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Del Valle tem um herói que veste luvas, adivinha pênaltis e não sabia cair no chão

“Em algum momento, brincando, dissemos: ‘Imagina se chegamos à final e somos campeões sem nunca ter ganhado um torneio aqui no Equador?’. Somos a equipe com menos chance de ganhar a Libertadores, mas sonhar não custa nada”, disse Librado Azcona, ao site da Fifa, depois do jogo de ida das quartas de final, contra o mexicano Pumas. O Independiente del Valle, naquele momento, já superara muito as expectativas, eliminando o River Plate na fase anterior. Mal imaginava que seria o carrasco de outro gigante argentino: na noite da última quinta-feira, venceu o Boca Juniors, em La Bombonera, por 3 a 2 e concretizou a primeira parte da piada-profecia de Azcona. A segunda dependerá muito do que o goleiro de 32 anos fizer contra o Atlético Nacional, nos dois jogos mais importantes da história do clube equatoriano.

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No fundo, basta manter o que vem fazendo desde o começo do mata-mata da Libertadores. No Monumental de Núñez, o River Plate criou 22 situações de gol e marcou apenas um. Foi uma atuação tão incrível que o próprio Azcona ficou assustado ao ver os melhores momentos. “Dentro de campo, estava concentrado. Mas dois dias depois eu vi a partida novamente na TV. Eu defendia e, em dois segundos, eles estavam atacando meu gol novamente. Já estávamos classificados, mas fiquei nervoso vendo tantas situações que o River criou”, disse. O ex-goleiro do River, Pato Filol, afirmou que nunca viu um goleiro visitante defender tão bem no Monumental. E há um detalhe interessante: Azcona quase não enfrentou o River porque havia sofrido uma entorse.

As quartas de final foram mais equilibradas. Independiente Del Valle e Pumas trocaram vitórias por 2 a 1 e decidiram a vaga na semifinal nos pênaltis. Azcona defendeu o terceiro chute mexicano, cobrado por Ismael Sosa – que, como manda a regra que obriga o melhor em campo a errar seu pênalti, havia feito os dois gols do Pumas no tempo regulamentar. Poderia ter sido o fruto de muito estudo. Mas foi fruto de pura inspiração. “Na verdade, antes de vir ao estádio, o técnico (Pablo Repetto) me deu um CD (dos pênaltis do Pumas), mas eu disse que era melhor não ver o vídeo”, disse, ao El Comercio. Ao Olé, completou: “Não sou de pegar pênaltis. Nem treinamos isso. Tento esperar até o último momento e tomo uma decisão”.

E, então, veio a Bombonera. O Del Valle já havia surpreendido o mundo com a vitória por 2 a 1, em casa, mas repeti-la no mais perigoso palco do futebol sul-americano seria um pouco demais. Sem falar que nunca, segundo a ESPN latina, uma equipe havia eliminado River Plate e Boca Juniors na mesma competição. Para chegar à final, os equatorianos teriam que ser os primeiros. “Eu me vejo sendo decisivo contra o Boca e defendendo um pênalti de Tevez”, disse ao Olé, duas semanas antes do jogo da última quinta-feira. Azcona, ao que parece, também é um pouco vidente. Entre outras defesas, parou um pênalti cobrado por Nicolás Lodeiro e foi, de fato, importante para a classificação do Del Valle. De acordo com dados da ESPN latina, é o goleiro com mais defesas na Libertadores (56).

No entanto, aos 11 anos, quando foi aceito no seu primeiro clube, o paraguaio 12 de Octubre, nunca havia pegado no gol. “Era atacante no colégio. Fui ao treinamento e, dos 900 garotos, 400 eram atacantes. Quando me perguntaram, disse que era goleiro. Não tinha nem luvas! Joguei 20 minutos e levei seis gols. Foi uma coisa de louco: fiquei como terceiro goleiro sem saber como agarrar uma bola ou me jogar”, disse ao site da Fifa. “Quando cheguei em casa, não sabia como me deitar, de tanto que estava ralado”. Morava em Caacupé e às vezes tinha que percorrer os quase 30 quilômetros que o separava de Itaguá, onde fica o 12 de Octubre, de bicicleta.

Ficou no clube paraguaio até 2008, quando começou a fazer sua carreira no Equador. Passou uma temporada na Liga de Loja e acertou com o Independiente Del Valle, em 2010. Ganhou a nacionalidade equatoriana, quatro anos depois, e foi convocado paras últimas duas edições da Copa América e para jogos das Eliminatórias, mas ainda não estreou pela seleção que surpreende na América do Sul.

E não foi apenas na defesa do pênalti de Lodeiro, quando a classificação do Del Valle já estava praticamente garantida, que Azcona foi importante na Bombonera. No primeiro tempo, com a semifinal ainda indefinida, foi corajoso contra Tevez, depois de erro da sua defesa, defendeu chute de Jara e foi sempre muito seguro na pressão ofensiva do Boca Juniors – com exceção de uma jogada individual de Tevez, em que espalmou a bola para a pequena área e foi salvo pelos companheiros.

“Estou jogando meus últimos jogos pelo Independiente”, disse Azcona, segundo o El Comercio. Despertou o interesse de clubes paraguaios e argentinos. Tem vínculo até dezembro, mas deve aproveitar este momento de alta para conseguir um grande contrato. Mesmo que isso signifique, por que não?, desistir de um possível duelo contra o Real Madrid, no Mundial de Clubes do final do ano, caso o Independiente del Valle seja campeão. “Tenho que pensar na minha família”, completou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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