América do Sul

Copero y peleador

Vinte e quatro anos depois o Peñarol volta a uma decisão da Copa Libertadores da América. Quarenta e nove anos depois a hinchada carbonera revê o algoz Santos. Contra todas as previsões e até mesmo contra o próprio desempenho na fase de grupos, os pentacampeões sul-americanos estão na final. Para muitos por mera figuração e saudosismo… A maioria acredita que o Peixe teria mais dificuldades contra o Vélez, por exemplo. Alguns mais empolgados, incluindo jogadores santistas, já imaginam o duelo Neymar x Messi na final do Mundial de Clubes. No entanto, o fato é que ainda há – pelo menos -180 minutos a serem jogados. Serão 180 minutos do Santos contra um time que derrubou três equipes favoritas no mata-mata, decidindo todas fora de casa. Mais, que derrubou três equipes que tem estilos de jogo similares ao dos paulistas.

Em todo o mata-mata o jeito de jogar do Peñarol de Diego Aguirre foi simples e direto. Sempre armado em um 4-4-1-1, a tática uruguaia se baseou na compactação de suas duas linhas de quatro e rápida transição ofensiva. Lá atrás o goleiro Martín Sosa comanda o quarteto composto por González à direita, Carlos Valdez e Guillermo Rodríguez no miolo de zaga e Dario Rodríguez à esquerda. Na segunda linha aparecem o rápido Mathias Mier pela esquerda, o mais marcador Freitas e o versátil Aguiar pelo centro, e Mathias Corujo pela direita. À frente deles, o craque do time, Martinuccio, orquestra as ações ofensivas, enquanto lá no ataque Olivera segura os zagueiros e escora os chutões dados pela defesa.

Dessa forma nas oitavas de final a equipe carbonera achou um gol contra o Internacional em Montevidéu e tratou de se defender – com bastante sucesso – pelo resto do jogo. D'Alessandro, Andrézinho, Sóbis e Oscar pouco fizeram, mas Leandro Damião em jogada inspirada decretou a igualdade. No jogo de volta o Inter saiu na frente com um minuto e parecia classificadíssimo para as quartas de final. Nos cinco minutos iniciais do segundo tempo, porém, o Peñarol mudou a história da partida. Com Aguiar forçando o jogo pela esquerda em velocidade, Martinuccio e Oliveira viraram o placar. Dali em diante a ótima marcação e a sempre citada garra uruguaia garantiram o resultado, mesmo contra todos os talentos individuais do Inter.

Diante da Universidad Católica, que havia eliminado o Grêmio de forma inapelável, o Peñarol uma vez mais se viu pressionado em seus domínios. Mas, com dois chutões pra frente e duas falhas do goleiro conseguiu um 2 a 0. No Chile, a Católica teve mais posse de bola e mais chances. La UC até fez o necessário 2 a 0, mas a aplicação tática e determinação falaram mais alto. No fim do jogo, Estoyanoff – em nova falha do goleiro – marcou e colocou os uruguaios na semi.

No duelo contra o Vélez não foi diferente. Contra um adversário muito mais técnico e com jogadores melhores, os manyas trataram antes de tudo de se defender. Em diversos momentos os uruguaios pareciam jogar fora de casa, apenas explorando os contra-ataques. Depois de duas chances pra cada lado, o Peñarol achou o gol em um escanteio cobrado por Aguiar. Daí pra frente o Vélez veio pra cima e, apesar da pressão, pouco ameaçou o goleiro Sosa. No jogo da última quinta o gol de Mier, após abafa da zaga e lindo passe de Martinuccio, ganhou a classificação. Mesmo com os argentinos superiores durante toda a partida, apenas os cruzamentos na área tiveram efeito. Pênalti perdido – e duvidoso – à parte, foi uma vez mais o triunfo da raça e tática ante o talento.

Por isso o Peñarol tem sim chance contra o Santos. O cenário será o mesmo dos últimos seis jogos: uruguaios em duas linhas de quatro, marcando o tempo todo e apostando na transição ofensiva rápida, contra uma equipe melhor, com destaques individuais e sem grandes fraquezas. Resta saber como o Peixe vai atuar no caldeirão da hinchada manya e como vai se portar tendo a bola nos pés durante a maior parte do jogo – sem os contra-ataques, já que o Peñarol dificilmente vai sair lá de trás. Também é necessário ponderar de que maneira Neymar vai pros dois jogos.

O craque da Libertadores é o diferencial do Santos e em muitos momentos a única jogada da equipe paulista. Se estiver em um dia ruim ou não conseguir se desvencilhar da forte compactação do setor defensivo uruguaio, podem haver problemas. De toda a maneira, ele é a grande diferença da final para os outros jogos que o Peñarol fez. Por mais que Ganso volte para a última partida, não deverá estar em boas condições de jogo. Assim, para vencer o Santos do mesmo jeito que venceu os demais, o Peñarol precisa parar Neymar. Se o Cerro pareceu nem ter tentado, os uruguaios certamente tentarão. Será difícil, mas não impossível… Como o título carbonero.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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