecem tão bem o futebol peruano e sabem extrair o melhor do contexto local. A identidade dos Incas é também representada pelo argentino. Gerou uma explosão incrível em 2017 e, por tudo aquilo que permitiu, terá um lugar cativo no coração daqueles que há sete anos o consideram um compatriota.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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