América do Sul

As Eliminatórias Sul-Americanas já foram mais legais e correm risco de virar um estorvo

O formato de pontos corridos rendeu grandes edições às Eliminatórias Sul-Americanas, mas as dúvidas são pertinentes quando até 70% dos times poderão se classificar ao Mundial de 2026

Houve um tempo em que as Eliminatórias Sul-Americanas podiam ser consideradas o melhor campeonato de pontos corridos do mundo – e, se você é leitor antigo da Trivela, talvez tenha se deparado com um texto sobre isso no passado. A competição reunia vários elementos interessantes: tradição, rivalidade, camisas pesadas, alçapões, muitos craques. As Eliminatórias tantas vezes foram mais legais que a própria Copa América, e em nenhuma parte do mundo havia outro qualificatório que mantivesse o nível de tensão do início ao fim. Muitas dessas virtudes continuam presentes, afinal, embora o nível competitivo para se garantir na Copa do Mundo tenha caído um pouco mais recentemente. E as Eliminatórias para a Copa de 2026 começam sob ares de dúvida: será mesmo necessário um torneio tão longo, quando 70% dos times poderão se classificar ao Mundial?

Parte do questionamento se concentra sobre o aumento de vagas para a Copa do Mundo, que afetou todos os continentes. A ampliação do acesso não causa impacto sobre o interesse pelas Eliminatórias em outras partes do mundo, pelo contrário – o qualificatório da África se promete ainda mais empolgante, sem o mesmo nível de risco, mas com mais seleções podendo mirar o Mundial. Na América do Sul, porém, o número de vagas já abarcava mais da metade dos países e se torna ainda maior agora. E nem para a Conmebol tentar se mexer de alguma forma, repensando o formato.

Dá para imaginar alguns problemas que as Eliminatórias da América do Sul terão nessa edição. É bem provável que os primeiros colocados façam um segundo turno protocolar, sem grandes riscos de cair para a sétima ou para a oitava posição. Isso torna os jogos menos interessantes. Além disso, equipes sem um mínimo de competência na rabeira da tabela dependerão de um sprint ou dois para conseguirem no mínimo sonhar com o Mundial. Não vai parecer uma competição que premiará tanto os méritos. Dificilmente haverá o drama que a gente gosta, de ver um Brasil ou uma Argentina por um fio. A regularidade que se exigia para a classificação direta de quatro times em dez será bem menor com o avanço de seis times em dez.

Uma mudança nos pontos corridos das Eliminatórias, porém, geraria uma potencial perda de dinheiro para a Conmebol – o que, sabemos, é tudo o que Alejandro Domínguez e seus asseclas não querem. Há contratos de televisão, geralmente negociados individualmente com os países conforme o mando de campo, e o torneio longo de 90 partidas garante cardápio cheio para os transmissores pagarem mais. Um novo formato na América do Sul, muito provavelmente, significaria menos jogos. E uma nova solução para viabilizar o dinheiro. A Conmebol quase nunca parece disposta a pensar.

Não é muito simples encontrar uma solução quando seis times têm vagas diretas no continente e mais um ainda pode se classificar pela repescagem intercontinental. Um caminho seria voltar o modelo com grupos, vigente até 1994, o que provavelmente aumentaria um pouco as chances de surpresa. Ou então ampliar o número de fases, para criar mais desafios dentro da competição e quem sabe provocar novos níveis de interesse com partidas decisivas. Mas, de novo, é difícil atingir o total de 90 partidas à disposição da televisão – quem realmente manda no negócio. Da mesma forma, há o risco de perder a mão no número de embates e transformar até clássicos em duelos redundantes.

É uma pena que as Eliminatórias na América do Sul pareçam mais um estorvo, de certa maneira criado pela própria Fifa. Não dá para negar que a criação do modelo de pontos corridos foi bastante interessante em seu princípio, a partir do Mundial de 1998. Era uma competição recheada de confrontos de peso, que demandava uma regularidade altíssima de três anos e que possuía enormes especificidades culturais. Nesse sentido, mesmo com poucos times, o futebol de seleções sul-americano costuma dar um banho nos demais continentes. A força de cada país se tornava mais expressa.

Contudo, não é que as últimas edições das Eliminatórias encheram tanto os olhos assim. Alguns times sofreram quedas de nível com o envelhecimento de grandes gerações e o desafio se tornou menor. Dificilmente o Brasil sofreu para se classificar nesse formato, mas a tranquilidade das duas últimas edições tornou o qualificatório enfadonho para a Seleção. Ainda houve sua dose de emoção nas rodadas finais, mas não mais com aquele bolo de times por um fio. Tantas vezes, o risco de não se classificar soou mais como incompetência. E nem assim para os azarões, como Bolívia ou Venezuela, reverterem o quadro.

Mesmo o calendário geral das seleções na América do Sul provoca algumas questões sobre o formato das Eliminatórias. O que fazer? Os amistosos se tornam mais limitados, com a programação cheia da Europa por causa da Liga das Nações. A Copa América já vem acontecendo numa frequência exagerada desde a última década, o que também desvaloriza o produto para os espectadores, muito embora a Conmebol ganhe dinheiro em seu puxadinho nos Estados Unidos. O futebol de uma maneira geral, e o de seleções também, anda saturado de partidas, quando qualquer politicagem tem como solução o aumento do número de vagas. Só que ninguém vai dar um passo atrás, porque isso mexe nos bolsos.

Um caminho sempre levantado é o da união da Conmebol com a Concacaf. No aspecto das Eliminatórias, isso poderia gerar mudanças, mas há dúvidas se provocaria mesmo uma melhora. O formato do torneio na América do Norte, Central e Caribe também é bem arrastado e cheio de atalhos às seleções mais fortes. Além do mais, uma fusão nesse sentido iria colocar em xeque privilégios, e há dúvidas se algumas federações desejam mesmo perder esse espaço. Só se o dinheiro aumentar muito mais, o que não parece ser tão viável antes da criação de um produto comercial realmente atrativo para televisão e patrocinadores.

Dá para esperar grandes jogos nestas Eliminatórias Sul-Americanas de 2026? Sempre dá. A América do Sul tem uma cultura futebolística que é única. Nunca deixa de ser legal o impacto regional que o futebol gera, a maneira como os elementos locais impõem desafios a mais. Há choques de sentimentos, além das partidas. O mando de campo e o calor das arquibancadas são nossos grandes bens. Mas até que ponto bastam? Sinceramente, isso parece bem pouco àquilo que o qualificatório da Conmebol oferecia até poucos anos atrás. Em partes, lembra o problema que acontece na Libertadores, que perdeu virtudes nos últimos anos, com um inchaço que exacerba ainda mais a diferença econômica entre os países. Pode até ser legal ver seu time no Brasil com chances quase todo ano, mas o torneio em si perdeu um tanto de seu brilho de se ver como um todo e ficou mais maçante.

Por enquanto, tudo é teoria. As respostas virão de fato a partir dessa quinta-feira, quando a bola rolar para os três primeiros jogos das Eliminatórias. Mas uma possível mudança de formato já deveria ter sido pensada com a Copa de 32 seleções, agora soa como urgente após o Mundial de 48 equipes. É ver o que será feito em 2030, especialmente se a candidatura encabeçada pelos sul-americanos conseguir vencer a corrida – o que nesta altura parece um pouco improvável, mas tudo bem. O futebol da América do Sul deveria ser visto como único, especialmente por quem o comanda. Sem pensar e se deixando ir pelo fluxo, parece mais do mesmo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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