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Desculpe Cruzeiro, mas título do Atlético faria bem ao novo Mineirão

Não é tão fácil se lembrar em que jogos você foi ano passado, ou há dois anos. Não contam os decisivos e os clássicos, óbvio. Mas aqueles joguinhos de meio de campeonato, muitos você já esqueceu. E nem teria obrigação de lembrar. Agora, pense em quais foram seus primeiros jogos de perto, lá quando você era criança e ficou o dia todo na ansiedade de chegar a hora de ir ao estádio. Esses você jamais esquecerá, não importa o quão inútil fosse o encontro.

Eu não me lembro que jogos vi em 2011 ou 2012, mas lembro da segunda rodada do Campeonato Mineiro de 1989. Foi em 12 de abril, uma quarta à noite, e o Cruzeiro recebeu o Democrata de Sete Lagoas. Sim, foi em um Mineirão vazio o segundo jogo de futebol que vi em um estádio na minha vida.

Jogo sem muita graça. O Democrata abriu o marcador no primeiro tempo, em um gol de contra-ataque (não me pergunte o autor). Naquele momento, os dois (sim, eram dois) torcedores do Jacaré começaram a comemorar e eu percebi que tinha entrado no setor dos visitantes. Pedi para mudar de lado, porque queria estar mais perto do clima do jogo (dividir um setor do Mineirão com dois indivíduos não é um programa dos mais empolgantes para uma criança de dez anos).

O Cruzeiro acabou empatando, mas ficou por aí. Não houve pressão no final, mas também não houve reações tensas da torcida. Tanto que dois sujeitos da Máfia Azul até ficaram mais preocupados em explicar para um moleque paulista que parecia perdido (eu, no caso) como funcionavam as coisas no Mineirão do que em cornetar a equipe.

A visão externa, ainda fiel ao velho Mineirão (Foto: Ubiratan Leal)
A visão externa, ainda fiel ao velho Mineirão (Foto: Ubiratan Leal)

No dia seguinte, eu fui na empolgação e fiz um passeio pelas instalações do Mineirão. Foi a primeira vez em que fiquei tão perto de um gramado de futebol. E o saguão com pôsteres dos grandes times que fizeram a história daquele estádio (e era 1989, vários grandes craques e vários grandes times passaram por lá depois disso) ficaram na minha cabeça. Minha família deve ter ficado de saco cheio de tanto que eu falei da história daquele estádio que eu tinha conhecido.

Hora de a tela desse texto ficar preta e voltar, com o personagem (eu) já crescido (para cima e para os lados), o Mineirão reformado ao fundo e aparecer a inscrição “24 anos depois…”

Então, resolvi ver a quantas anda esse Mineirão by Fifa. Não só as instalações, mas também o novo Museu do Futebol Brasileiro, o local em que a história da grande casa do futebol mineiro ficaria preservada. E não achei muito daquele Mineirão da minha infância.

Não vou dar uma de saudosista, de dizer que era melhor naquele tempo e tal. Talvez fosse, mas os mineiros que passaram tantas alegrias e tristezas no estádio têm mais capacidade que eu para dizer. E, de qualquer forma, ver o estádio padrão Fifa e seu museu virou atração turística em Belo Horizonte. Passeios guiados ocorrem de hora em hora, e a procura tem sido boa a ponto de alguns grupos esgotarem com antecedência.

Talvez esses visitantes todos não se preocupem com a história, e eu que seja saudosista demais. Mas falta passado nesse estádio. O exterior dele é uma exceção. A fachada é tombada e os responsáveis pela obra não derrubaram a cobertura como no Maracanã (decisão bastante discutível do pontos de vista técnico e ético, como apontaram reportagens da ESPN Brasil). Prolongaram a cobertura com policarbonato, mas não descaracterizou o estádio.

As imagens do velho Mineirão no novo museu
As imagens do velho Mineirão no novo museu

Fora isso, o resto é novo, não tem mais aquela cara de “puxa, o Tostão e o Reinaldo passavam por aqui antes de cada jogo”. E, bem, não fizeram questão que ninguém achasse isso. Mesmo que fosse forçada de barra, podiam deixar rastros do estádio original. Não conheci o Maracanã versão Fifa, mas o Arbeloa fez ao estádio carioca essa mesma crítica. Acho que o espanhol tem uma dose de razão.

O Museu do Futebol do Mineirão podia compensar, mas não ajuda muito. Há alguns painéis, fotos e um vídeo com pessoas contando a relação que elas tinham com o Mineirão. É pouco. O estádio merecia homenagens aos grandes times de Atlético, Cruzeiro e até América que lá jogaram e relembrar momentos da seleção brasileira. Coisas que eu tinha visto no Mineirão de 1989, e não vi na versão 2013.

Já que zeraram a história, que surjam outras para prestar a justa homenagem ao estádio que se tornou símbolo do futebol de Minas Gerais. E a primeira delas seria um título do Atlético nesta quarta. Futebolisticamente falando, sou indiferente a quem ganhará o título da Libertadores. Mas, pensando apenas na vida do Mineirão, acho que um título do Galo faria um bem ao estádio. Ele começaria a construir sua nova vida, para aos poucos deixar de conviver com a sombra do que ele foi. Afinal, não é fácil competir com a memória afetiva de milhões de torcedores mineiros e de um garoto paulista que virou um jornalista ranzinza.

Foto de Ubiratan Leal

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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