Neymar decide sozinho, mas não pode ser o único recurso do Brasil

Os primeiros lances de jogo foram uma espécie de síntese do que viria nos 90 minutos seguintes: a Seleção deixando a desejar e Neymar chamando a responsabilidade para si para dar ao time o resultado. O 2 a 1 suado sobre o Peru poderia ter sido mais fácil se houvesse uma equipe com um leque amplo de opções ofensivas, mas ao Brasil parecia restar apenas seu maior craque como arma para atacar. Para o alívio de Dunga, que até aos 46 minutos do segundo tempo via o empate complicando a situação no Grupo C, o camisa 10, que já havia inaugurado o placar, acertou um passe de rara felicidade para Douglas Costa, que desempatou e deu ao time os três pontos na estreia da Copa América.
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Logo nos primeiros instantes de um jogo oficial após a Copa do Mundo do ano passado, o fantasma brasileiro da última competição voltou a assombrar o time: o caos defensivo. David Luiz se atrapalhou todo e, pressionado por Guerrero, deixou Jefferson na fogueira. O goleiro afastou como pode, mas a bola caiu nos pés de Cueva, que bateu forte e fez 1 a 0 com apenas dois minutos de jogo. Como se tivesse se “irritado” com a falha dos colegas, Neymar pegou a bola com atitude aos quatro minutos, começou a jogada pela esquerda e apareceu dentro da área para completá-la, cabeceando após ótimo cruzamento de Daniel Alves e empatando em 1 a 1.
Ainda no primeiro tempo, parecendo tão leve quanto poderia estar e buscando a bola o tempo todo, Neymar ainda encontrou espaço para demonstrar qual será sua postura diante de quem tenta inibir seus lances de genialidade. O chapéu duplo em Advíncula, que o parou com falta, foi o toque de improviso e arte do jogador do Barcelona na partida. É isso o que ele faz, independentemente do placar -que marcava 1 a 1 ainda, por sinal. Se há quem não goste, há muito mais pessoas que apreciem a habilidade do atacante, que também entrega resultados práticos para quem se importa apenas com isso.
No desenho tático, Neymar aparecia como o ponta esquerda do tridente de armadores atrás de Diego Tardelli. Na prática, no entanto, o craque tinha toda a intermediária como seu campo de atuação, seja por sua impossibilidade de ficar restrito a apenas uma área do gramado ou pela necessidade brasileira de que se apresentasse em outras partes. Iniciar e definir jogadas foi prática comum de Neymar na partida deste domingo, em que foi responsável por seis das 16 finalizações brasileiras. Quando não era ele quem mandava a gol, seu passe servia algum companheiro para que o fizesse.
Aos 23 anos, Neymar tornou-se o jogador mais jovem a alcançar 44 gols pela seleção brasileira. Pelé alcançou a marca aos 24 anos. [via @2010MisterChip]
No primeiro tempo, por exemplo, o capitão conduziu o time em um contra-ataque em que o Brasil tinha superioridade numérica. Esperou o melhor momento para rolar para Tardelli, que furou o chute. A bola ainda sobrou para o camisa 10, mas a zaga peruana interveio e evitou a virada no fim da primeira etapa. No segundo tempo, Douglas Costa ganhou duas chances de ouro dos pés do craque. Na primeira delas, encobriu o goleiro Gallese, mas viu a bola sair pela linha de fundo, rente à trave esquerda. Já na segunda, após um passe em diagonal que viu em seu caminho seis peruanos, incapazes de fazer qualquer coisa, o atleta do Shakhtar Donetsk sabia que não poderia desperdiçar. Não àquela altura, aos 46 do segundo tempo. A finalização baixa, entre o arqueiro e a trave, deu números finais ao duelo.
Neymar deu show, criou e definiu jogadas, impressionou esteticamente e influenciou diretamente no resultado. Levou o Brasil à vitória. Se por um lado é bom saber que o maior craque do time desenvolve ainda mais seu protagonismo, em um ritmo impressionante, por outro é um problema para Dunga que sua equipe seja tão dependente do camisa 10. O craque do Barcelona provou inúmeras vezes que pode decidir sozinho, mas a equipe precisa encontrar variações de jogadas que envolvam outros nomes do setor ofensivo. Elias, titular, por exemplo, não pode ter uma atuação tão nula quando seu papel é propor o jogo. Neymar é um diferencial, e seu potencial é ainda maior quando cercado por peças que funcionam.



