América do Sul

Conquistadores da América

A Europa está em crise, mas o domínio da Liga dos Campeões como principal competição continental de clubes é intocável. Basta ver o dinheiro gerado por cada torneio. Para aproveitar o momento da economia de cada região e ganhar terreno na economia do esporte, a Libertadores teria um caminho natural: expandir seu território ao norte.

A ideia de incluir os Estados Unidos na Libertadores não é nova. Com a consolidação dos mexicanos na Libertadores – este será o 15º ano – e a estabilização do futebol entre o público norte-americano, a união da tradição futebolística do sul com o dinheiro do norte parece natural. A Conmebol pensou nisso ao idealizar a Copa Pan-Americana, projeto que não andou e saiu do papel já como Copa Sul-Americana (mesmo assim, chegou a ter participação do DC United em 2005). Em 2010, Nicolás Leoz, presidente da Conmebol, falou que convidaria times da MLS para a principal competição da América do Sul.

Há interesse de vários lados. Os patrocinadores teriam interesse em ter sua competição chegando ao mercado norte-americano. O público da MLS também teve reação positiva, pensando em duelos internacionais que mediriam melhor a força de suas equipes. O nível técnico da Libertadores não pioraria, pois as vagas norte-americanas deveriam sair dos times mais fracos da América do Sul que, não costumam fazer frente aos melhores do continente.

As viagens, muitas vezes apontadas como um problema, não são tão complicadas como parecem. Os times da MLS estão em grandes cidades, todas acessíveis facilmente por avião. O deslocamento mais longe em uma situação normal seria de Buenos Aires a Vancouver, 20 horas contando uma conexão. Parece bastante, mas muitas viagens da Libertadoers de hoje não são tão menores. Clubes brasileiros e argentinos levam esse tempo – só que com bem menos conforto – para chegar a cidades no interior da Venezuela, da Colômbia ou da Bolívia.

A distância geográfica seria mais delicada para os norte-americanos. Hoje, atuando na Concachampions, o deslocamento mais longo é até Trinidad e Tobago, bem mais próximo que o Chile ou o Uruguai. De qualquer modo, o grande desafio geográfico não seria a distância, mas o clima: um jogo da Pré-Libertadores poderia contrastar o inverno de Toronto no jogo de ida com o verão do Rio de Janeiro no jogo de volta.

Mesmo com esses obstáculos, a grande questão é política. A inclusão dos Estados Unidos nos moldes da mexicana teriam dois problemas: a Conmebol não fica inteiramente satisfeita pelo fato de a MLS enviar seu segundo escalão para a Libertadores (o primeiro estaria na Concachampions) e a Concacaf não fica satisfeita por ver a confederação do sul invadir sua área de poder. Ainda assim, é uma possibilidade mais simples e rápida.

Outra possibilidade, bem mais complexa, seria uma reestruturação das instituições de futebol desse lado do Atlântico. Desde o final da década de 1990, dirigentes da fifa (incluindo Joseph Blatter) chegaram a defender que as Américas se unificassem sob uma confederação. Ou seja, uma fusão entre Concacaf e Conmebol. Isso pode fazer sentido geográfico, mas mexeria com diversos feudos dentro do futebol norte e sul-americano. Com a queda de Jack Warner, histórico presidente da Concacaf, há um vácuo de poder na entidade, o que gerou um momento político conturbado que congela negociações como essa.

Tanto que, quando fala no assunto, dirigentes da MLS tentam mostrar que prestigiam a Concacaf. “Não estamos perto da Libertadores. E não é simples, não é só a Conmebol convidar. É uma questão entre a Concacaf e a Conmebol”, disse Don Garber, comissário da MLS em entrevista à Sports Illustrated. “Hoje, estamos fazendo tudo para transformar a Liga dos Campeões da Concacaf em um torneio mais relevante nos mercados locais.” Mas o dirigente norte-americano não fechou as portas, dizendo que adoraria conversar com quem fosse preciso para viabilizar essa entrada na Libertadores.

O tema já está na mesa. Ainda que negociações oficiais não tenham acontecido, dirigentes dos dois lados já falaram do assunto e conhecem os benefícios e malefícios dessa união. Mas, para saber se ela ocorrerá um dia (e se isso seria em curto, médio ou longo prazo), depende dos próximos passos de cada um. E tais passos serão dados em algum momento.

PRÓS

O que a Libertadores ganha
– Ganharia força no maior mercado das Américas;
– Necessidade de se profissionalizar como evento;
– Se houver critérios técnicos, clubes muito fracos perderiam suas vagas.
– Mais estrelas internacionais em campo.

O que a MLS ganha
– Mais intercâmbio internacional;
– Mais legitimidade técnica e motivação competitiva;
– Aumentar sua penetração em um mercado crescente como o sul-americano (sobretudo o brasileiro).
– Contato com mais estrelas internacionais.

CONTRAS

O que a Libertadores perde
– Em janeiro e fevereiro (junho e julho em menor grau), alguns times teriam de enfrentar grandes variações climáticas;
– Tradição de competição puramente sul-americana, já abalada com a entrada do México em 1998, se perderia completamente;
– Não seriam necessariamente os melhores times da MLS;
– Custo político de tirar vagas de alguns países.

O que a MLS perde
– Viagens mais longas para compromissos internacionais;
– Ter de lidar com a cultura de competição da América do Sul, muito diferente da existente nos Estados Unidos e na Concacaf;
– Os times participantes da Libertadores teriam de antecipar o início da temporada e não poderiam emprestar jogadores para a Europa;
– Custo político de desagradar a Concacaf.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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