Libertadores

Libertadores nasceu como Champions latina, mas ficou longe do charme e equilíbrio europeu

A 66ª edição do torneio começa na próxima semana, mas já imagino a final brasileira em 29 de novembro

O Manchester City não estava contando com uma disputa com o Real Madrid ou Bayern de Munique para um lugar nas oitavas da Champions League. Mas, no geral, os grandes clubes conseguiram o que estavam querendo do novo formato da competição — que, podemos concluir, trata-se de mais jogos com menos chances de ser eliminado cedo.

Aumentou a quantidade de jogos (de 96 para 144) para ter mais ou menos o mesmo resultado, com o bônus adicional da rede de segurança de uma rodada de playoffs.

Sem grandes zebras, então. Os oito clubes já garantidos na próxima fase vêm exatamente dos “big five” — Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França, as cinco maiores ligas do continente.

E os 16 clubes que vão para os playoffs também são dessas ligas, com alguns agregados de Holanda, Portugal, Escócia e Bélgica. Ou seja, todos da Europa ocidental. Parece que o lado de leste não existe mais. Uma situação, obviamente, ampliada com o banimento dos times da Rússia.

Uma região domina a Liga dos Campeões, mas, felizmente, não um país. A graça da disputa vem do conflito entre os grandes da Espanha e Inglaterra, com Itália e Alemanha fortes também, e Paris Saint-Germain sempre com ambições. O protagonismo é dividido — uma situação bastante diferente da atual na Copa Libertadores.

Na semana que vem, se inicia a taça número 66 da versão sul-americana da Liga dos Campeões. E dá para chamar assim porque a Libertadores nasceu em 1960 com uma resposta explícita para o torneio europeu, formado cinco anos antes.

Antes que a bola role, não sabemos quais times vão disputar a final, mas dá para chutar que um deles, e provavelmente os dois, vão ser do Brasil. Clubes brasileiros conquistaram as últimas seis edições do torneio — uma dominação inédita — e em quatro das finais, o adversário também era brasileiro.

O que explica a dominância brasileira na Libertadores?

Uma sequência de fatores: os clubes estabelecendo a Libertadores como prioridade, que nem sempre acontecia no passado. Tem o óbvio, que é o novo dinheiro entrando no futebol brasileiro nos últimos 15 anos. Clubes brasileiros olhando como nunca antes para os países vizinhos para contratar jogadores, um movimento que fortalece o Brasil e enfraquece os outros.

E também o crescimento da Major League Soccer nos Estados Unidos, que contrata muitos jogadores sul-americanos, mas dentro disso, assustado com os preços, olha menos para o Brasil.

E a consequência é uma Libertadores que acaba duplicando a Copa do Brasil.

Tem volta? A gente aguarda as consequências na Argentina. A história sugere que a moeda tão valorizada não é sustentável. Além disso, claramente vão ter conflitos por lá sobre a maneira de administrar clubes de futebol. Com investimentos para o Mundial de Clubes, será que River e Boca vêm mais fortes este ano? Veremos.

Com um trabalho excelente nas categorias de base, o Equador vem carregando um saco acima de seu peso, e o futebol paraguaio é capaz de produzir times que coletivamente valem mais do que a soma de suas partes.

E sempre tem a possibilidade de um ano especial de um time, como aconteceu no ano passado com o Peñarol de Uruguai, que conseguiu eliminar o Flamengo. Poucos anos atrás, teria sido normal. Agora, as distâncias financeiras abriram tanto que virou uma façanha quase inacreditável.

Estamos, então, fadados a ter um domínio de um país só para sempre? Sei que muitos brasileiros vão comemorar, mas não tem como manter o charme do torneio sem uma dose saudável de imprevisibilidade.

Uma saída possível seria um torneio pan-americano, incluindo os mexicanos e os times da MLS. Mas o caminho está cheio de obstáculos. Os problemas logísticos seriam enormes, e já estamos lidando com um excesso de jogos. Por enquanto, então, na terça-feira, quando Monagas de Venezuela e Defensor do Uruguai iniciam a Copa Libertadores de 2025, eu já vou estar imaginando mais uma final brasileira no dia 29 de novembro.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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