Libertadores

Os “de repente” na carreira de Michel, que o levaram do Joga Bonito a uma noite mágica de Libertadores

Uma das virtudes de Renato Portaluppi ao montar o atual time do Grêmio esteve em redescobrir jogadores. O sucesso na conquista da última Libertadores dependeu bastante de veteranos que pareciam ter perdido o rumo da carreira, mas recuperaram o norte com a camisa tricolor. Há casos diferentes, claro. E o volante Michel, por outro lado, tornou-se um achado em meio ao ostracismo de uma carreira modesta. Aos 28 anos, perambulou por clubes do interior e pelas divisões de acesso até virar nome importante no elenco campeão da América. Sua redescoberta, de fato, aconteceu nesta terça-feira. Quando parecia limitado ao coadjuvantismo no elenco, o camisa 5 virou aposta surpreendente para o jogo enorme contra o River Plate. Mais do que isso, herói, ao trancar a cabeça de área e ainda desferir a cabeçada certeira que determinou a vitória no Monumental. O segredo de um grande técnico é saber tirar o melhor de jogadores sobre os quais nem sempre os demais esperam muito. Desta vez, para colocar Michel em um lugar privilegiado na memória dos torcedores do clube.

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Nascido no Rio de Janeiro e criado pelos avós, Michel conhece muito bem os descaminhos que muitos jogadores encaram no Brasil, enfrentando as dificuldades de níveis semi-amadores e a incerteza dos meses sem calendário. Durante a adolescência, chegou mesmo a participar de um reality show para ajudá-lo a se tornar profissional, o Joga Bonito, promovido pela Nike na TV Bandeirantes. Não conquistou o prêmio maior, mas ganhou visibilidade e motivação para seguir em frente. Começou no tradicional São Cristóvão, jogando como armador, e rodou bastante, rechaçado inclusive em testes no Flamengo e no Internacional.

Passou por Porto Alegre, Madureira, Camboriú, Imbituba e Guarani de Palhoça, até ser descoberto pelo ex-atacante Guilherme, então técnico do Novorizontino. Além de contribuir à ascensão do Tigre a partir da Série A-3 do estadual, o destaque no Paulistão de 2016 foi importante ao meio-campista, anotando gols e se sobressaindo em uma equipe que chegou aos mata-matas. Assim, cavou sua transferência ao Atlético Goianiense, já um grande salto para disputar a Série B do Brasileirão.

Emprestado ao Dragão, Michel se tornou um dos melhores do time na campanha acima das expectativas na segundona de 2016. Homem de confiança do técnico Marcelo Cabo, dava equilíbrio na faixa central e impulsionou o clube a não apenas conquistar o acesso, como também a faturar o título com sobras. Poucos meses foram vitrine o suficiente para levá-lo a Porto Alegre. O responsável por fazer a conexão, curiosamente, foi outro herói tricolor na Libertadores: Luis Carlos Goiano. Dirigente do Novorizontino, ele aproveitou sua ligação com o antigo clube para  convencer o Grêmio a buscá-lo como reforço à Copa Libertadores de 2017. Poderia ser apenas um jogador para compor elenco, mas a disposição física e a consistência de seu jogo logo o projetaram para o time titular. Um dos tantos que se beneficiou com o trato de Renato.

Michel foi importante principalmente no início da campanha do Grêmio na Libertadores. Titular em toda a fase de grupos, perderia espaço na reta final, entre as primeiras lesões e a ascensão de Arthur. Não tinha o dinamismo do companheiro, mas apresentava outras características importantes: os lançamentos longos, a precisão nos desarmes, a impulsão. De certa maneira, a longa ausência do capitão Maicon, que passou boa parte de 2017 no departamento médico, não foi tão sentida assim pela participação do carioca. Saiu do banco para ajudar a conquistar o tricampeonato continental, na vitória sobre o Lanús na Argentina, e também acabou assumindo a posição no Mundial de Clubes, embora não tenha ajudado muito nas apagadas atuações gremistas na competição. Além disso, sua boa forma acabou reconhecida com a Bola de Prata do Campeonato Brasileiro, um dos melhores volantes, mesmo com apenas 23 jogos disputados.

Se não é exatamente brilhante, Michel sempre foi eficiente e cumpridor de sua missão. O ano de 2018, porém, guardou um calvário em sua caminhada. Os problemas físicos o afastaram dos gramados por longos meses. Disputou apenas sete partidas no Campeonato Gaúcho. E mesmo com as rotações diante da frente tripla, entre o início da Libertadores e do Brasileiro, além da Copa do Brasil, o meio-campista atuou menos ainda. Em maio, sofreu uma contusão que o deixou no estaleiro a partir de então. Neste intervalo, recebeu uma proposta do futebol árabe, rechaçada para que continuasse em Porto Alegre. O camisa 5 só foi reestrear pela Série A no último final de semana, participando do empate contra o América Mineiro. E eis que, de repente, vira a solução de Renato para encarar o River Plate.

Diante dos desfalques do Grêmio, sobretudo no ataque, era natural que o comandante adotasse uma aproximação mais defensiva. Ainda assim, o plano saiu muito melhor que o esperado ao espelhar o posicionamento do River e travar o time de Marcelo Gallardo no meio-campo. Foi uma atuação fabulosa do tricolor, no sentido de anular as forças de um adversário recheado de bons jogadores e manter a segurança durante os 90 minutos. Michel ajudou a possibilitar isso, reforçando a cabeça de área. Mostrou que o físico está 100%, com muita capacidade nas coberturas, o que impediu os millonarios de fazerem o seu jogo. A garantia que os tricolores precisavam para suportar o desafio.

Pois o iluminado Michel não se limitaria ao papel essencial que desempenhou na marcação. Seu retorno precisava ficar mais em evidência. E aconteceu graças a uma de suas virtudes, a projeção nas bolas paradas. Era o homem certo no lugar certo, para desviar o escanteio no primeiro pau e não dar nem chance de reação a Franco Armani. A comemoração desatada representava não apenas um triunfo imensurável do Grêmio, o mais pesado conquistado pelo clube nestas duas últimas campanhas na Libertadores. Era também a alegria de Renato por seu dedo certeiro. Era a realização pessoal de Michel, depois de tanto empenho, para ser e para voltar.

Independentemente do futuro, este triunfo sobre o River Plate em Núñez serve como marca do período vitorioso que o Grêmio construiu nos últimos anos. Ressalta um time altamente competitivo, que sabe adaptar o seu jogo e atuar de diferentes formas. O “tripé defensivo”, tão primordial em todo o processo, novamente teve uma noite soberba com Grohe, Geromel e Kannemann. Mas há também aqueles que se adaptam à ideia e se impulsionam. Michel talvez não fosse o mais desejado na escalação pelos gremistas, até pela impressão de retranca antes do duelo. Saiu como o mais aplaudido. Como o renascido.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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