Libertadores

A Supercopa de 1991 coroou o Cruzeiro com uma virada inesquecível e marcou uma geração de torcedores celestes

O duelo entre Cruzeiro x River Plate é o que pode ser chamado de clássico continental. As duas equipes já se enfrentaram 15 vezes pelas competições da Conmebol, sendo que sete destas partidas eram finais. A história costumeiramente lembrada é a da primeira batalha, também a mais importante: a decisão da Libertadores de 1976. Foi quando a Raposa inaugurou a freguesia dos millonarios, graças ao lendário gol de Joãozinho no jogo-desempate de Santiago, que botou os cruzeirenses no topo do continente. Todavia, mesmo sem ser tão citado, o segundo encontro dos clubes também possui a sua importância no imaginário da torcida celeste. A Supercopa Libertadores garantiu a segunda taça continental ao Cruzeiro, com direito a uma virada tão saborosa quanto épica dentro do Mineirão.

Embora faça parte de uma coleção de torneios extintos da Conmebol, a Supercopa Libertadores merece ser lembrada como o mais importante destes. A competição criada em 1988 surgiu para preencher o calendário com confrontos de peso. Diferentemente da Supercopa Europeia, a competição sul-americana reunia todos os clubes que já tinham sido campeões da Libertadores desde a criação do certame. Assim, era uma coleção de camisas pesadas se encarando apenas em mata-matas. O Cruzeiro foi o primeiro brasileiro a chegar à final, em 1988, mas perdeu o título para o Racing. Boca Juniors e Olimpia foram os campeões seguintes.

A Supercopa de 1991 contou com 14 participantes – todos os antigos campeões da Libertadores, exceto o Atlético Nacional, que declinou ao convite em meio ao auge do narcofútbol. O Colo-Colo, campeão da Libertadores pela primeira vez semanas antes, já estava integrado. Enquanto isso, o Brasil era representado por Cruzeiro, Flamengo, Grêmio e Santos. O quarteto tentava interromper um incômodo jejum do país além das fronteiras, que perdurava desde 1983. Até por isso, aquele título da Supercopa teria um peso tão especial.

O River Plate foi o carrasco dos brasileiros na Supercopa de 1991. Os millonarios eliminaram o Grêmio nas oitavas de final e também superaram o Flamengo nas quartas, ambos com triunfos nos pênaltis. O Santos até poderia ter se tornado a vítima nas semifinais, não tivesse sido derrubado pelo Peñarol na etapa anterior. Os uruguaios, de qualquer maneira, acabaram trucidados pelos argentinos. Do outro lado da chave, o Cruzeiro fez uma campanha digna de emoções. Além de superar Colo-Colo e Olimpia nos penais, a Raposa se classificou contra o Nacional com direito a uma goleada por 4 a 0 no Mineirão, precedida pela derrota por 3 a 0 no Centenario. O poder de reação que os uruguaios não tiveram foi o que os celestes precisaram apresentar na decisão.

Quinze anos depois, Daniel Passarella tinha trocado a liderança do River Plate em campo para se tornar o técnico dos millonarios. O veterano iniciava a sua carreira como treinador e contava com um time competitivo, que ganhou o título nacional em 1990 e faturaria o Apertura naquele mesmo segundo semestre de 1991. De volta do futebol europeu, o rodado Ramón Díaz era a referência no ataque, de um time que também possuía outros nomes relevantes, como Ángel Comizzo, Hernán Díaz, Ramón Medina Bello e o novato Leonardo Astrada.

O Cruzeiro, por sua vez, era comandado por um dos treinadores mais respaldados do clube na virada dos anos 1990: Ênio Andrade. O veterano estava em sua terceira passagem pela Toca da Raposa, após ter conquistado o Campeonato Mineiro no ano anterior. E tinha um elenco no qual muitos jogadores ficariam marcados, como Adílson Batista, Marco Antônio Boiadeiro, Mário Tilico e Charles Fabian. O lateral Nonato, símbolo cruzeirense ao longo da década, iniciava sua trajetória com a camisa celeste. A principal referência era o volante Ademir, esteio da Raposa a partir de 1986 e dono da braçadeira.

O River Plate poderia ser considerado favorito, por viver uma fase mais relevante no Campeonato Argentino. E a partida de ida, dentro do Monumental de Núñez, reforçou esta impressão. Os argentinos ganharam o primeiro duelo por 2 a 0, com dois gols de bola parada. Guillermo Rivarola abriu o placar cobrando pênalti no primeiro tempo e, já nos instantes finais da etapa complementar, Jorge Higuaín (o pai de Gonzalo) fechou a contagem aproveitando uma saída errada do goleiro Paulo César. O saldo dos cruzeirenses, aliás, nem era dos piores, considerando que os millonarios ainda carimbaram a trave duas vezes.

Apesar da situação difícil, a fé se mantinha para o reencontro no Mineirão. Era o que expressava Ênio Andrade, ao Jornal dos Sports: “É lógico que as coisas ficaram mais difíceis. Mas, com o apoio da torcida, o Cruzeiro tem condições de conseguir o mesmo em Belo Horizonte. Ganhar por três gols de diferença, ou pelo menos dois, para forçar a decisão nos pênaltis, não chega a ser nenhum absurdo. Minha preocupação maior é em relação ao potencial técnico do adversário. O River Plate provou mais uma vez que tem um excelente time”.

