Libertadores

Como o São Paulo deu respaldo para seu jogador muçulmano durante o Ramadã

Clube criou rotina especial de alimentação e hidratação para o volante senegalês Iba Ly

De 11 de março até o último dia 9 de abril, muçulmanos espalhados por todo o mundo seguiram à risca o jejum do Ramadã, período sagrado que remete ao nono mês do calendário islâmico e é um dos pilares da religião. Durante 30 dias os religiosos se abstêm de comer, beber, fumar e ter relações conjugais do nascer ao pôr do Sol. E no São Paulo, o senegalês Iba Ly teve todo o respaldo interno para cumprir esta rotina tão representativa para a sua fé.

O jovem recebeu apoio e foi assistido pelo clube para poder seguir as doutrinas de sua religião durante este período, sempre com acompanhamento médico, fisiológico e das nutricionistas Gabriela Giglio e Jaqueline Guedes. O clube criou uma rotina especial de alimentação, hidratação e suplementação para Iba Ly.

Promovido no início do ano após se destacar na Copa São Paulo de Futebol Júnior, o volante ainda mora no CT da Barra Funda — o que facilitou o acompanhamento dos profissionais do clube. Ele fazia as suas refeições reforçadas no período da noite, já prevendo o desgaste e as exigências físicas da rotina de treinamentos. O relato ouvido pela Trivela é de que o jogador seguiu o jejum tão à risca, que sequer ingeria água ou isotônicos durante as atividades.

Especialistas em nutrição afirmam que é possível adaptar as dietas e cuidados com a alimentação durante o Ramadã para garantir que os atletas não tenham prejuízos físicos com as rotinas de treinamentos. Por óbvio, o jejum apresenta desafios importantes aos atletas, especialmente por representar a quebra no ciclo circadiano (conhecido como relógio biológico), que regula as principais atividades no organismo, seja o metabolismo, períodos de sono e a produção de hormônios.

Para evitar consequências graves como a desidratação e a deficiência de vitaminas, nutrientes e minerais necessários para a saúde e o desempenho, a dieta deve ser feita sob acompanhamento de nutricionistas. Um estudo da Fifa, de 2012, apontou que não houve problemas bioquímicos, nutricionais, de bem-estar subjetivo ou de desempenho em jogadores que faziam o jejum em um ambiente controlado, no entanto, o estudo não incluiu atletas de elite e não mediu o desempenho do jogo.

O que é o Ramadã?

A fé muçulmana é construída com base em cinco pilares, e o Ramadã é um deles. Trata-se de um período sagrado que remete ao nono mês do calendário islâmico. Conforme a tradição islâmica, foi nesta época que o Arcanjo Gabriel entregou os primeiros versos do Alcorão ao profeta Maomé.

Durante esse período, muçulmanos ao redor de todo o mundo se abstêm de comer, beber, fumar e ter relações conjugais do nascer ao pôr do Sol. Qualquer forma de alimentação, seja líquida ou sólida, só pode ser ingerida à noite. Em 2024, o Ramadã começou em 11 de março e durou até o dia 9 de abril. Além de jejuar, os muçulmanos leem o Alcorão, o livro sagrado do Islã, e realizam orações diárias para se livrar dos pecados.

— O Ramadã é o quarto pilar da fé muçulmana, então é algo muito importante para a religião. É um mês inteiro no qual os muçulmanos têm que observar o jejum, que significa não se alimentar do nascer ao pôr do sol, e, dependendo do rigor, mesmo beber água é algo que deveria ser evitado. É uma forma de se conectar com Allah e de refletir acerca da sua condição como muçulmano. O jejum tem essa função. Para os muçulmanos, principalmente os mais praticantes, é algo muito, muito importante na vida deles — explicou Tanguy Baghdadi, professor de política internacional, em entrevista recente à Trivela.

Não é apenas Inglaterra: Eredivisie, liga da Holanda, também permite paralisações para quebra do Ramadã. Na foto, o zagueiro Redouan El Yaakoubi, holandês de descendência marroquina (Foto: Icon Sport)

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Ligas ao redor do mundo criam adaptações para o Ramadã

A Premier League instituiu desde o ano passado uma pausa em seus jogos para que atletas muçulmanos possam se alimentar em jogos noturnos durante o período do Ramadã. O exemplo também foi seguido pela Eredivise, a primeira divisão da Holanda. Outras ligas, como a Ligue 1, da França, e a Serie A, na Itália, não têm protocolos neste sentido.

França proibiu ramadã em seleções de base

Na França, aliás, a situação ainda é mais grave. A Federação Francesa de Futebol (FFF) adotou um cronograma quase que escolar para todas as categorias de seleções. Os atletas devem seguir horários estabelecidos para as atividades diárias, incluindo os períodos de alimentação, e não há brecha nisso, nem mesmo para atletas muçulmanos. Ou seja: para defender a seleção francesa, jovens islâmicos devem abdicar do jejum.  Com isso, o meio-campista Mahamadou Diawara, muçulmano descendente de malineses, abandonou o time sub-19 do país na última semana e reacendeu uma polêmica sobre liberdade religiosa e intolerância na França, país com o maior número de islâmicos no mundo ocidental.

> Os próximos jogos do São Paulo

  • Barcelona-EQU x São Paulo — Libertadores — quinta-feira, 25 de abril, às 21h (horário de Brasília) — Transmissão: ESPN (TV fechada)
  • São Paulo x Palmeiras — Brasileirão — segunda-feira, 29 de abril, às 20h (horário de Brasília) — Transmissão: Premiere (TV por assinatura)
  • Águia x São Paulo — Copa do Brasil — sem data e horário definidos — Transmissão: a definir
Foto de Eduardo Deconto

Eduardo DecontoSetorista

Jornalista pela PUCRS, é setorista de Seleção e do São Paulo na Trivela desde 2023. Antes disso, trabalhou por uma década no Grupo RBS. Foi repórter do ge.globo por seis anos e do Esporte da RBS TV, por dois. Não acredite no hype.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo