‘Se o futebol fosse boxe, o Brasil já teria dois semifinalistas na Libertadores’
O desequilíbrio era tão grande, o massacre tão evidente, que nos confrontos envolvendo o Palmeiras e o Flamengo o juiz teria parado a luta
Se o futebol fosse boxe, o Brasil já teria dois semifinalistas na Libertadores. O desequilíbrio era tão grande, o massacre tão evidente, que nos confrontos envolvendo o Palmeiras e o Flamengo o juiz teria parado a luta.
Bem, os flamenguistas podem argumentar que, em vez disso, o juiz na quinta-feira achou uma maneira de ajudar o adversário a ficar de pé. E realmente houve um grande erro da arbitragem. Mas quando Plata foi injustamente expulso, o segundo tempo já estava na reta final, e o jogo estava outro. Porque o futebol não é boxe. Um esporte individual traz com si uma gama limitada de variações.

Já um esporte coletivo, onze contra onze, com direito a cinco substituições — aí as opções são muito maiores. E foi impressionante, na semana passada, a maneira que os técnicos rivais mudaram os seus times, alterando conceitos de espaço, para assegurar que os próximos dias estão cheios de jogos tensos, com as definições ainda incertas.
O técnico do River Plate, Marcelo Gallardo, gosta de abrir o campo, avançando com um par de laterais ofensivos. Mas a qualidade do Palmeiras coloca uma pergunta: como equilibrar a vontade de atacar com a necessidade de defender? Resposta — linha de três zagueiros, mais dois volantes para oferecer proteção. Resposta errada — como mostrou claramente o primeiro tempo em Buenos Aires.
Na prática, o time inicial do River não funcionou nem um pouco. As distâncias entre as linhas eram grandes. O Palmeiras achou espaço para elaborar, e ter três zagueiros não adianta nada se o rival é capaz de tirar os três com um passe.
Solução — mudar no intervalo para uma linha de quatro, efetivamente trocando um zagueiro por um meia habilidoso. Parece que o time vai ficar mais vulnerável ainda. Mas não. Fica mais compacto, domina a posse, e quando perde a bola tem jogadores suficientes por perto para impedir o contra-ataque na fonte. Uma mudança que transformou o jogo.
No dia seguinte, no Rio, o Estudiantes de Eduardo Dominguez pareceu muito perto de levar o nocaute, nas cordas, depois de sofrer dois gols dentro dos primeiros dez minutos. E poderia ter levado muito mais antes do intervalo.

O Flamengo marcou depois de 15 segundos. A ideia do Estudiantes é defender com muita compactação, negando espaço na frente da zaga. Cedeu no primeiro ataque porque, assustado com o bicho feio, a linha da defesa recuou demais, permitindo a elaboração de uma jogada que resultou em gol.
No início, então, um problema psicológico. Mais duradouro foi o problema tático. O Estudiantes tratou de se aplicar a seus deveres de marcação — mas com Plata levando o lateral esquerdo por dentro, criou uma avenida pelos avanços de Varela, que logo custou o segundo gol e ameaçou outros.
A solução de Eduardo Dominguez — no intervalo, ele colocou um jogador aberto no lado esquerdo somente para bloquear o espaço de Varela. Quem diria — o lateral direito uruguaio foi identificado no intervalo como a peça a ser anulada. E deu certo. O Flamengo nunca mais conseguiu chegar com o mesmo perigo. Não foi uma mudança tão radical do sistema — foi mais um ajuste para lidar com uma ameaça imprevista.
Pode-se argumentar que o Flamengo deveria ter reagido. Para a entrada de Benedetti, o ala esquerdo, o Estudiantes tirou Piovi, um volante. Teria mais espaço na faixa central do campo, mas com Saúl machucado e De Arrascaeta substituído, faltou um jogador para dar mais calma e controle neste setor.
Dentro da sua simplicidade, o futebol, ainda bem, é muito mais complexo que o boxe. E, claro, menos violento. Embora o torcedor neste semana de definições na Libertadores esteja correndo o risco de um nocaute emocional.