A confiança do comandante se notaria nas arquibancadas do Mineirão. Mais de 67 mil torcedores estiveram presentes para empurrar o Cruzeiro. E o time correspondeu, naquela que permanece considerada como uma das maiores atuações celestes nas últimas décadas. Ênio Andrade fez os seus jogadores entrarem com uma vontade tremenda em campo e a equipe aplicou um futebol envolvente, de trocas de passes e muita velocidade nas investidas ao ataque. Embora os dois gols de diferença fossem suficientes para forçar a disputa por pênaltis, os mineiros trabalharam para conquistar a taça no tempo normal: vitória por 3 a 0, de maneira incontestável, em goleada que poderia ser maior.

O primeiro gol saiu aos 33 minutos. Marquinhos cobrou escanteio pela direita e, no primeiro pau, Ademir se antecipou à marcação. Desviou de cabeça, em bola que morreu no canto da meta de Comizzo. Naquele momento, o Cruzeiro impunha uma pressão imensa sobre o River Plate. Dominava a partida no campo ataque e desperdiçava boas chances de antecipar o seu serviço. Os tentos perdidos, contudo, não fariam falta.

Durante o segundo tempo, o herói da conquista despontou: o veloz Mário Tilico. O atacante deixou os cruzeirenses em uma situação confortável aos seis minutos, quando ampliou a diferença. Macalé fez o levantamento e Tilico escorou com o pé direito. O Cruzeiro seguia jogando fora bons lances, até que o tento definitivo saísse aos 29 minutos, com grande contribuição de Charles. O baiano arrancou pela ponta direita e deixou o marcador no chão. Então, quando o goleiro Comizzo saía para abafar, ele rolou para o meio da área e Tilico tinha a meta escancarada para definir. No final, os millonarios ainda tentaram forçar os pênaltis, mas o goleiro Paulo César se redimiu com ótimas defesas para segurar o placar. Consumado o resultado, a Raposa protagonizava uma das maiores viradas das finais continentais.

O apito final desencadeou uma enorme comemoração no Mineirão. Centenas de torcedores invadiram o campo para festejar com seus heróis. O capitão Ademir teve dificuldades até mesmo para erguer o troféu em meio à euforia que se instaurou no gramado. E a celebração iria noite adentro pelas ruas de Belo Horizonte, diante da reafirmação continental do Cruzeiro. Quinze anos depois, contra o mesmo freguês, o time botava o seu nome mais alto além das fronteiras. Foi a taça que inaugurou também a década vitoriosa dos clubes brasileiros nas competições sul-americanas, incluindo a própria reconquista da Libertadores pelos cruzeirenses em 1997.

Em sua coluna no Jornal dos Sports, o cronista Washington Rodrigues (o popular Apolinho) exaltou bastante o futebol apresentado pelo Cruzeiro: “Jogando um futebol bonito, leve, ágil e objetivo, fazendo lembrar o famoso carrossel, o Cruzeiro escreveu uma página gloriosa, resgatando o prestígio do futebol brasileiro e abrindo para todos nós a porta da esperança. Foi fantástico”. Já na imprensa argentina, definiam que o “sonho virou pesadelo”. Exaltavam a atuação cruzeirense, embora também criticassem a incapacidade do River Plate em segurar o resultado e apontassem ao cansaço da equipe.

Já nas arquibancadas do Mineirão, Carlos Alberto Parreira e Zagallo foram dois convidados ilustres. “A atuação do Cruzeiro foi impecável, brilhante. Os argentinos devem ter saído do estádio satisfeitos com o placar, que acabou não refletindo a superioridade do Cruzeiro”, elogiou Parreira, na época já de volta à Seleção. Zagallo complementou: “Olha, foi uma beleza o espetáculo dado pela torcida e isso ajudou o Cruzeiro a vencer a partida e a conquistar o título que antes parecia um sonho. Isso prova que a violência não leva a nada nas arquibancadas. Tem que acabar com esse negócio”.

Mais recentemente, outros heróis relembraram aquela façanha. “O que mais me marcou naquela decisão foi o Ênio Andrade, que acreditou o tempo inteiro. Durante toda a semana, ele conversou com cada um dos jogadores, falou em marcar época, fazer história, mostrou que tínhamos que acreditar, só nós poderíamos reverter a situação. Foram oito dias de concentração total, um jogador incentivando o outro, querendo mostrar a vontade de vencer”, declarou Charles Fabian, ao Superesportes, em 2013. Sua atuação contra o River Plate foi tão impressionante que, no ano seguinte, Maradona pagou do próprio bolso a transferência do atacante rumo ao Boca Juniors – onde não vingou.

“Foram 70 mil torcedores nos apoiando do início ao fim, isso intimidou o time do River e nos deu moral. A cada bola dividida, a cada lance de perigo, nossa torcida se inflamava mais”, complementou Tilico, também ao Superesportes. “Tínhamos um elenco experiente, acostumado a decisões e o grupo era como uma família, nós conversávamos entre a gente para conseguirmos a vitória. Só conseguimos reverter a situação porque nós, atletas, entramos determinados e cientes de que era possível reverter”.

O Cruzeiro se reencontrou com o River Plate na Supercopa de 1992 e eliminou os millonarios na segunda fase. Também venceu seis jogos contra os vizinhos entre 1998 e 1999, quatro deles pela Copa Mercosul, além de dois referentes à Recopa Sul-Americana de 1998. A única classificação do River diante da Raposa aconteceria em 2015, nas quartas de final da Libertadores, com o marcante triunfo dos argentinos por 3 a 0 no Mineirão. O único fantasma em um retrospecto que pende totalmente ao lado celeste.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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